Dolores é parte importante da boa fase do cinema pernambucano (Foto: Marcelo Lyra)
Dolores é parte importante da boa fase do cinema pernambucano (Foto: Marcelo Lyra)
Dolores é parte importante da boa fase do cinema pernambucano (Foto: Marcelo Lyra)

DJ Dolores lança disco com trilhas compostas para filmes como O Som Ao Redor

Por Paulo Floro

DJ Dolores, um dos nomes mais conhecidos da música eletrônica no Brasil, também é nome recorrente no cinema nacional. Seus achados estão presentes em filmes da safra recente do cinema nacional, como O Som Ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, Tatuagem, de Hilton Lacerda e Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. Agora, ele reúne toda essa sua produção para as telonas em um disco de vinil, Banda Sonora, que sai pelo selo Assustado Discos este mês.

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Dolores começou sua carreira ainda na fase pré-mangue beat, quando as bandas Nação Zumbi e Mundo Livre S/A não tinham sido formadas. Naquele período existia uma cena forte de DJs que acabou impulsionando e servindo de instigação para a explosão que viveria a cidade logo depois. Com os projetos Aparelhagem e Santa Massa, Helder Aragão (alter-ego de Dolores) se destacou como produtor e despontou também no exterior.

Seu trabalho em trilhas para filmes é bem mais antigo do que pode parecer e se confunde com seus primeiros passos como artista de música eletrônica. Ele compôs para “Enjaulado”, primeiro curta de Kléber Mendonça Filho. Mais tarde, a faixa “Setúbal”, com uma atmosfera sombria e tensa, seria um dos destaques de O Som Ao Redor. Hoje, Dolores é nome importante dentro do contexto de prestígio do cinema pernambucano. Com Tatuagem, ele venceu o Kikito de melhor trilha sonora no Festival de Gramado deste ano. “Esses filmes são muito ‘redondos’, claros em suas intenções estéticas”, diz Helder.

Banda Sonora terá pré-lançamento neste domingo (20) no Bar Boratcho, na Galeria Joana D’Arc, no Pina, às 18h. A entrada é gratuita. Leia entrevista que fizemos com ele.

Como foi selecionar as músicas para o Banda Sonora? Você teve algum parâmetro ou foi algo baseado na memória afetiva em relação aos filmes?
Esse é um disco de canções que foram inspiradas por imagens das mais diferentes procedências, de documentários a filmes de natureza fantástica. Escolhi um ou outro tema movido por razões igualmente diversas: uma lembrança pessoal relacionada, um achado musical, uma letra engraçada ou até porque havia uma boa história a ser contada por de trás da música. Enfim, são pedaços soltos da minha memória no trabalho com cinema. Nunca havia pensado sobre o assunto até que Rafael Cortes me propôs inscrever essa compilação no edital da Natura [N.E: Natura Musical, que apoia a gravação de discos e circulação de turnês].

Você participou da trilha de filmes recentes e bastante elogiados como O Som ao Redor, Estradeiros, Amor Plástico e Barulho, Tatuagem e Rio Doce-CDU. Acha que as trilhas também são responsáveis pro esse destaque que o cinema pernambucano vem recebendo nos últimos anos?
Espero que a musica tenha contribuído para que esses filmes se destacassem. Esses filmes são muito “redondos”, claros em suas intenções estéticas. Talvez exista algo em comum entre eles: trata-se de diretores com idades muito próximas (seriam da mesma geração?) e produzindo a partir do mesmo lugar, o Recife, que também é inspiração e local onde se passam as narrativas. Como estou nas mesmas condições deles, com referências parecidas, talvez tenha uma forte e espontânea conexão com suas intenções.

As festas no Recife hoje não priorizam a música e o DJ é mais um cara apertando o botão para tocar faixas conhecidas. Fortalece a mesmice

Depois de ver Tatuagem percebemos como ele é um filme muito sonoro. A trilha ajudou a contar a história dos personagens. O que te inspirou e motivou para criar a trilha para esse longa?
Hilton [Lacerda], o diretor, é um ser humano generoso e estimulante e um grande amigo. Deu-me muita liberdade de criação, além do que, todo o ambiente do filme é muito inspirador e cheio de entusiasmo. A gente tinha conversado sobre o Tatuagem desde anos antes dele existir, portanto eu estava familiarizado sobre o que ele queria mesmo antes de começarem as filmagens.

“Setúbal” é um dos destaques da trilha de O Som ao Redor, mas ela também esteve em “Enjaulado”, primeiro curta de Kleber Mendonça Filho. Como é sua relação com ele e o que achou de O Som Ao Redor, que agora tem chances de vencer o Oscar?
Kleber é um sujeito muito especial. Ele é um dos poucos que domina cada detalhe do processo. Diferentemente de outros diretores, eu mando uns temas para ele e ele usa como bem quer. Não me meto na montagem, onde ele vai encaixar, etc. É o método de trabalho dele e funciona muito bem. Sobre o Oscar: a única coisa que me faz torcer pelo filme é o tanto de visibilidade que um prêmio desses traz. Com ou sem Oscar, O Som Ao Redor vai continuar sendo um filme poderoso que não precisa do aval da indústria.

E em Amor, Plástico e Barulho temos a presença do brega, que é um gênero que faz parte da estética da periferia que você sempre curtiu, certo? Como foi compor a trilha para o filme?
Foi a segunda experiência com Renata Pinheiro. Ela me deixou livre e compus, ao lado de Yuri Queiroga, meu parceiro nesse projeto, alguns temas diretamente conectados ao brega pernambucano. Não foi nossa intenção mimetizar o gênero, portanto nos demos uma enorme liberdade de fazer musicas que fossem mais “dentro do espírito”. Há momento de experimentalismo explícito, há ecos de musica concreta, dubs e o tema de abertura é um reggaeton bem esquisito.

Quais as trilhas que você está trabalhando atualmente?
Acabei de finalizar Periscópio, que estreou no Rio semana passada. Vai de orquestrações ao rock eletrônico. Ficou muito bom. No momento, na expectativa de projetos de dança e um filme. Mas como não está cem por cento fechado, melhor não comentar.

https://soundcloud.com/dj-dolores/tropical-dj-doloress-mixtape

Dolores, você já chegou a dizer na era pré-mangue beat existia uma cena de DJs recifenses e que todo mundo era DJ. Hoje temos um circuito bem estabelecido de festas da cidade. O que acha desse atual momento da noite em Recife?
O mangue começou com festas. Demorou um tempo até que chegarmos ao know-how de produção de shows (de fato, antes das bandas assinarem com gravadoras, agentes e empresários, funcionávamos como coletivo). As festas tinha um caráter aglutinador de gente que gostava de musica, daí a razão por tantas bandas terem surgidos entre pessoas que se conheciam naquele ambiente. As festas que acontecem hoje na cidade não priorizam a música e o DJ é mais um cara apertando o botão play para tocar tracks conhecidos do que um artista preocupado em estabelecer novos paradigmas e abrir horizontes. Ao invés de educar o público, fortalece a mesmice. Lamento bastante que as coisas tenham tomado essa direção.

Com ou sem Oscar, O Som Ao Redor vai continuar sendo um filme poderoso que não precisa do aval da indústria

E a música eletrônica brasileira em geral, evoluiu nos últimos anos? Você tem acompanhado as novidades, o que acha?
Acompanho bastante os blogs de festas ao redor do mundo. Há uma enorme variedade de desconhecidos produzindo música para dançar com qualidade, inventividade, vibe boa. Tem muitos subgêneros surgindo, milhares de produtores criando faixas que nunca serão conhecidas por aquele público que se restringe a ouvir apenas o que a grande indústria oferece. Pior para eles, o público. Estão comendo ração ao invés de filé.

Pode nos contar mais do seu projeto, o STANK, feito ao lado de Yuri Queiroga?
O STANK surgiu do improviso e é essa a nossa natureza. Tocamos os dois juntos a também fizemos experiências com Lucas dos Prazeres, e Dedesso [cantor da banda de brega, Vicio Louco]. O próximo passo é um EP com o Maestro Spock. Vai se chamar Frevoton e, como sugere o nome, levará o frevo a peso e BPMs nunca antes visto.

Sua música tem um contato muito próximo com ritmos tradicionais e você é famoso no exterior como um dos destaques da World Music. Esse termo já chegou a te incomodar alguma vez?
Minha música também tem contato com a tradição nordestina. É apenas uma das influências. Quando começamos, o termo world music havia se tornado bastante pejorativo e uma cena nova se iniciava, mais clubber, mais dance, bem além do parâmetro do soul/funk/disco. Era aí que nos encaixávamos. Evitei muitos festivais de world music e, se for fazer um balanço de carreira, frequentei mais festivais de jazz, eletrônica e rock que os de world music. Há uma ideia de centro de mundo, de juízo de valores que me soa muito parecido com quando alguém fala de regionalismo. No fundo, trata-se de pura xenofobia.

Por fim, pensa em levar o disco Banda Sonora para os palcos? Talvez uma turnê com discotecagem?
Já temos turnê marcada entre junho e julho do ano que vem pela Europa. Com musica e vídeo!

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