O filme Cinesapiens, que pensa experimentar no 3D (Divulgação)
Foto: Claudia Clemente / Divulgação
Foto: Claudia Clemente / Divulgação

PORTUGUÊS DE PORTUGAL
Cineasta Edgar Pêra fala da falta de intercâmbio no cinema de Portugal e Brasil e conta sobre seu filme gótico O Barão

Edgar Pêra é um dos nomes mais inovadores do cinema mundial hoje e um dos motivos de conhecê-lo tão pouco é o fato dele ser português. Nosso desconhecimento sobre a arte contemporânea feita em Portugal é algo histórico, mesmo sendo um país que fala nosso idioma. Diretor de O Barão, Pêra é um dos nomes selecionados para a Mostra Cinema Português Contemporâneo, que termina neste domingo no Recife e depois segue para São Paulo e Rio de Janeiro.

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Dono de uma filmografia marcada pelo experimentalismo, seu longa O Barão (2011) foi bastante elogiado pela crítica e foi selecionado para o Festival de Roterdã, hoje a maior vitrine para filmes de estética mais ousada. O filme é uma adaptação de uma história escrita por Branquinho da Fonseca e fala de um vampiro nazista que aterroriza uma região montanhosa.

O longa também é um remake de um filme “fantasma” realizado durante a 2ª Guerra Mundial, mas proibido pela ditadura de Franco por temer comparações (a cópia foi destruída). Pegando como inspiração o expressionismo alemão, O Barão vem sendo visto como uma alegoria da crise que vive a Europa. Outro trabalho de Pêra que merece ser conhecido é seu segmento no filme 3X3D, feito este ano em parceria com ninguém menos que Jean-Luc Godard e Peter Greenaway.

Chamado de “Cinesapiens”, o segmento pensa uma experimentação no uso da terceira dimensão na tela grande. Segundo o diretor, o recurso ainda é pouco explorado pelos cineastas. “Ainda há de aparecer o Cidadão Kane do 3D”. Em entrevista à Revista O Grito!, Edgar Pêra falou sobre a relação Brasil-Portugal, seu desejo de trabalhar em parceria com cineastas daqui e do atual momento do cinema português.

Você tem uma produção extensa e é um dos nomes mais conhecidos do cinema português. Mas ainda é pouco conhecido aqui no Brasil. Na sua opinião, falta uma maior intercâmbio entre os dois países?
Falta um intercâmbio em muitas áreas e o cinema não é exceção.

Como você avalia a atual produção do cinema contemporâneo português?
Numa fase de grande vigor em termos de expansão internacional. Por outro lado, estamos à espera que as burocracias e os cortes orçamentais sejam superados.

Seu filme O Barão (2011), exibido na Mostra de Cinema Português aqui no Brasil, já foi chamado de “neuro-gótico”. Quais foram suas influências para criar o filme?
Foram muitas e nenhumas. Tentei imaginar-me como um realizador a soldo duma produtora de filmes de terror série B de Hollywood, a filmar nos anos quarenta durante a 2ª Guerra Mundial, sob um regime fascista. Naturalmente fui influenciado pelo expressionismo como outros cineastas da época o foram (Tourneur, Welles, Ulmer, film noir em geral). No fundo procurei que cada espectador projetasse a sua cinefilia na tela. Mas penso que o mais importante foi a utilização da luz como elemento teatral, com a liberdade que o teatro tem de mudar as luzes a meio duma cena, para intensificar ou contrastar uma emoção. O cinema ainda vive escravizado a muitas convenções, agrilhoado pelas correntes do naturalismo e do realismo.

Li algumas críticas que diziam que O Barão faz referências à crise econômica na Europa, corrupção em Portugal e até mesmo à ditadura. Você tinha tudo isso em mente ao criar essa adaptação da história de Branquinho da Fonseca?
Tinha uma só referência, que se desmultiplicou: a de um ditador sanguessuga, que vampirizava a sua região. Ora, tanto podemos ver nesse Barão o chefe de família na sua poltrona, à espera que a mulher lhe traga uma cerveja, como o ditador português (cujo nome não se deve pronunciar, sob pena de provocar ondas de nostalgia nos setores mais reacionários da nação portuguesa), que arrastou Portugal para a miséria, repressão e ignorância. E há quem veja no Barão os vampiros atuais, escondidos nos gabinetes dos bancos centrais e das agências de rating por exemplo. Há Barões para todos os gostos. E o texto de Branquinho da Fonseca é exemplar: permite que a imaginação se liberte, são vozes do pensamento. O seu Barão é um arquétipo dos ditadores cujo prazo chegou ao fim, mas que se agarram ao poder desesperadamente.

O cinema ainda vive escravizado a muitas convenções, agrilhoado pelas correntes do naturalismo e do realismo.

Você é um dos diretores envolvidos no 3X3D, que experimentou no uso do 3D. Ainda há muito o que se inovar no cinema de terceira dimensão?
Gostei muito de fazer Cinesapiens para o 3X3D. Aprendi imenso e explorei algumas das facetas do cinema “tridimensional”. Mas acredito que o 3D ainda está no princípio, apesar de existir há quase tanto tempo como o cinema 2D. A primeira grande barreira a eliminar são os óculos, que obrigam o espectador a um esforço. Sem auto-estereoscopia não me parece que o cinema 3D se implante como verdadeira alternativa. Entretanto muitos dos filmes 3D são feitos a pensar no mercado 2D e são por isso versões tímidas, que ainda estão aquém do potencial do “cinema em relevo”. Depois, há a questão da linguagem: ainda está por fazer um Citizen Kane do 3D, que utilize o 3D com a maestria que Welles usou a grande angular e a profundidade de campo.

O filme Cinesapiens, que pensa experimentar no 3D (Divulgação)
O filme Cinesapiens, que pensa experimentar no 3D (Divulgação)

O que pode nos adiantar sobre seus novos projetos?
Depois de Cinesapiens para 3X3D, vou continuar a pesquisa sobre a evolução do espectador, a longa-metragem (ou o longa, como dizem por aí…) 3D O ESPECTADOR ESPANTADO. Estou também a preparar outro longa O DINHEIRO NÃO É TUDO que também é uma adaptação de Branquinho da Fonseca, o conto “A Tragédia de D. Ramon”. Estamos à procura de coprodutores na América do Sul. A começar pelo Brasil, claro. Mas desconheço o mercado. Aceitam-se sugestões. :)

O que acha dos filmes brasileiros recentes? Que diretores você acompanha?
Confesso a minha ignorância quase total. O meu contato mais recente com o Brasil foi uma conferência (realizada em Coimbra e Lisboa e organizada pela AIM – Associação de Investigadores da Imagem em Movimento) dada por Ismail Xavier. Fiquei encantado com a sua abordagem à história do cinema, simultaneamente descomplexada e profunda. E foi um prazer conversar com ele. Existe hoje uma barreira entre cineastas, críticos e teóricos, que deveria ser ultrapassada.

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