O livro tem areia colada na capa para dar sensação de desconforto (Divulgação)
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Novo livro de Gustavo Piqueira debocha de um mundo cada vez mais superficial

O escritor e designer Gustavo Piqueira tem gosto em provocar. Seu novo livro, Seu Azul, é uma amostra de como ainda é possível inovar na literatura fazendo o design servir ao texto e dando significado à história. A obra retrata um casal que tenta melhorar o relacionamento discutindo manchetes de portais de notícias brasileiros.

A ideia veio de um analista que sugeriu que o casal conversasse sobre notícias dos portais durante o jantar. Dessa forma, eles teriam um novo assunto a ser debatido todos os dias. É aí que entra uma crítica/deboche de Piqueira sobre o atual momento da imprensa brasileira, que dá espaço para chamadas como “Conheça 5 características do Batman que podem ajudá-lo a evoluir no trabalho” e “Ivete apalpa bunda de Regina Casé”. Detalhe: todas esses títulos são verdadeiros.

Com o passar do tempo, a cada jantar, o casal passa a discutir temas mais amplos, como morte, dinheiro, amor, mas sempre de maneira superficial. “Acredito que são tempos extremamente superficiais. E extremamente conservadores também”, disse Piqueira, autor de 14 livros, em entrevista à Revista O Grito!. Ele afirma que a crítica é tanto direcionado aos portais como também a quem consome esse tipo de conteúdo. “O deboche é dirigido a ambos.”

O livro tem areia colada na capa para dar sensação de desconforto (Divulgação)
O livro tem areia colada na capa para dar sensação de desconforto (Divulgação)

Detalhe mais impressionante do livro em um primeiro momento é o fato dele conter areia de verdade colada na capa. Ao ler a obra, o leitor precisa se sujar um pouco e sentir a textura, nada agradável, de algo se desfazendo. A ideia de Piqueira foi justamente passar esse desconforto. “Uma lembrança constante de que, por mais que a narrativa seja divertida, aquilo tudo não é nem um pouco legal”.

Seu Azul é um lançamento da editora independente Lote42, que neste ano de estreia lançou trabalhos de Bruno Maron e Alechandra Moraes (O Pintinho). Veja abaixo nossa conversa com Piqueira.

A primeira coisa que chama atenção na obra é a inovação de seu design. Ali, todo aquele preciosismo não parece gratuito. Como foi o processo de criação desse formato?
Acredito que o design possa ter um discurso mais eloquente sem cair no tradicional “design ostentação” (o preciosismo gratuito mencionado na pergunta). Design não é algo superficial como a onda ‘sou hipster-sou designer’ nos dá a impressão. Por outro lado, não é necessário que o projeto visual se esconda, que sirva apenas como suporte visual do texto. É possível que ele tenha uma narrativa própria que, combinada com o texto e as ilustrações, resulte no livro. É isso o que busco. Um design que seja, ao mesmo tempo, de ruptura e consistente.

Não tenho, contudo, um processo definido. Nem uma metodologia única de como amarrar design, texto e ilustração em um livro. Cada livro tem sua ordem própria de elaboração (essa é, aliás, a graça toda). Em Iconografia Paulistana, por exemplo, primeiro vieram as imagens. Em Seu Azul, o texto. Texto cujo principal eixo formal é a ausência total de narrador nos diálogos do casal. A ausência total de um ‘guia’ para o leitor. Inclusive em itens básicos, como explicar quem está dizendo cada frase. Utilizei, então, recursos tipográficos para ajudar na qualificação de certas situações (como espremer o entreletra quando um dos personagens está bêbado), o uso de uma fonte tipográfica diferente por personagem, e assim por diante: em cada detalhe do livro, deixei que o design entrasse de modo mais presente. No fim, o resultado acabou saindo algo bastante experimental sem cair nem num hermetismo pretensioso nem num virtuosismo gratuito.

A areia grudada com cola na capa do livro chega a soltar um pouco nas mãos do leitor. O que quis passar com essa experiência?
Desconforto. Uma lembrança constante de que, por mais que a narrativa seja divertida, aquilo tudo não é nem um pouco legal. Também me agradou a ideia de deixar o livro meio “vivo”, como se ele fosse se decompondo à medida em que vai sendo lido.

Seu Azul também pode ser visto como um deboche da imprensa brasileira, ao dar lugar a bobagens e notícias sobre subcelebridades. Foram essas manchetes que te inspiraram a fazer o livro? O que acha da imprensa brasileira atual?
As manchetes (mais especificamente “Conheça 5 características do Batman que podem ajudá-lo a evoluir no trabalho” e “Saiba usar o Photoshop para se transformar numa árvore”) foram, sem dúvida, uma das principais inspirações. Mas tentei escapar de tornar o livro um manifesto contra a imprensa. Primeiro, porque deixaria o livro meio bobo, unidirecional. Segundo, porque acredito que a “culpa” não é só da imprensa atual. Esse cenário desanimador também é fruto do interesse do público por notícias altamente irrelevantes e estúpidas. Basta checar qualquer lista de notícias mais acessadas dos portais. Tem responsabilidade quem vende, mas também tem quem compra. O deboche é dirigido a ambos.

Você chegou a dizer que “Seu Azul” é um livro sobre uma geração em que todos querem ter opinião. As pessoas hoje estão mais superficiais?
Não sei se o termo “geração” é o melhor, já que vejo pessoas dos vinte aos cinquenta trilhando caminhos semelhantes. Mas, para mim, vivemos num tempo em que parece ser mais importante ter estilo e opinião do que qualquer outra coisa. Sem querer elaborar uma tese sociológica aqui (falando de superexposição em redes sociais, hiperconsumo, falta completa de objetivos, etc, etc…), acredito que, sim, são tempos extremamente superficiais. E extremamente conservadores também.

Qual foi sua ideia por trás do personagem Allyson, que desenha seguindo uma orientação do analista? Há realmente um desconforto quando ele aparece.
Os desenhos do Allyson surgem como “lembretes” de que os diálogos dos pais podem até soar divertidos de tão idiotas mas, no fundo, isso é horrível. Um “ok, leitor, se divirta, mas não se esqueça do quão deprimente é isto tudo”. O grau de incompetência com o qual o casal tenta refletir sobre temas mais profundos é algo pesado. E eu queria deixar isso claro, era algo importante para o livro. Mas não queria que esse papel fosse — como é praxe — delegado a um narrador. Daria ao texto um caráter didático que o tornaria desinteressante (e ao autor uma autoridade que ele, definitivamente, não possui). Também seria impossível que o próprio casal olhasse para si com alguma autocrítica (afinal, eles são idiotas). Logo, o filho de sete anos é quem assume a tarefa de revelar o cenário devastador através de seus desenhos.

Seus livros sempre trazem uma provocação, um deboche ilustrado de alguma maneira. Já tem ideia para um próximo trabalho nessa área?
É… Mas, confesso, não é proposital. Quando percebo, já estou tirando sarro. Isso está acontecendo com meu novo projeto, cujo tema são os Evangelhos do Novo Testamento. Ainda estou muito no começo, só devo terminá-lo lá pelo meio do ano que vem.

SEU AZUL
Gustavo Piqueira
[Lote42, R$ 42,90]

Leia Mais
Série adaptada de Torto Arado terá três temporadas na HBO Max