Foto: Dani Neves.
Foto: Dani Neves.
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Johnny Hooker traz contos passionais no Recife no disco de estreia
Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! está fazendo sucesso em plataformas de streaming e iTunes

O cantor pernambucano Johnny Hooker tem um entendimento do pop como poucos artistas brasileiros hoje em dia. Ele sabe que o gênero fala diretamente com sentimentos universais e que serve como filtro para questões muito próximas das pessoas: desejo, morte, saudade, desilusão e sexo, muito sexo. O disco Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! foi lançado na web no final de fevereiro e já figura como um dos registros mais importantes do ano tanto pela sua ousadia estética como pelos feitos que tem conseguido no status quo da indústria fonográfica nacional.

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O trabalho conceitual trata das dores e delícias do desejo e do amor tendo o Recife como cenário. Cada música é um conto passional interpretado com muita veracidade, praticamente tirado das entranhas. “As noites selvagens da cidade exprimem um pouco isso. As pessoas são selvagens, carregadas de sexualidade. De uma melancolia profunda também. Tudo é intenso”, diz Hooker, que se revelou um contador de histórias.

O disco quebrou paradigmas no mercado fonográfico ao alcançar o topo das paradas nas plataformas de streaming e no iTunes. No Deezer ficou em primeiro lugar desbancando a trilha do blockbuster Cinquenta Tons de Cinza. No iTunes passou por cima de álbuns sertanejos, conhecidos por venderem bem. “Imagine se tivéssemos apoio midiático massivo? Se essas músicas estivessem tocando na rádio ao invés de Beyoncé?”.

Conversamos com Johnny Hooker sobre o processo de gravação do novo trabalho, cinema, performance e Recife. Os shows de lançamento do álbum começam dia 27 de março no Recife.

O álbum tem uma paixão rasgada, foras homéricos, lavagem de roupa suja. Impossível não perguntar: as letras teve algo de autobiográfico?
É difícil quantificar onde termina o autobiográfico e começa o ficcional. O que sei com certeza é que tento contar uma história, digo, na minha visão existe uma narrativa muito clara. Abrimos com essa figura que remete a uma Medéia, abandonada, como na versão de Lars Von Trier da peça grega para a televisão, às margens do mar. Ali ela brada seu ódio e anuncia sua vingança. Nesse momento uma espécie de Deus do Desejo é despertado, e através dele que observa onisciente todas essas histórias de amor, vamos sendo apresentados a cada uma delas. Como uma colcha de retalhos, um Short Cuts de contos passionais tendo como pano de fundo o Recife.

No decorrer da primeira parte do disco (“Volta”, “Alma Sebosa”, “Chega de Lágrimas”, “Amor Marginal” e “Segunda Chance”) temos variações de estágios pós-perda que vão da súplica desesperada à falsa aceitação passando pelo deboche da própria situação. E então chegamos a uma espécie de interlúdio em “Boyzinho”. Ali a figura do Deus do Desejo volta a ficar em primeiro plano. Observando o caminhar desse jovem suburbano pelas ruas e becos da cidade, num misto de euforia e culpa religiosa pela sua sexualidade, o personagem principal só interrompe o deus do desejo para reafirmar sua conformação diante do mundo dizendo; “Deus me disse, eu vou ser mais feliz assim”. Na segunda parte do álbum quis tratar mais da superação e expurgação da perda, e por consequência da culpa. Em “Boato” a interlocutora é uma jovem lésbica que conta seus “causos” detalhadamente, e como a percepção que o mundo tem dela não a afeta. Ela toca o terror, mas se assume e dá a cara a tapa.

Nas canções seguintes; “Você Ainda Pensa?” e “Desbunde Geral” o processo de superação se completa, principalmente em “Desbunde”, que encerra em ritmo de frevo. É um carnaval que acabou, mas outro que se inicia, é como olhar para o amor futuro com esperança.

Foto: Dani Neves.
Foto: Dani Neves.

O disco conta com o hit “Volta”, que tocou em Tatuagem, de Hilton Lacerda. A música foi feita para o filme? Qual foi a inspiração?
A ideia de “Volta” é ser um prenúncio de um amor fadado ao fracasso. Assim como no filme, ela fala do amor mítico. Daqueles amantes que estão fadados a se encontrar de novo e de novo, sem nunca conseguirem fazer as pazes com o misto de amor e desejo imensos que tem um pelo outro.

Há diversas referências ao Recife no disco, como bares da Rua da Aurora. Qual sua relação com a cidade e como ela te inspira enquanto artista?
Acho que Recife tem uma energia muito carregada. Existe algo no ar, e as noites selvagens da cidade exprimem um pouco isso. As pessoas são selvagens, são carregadas de sexualidade, de ritmo. De uma melancolia profunda também. Tudo é intenso.

Você busca inspiração no brega e até mesmo no axé mais antigo. Você gosta de trabalhar com esses gêneros geralmente negligenciados pelo pop brasileiro?
Na verdade tenho plena certeza de que esses ritmos é que são o verdadeiro pop brasileiro. Não o que tentam enfiar goela abaixo do povo. E tenho o pressentimento que a redescoberta de nossa identidade, a redescoberta da música popular brasileira vai passar por essa constatação.

Como foi o processo de gravação desse primeiro disco? Depois de um bom tempo fazendo shows e lançando algumas músicas na web, como foi organizar essa estreia em disco?
Bem, gravar um disco é bem caro, como todo mundo sabe. Então só consegui reunir o orçamento necessário para levantar o disco depois que “Alma Sebosa” entrou na novela das 19hrs, Geração Brasil, na qual eu também interpretava o personagem Thales. A novela toda foi um projeto muito ousado e bacana que eu tenho muito orgulho de ter feito parte e sou eternamente grato por ter possibilitado esse disco.

Acho que Recife tem uma energia muito carregada. Existe algo no ar, e as noites selvagens da cidade exprimem um pouco isso.

O disco está fazendo muito sucesso nas plataformas de streaming e no iTunes. Isto em uma época em que essas questões de distribuição estão sendo rediscutidas. Ficou surpreso com o resultado?
Fiquei muito surpreso e extremamente feliz com toda essa repercussão. Principalmente por que abre um precedente pros artistas independentes pernambucanos, visto que, nunca tinha visto uma estreia de um álbum de um artista do estado figurar entre o Top 10 dos mais vendidos em praticamente todo lugar que foi lançado. No Deezer o negócio foi ainda mais impressionante, somos o 2o álbum mais escutado atrás apenas da trilha sonora de Cinquenta Tons de Cinza“!! [Nota do editor: um dia depois da entrevista, o disco chegou ao top da parada na plataforma). O álbum Brasileiro mais escutado da plataforma! E o Brasil é o segundo maior mercado deles no mundo. Imagine se tivéssemos apoio midiático massivo? Se essas músicas estivessem tocando na rádio ao invés de Beyoncé? Se estivéssemos na capa da Rolling Stone? Mas eles não olham de igual pra igual. Eles taxam, classificam, não negociam. E sabe o que eu digo? Vamos achar nosso próprio caminho, sempre achamos. Vamos estar aonde o povo quiser nos ouvir – e pelo visto quer muito graças às deusas!

A performance é parte importante do seu trabalho. Como você construiu essa persona no palco? Ou existe apenas um Johnny Hooker?
Casa fase, cada EP, disco é acompanhado de uma nova persona. Através do conceito das canções chego no personagem. Depois de passada a fase, sento e me pergunto; “Do que vamos falar agora?”. E não foi diferente com o Macumba…. Quis fazer um disco clássico de dor de cotovelo que tivesse como referências grandes discos de dor de cotovelo, desde o Paulinho da Viola em Nervos de Aço até Amy Winehouse em Back To Black. E daí veio a imagem de Medéia, essa semideusa abandonada. A representação maior do coração partido e do abandono, e da loucura provocada por esse abandono na literatura universal. E juntando esses pedaços parti pra imagem desse Deus do Desejo que põe os olhos na cidade do Recife.

Acompanhamos a repercussão de sua careirra e vemos que a imprensa ainda dá muito destaque a coisas como um beijo gay no clipe de “Alma Sebosa”. Há quem chame até de “polêmico”, etc. O que acha desse ‘pantim’ das pessoas quando o assunto é a homossexualidade na arte?
É totalmente inaceitável essa reação. Estamos num momento da humanidade em que isso não devia ter mais esse tipo de reação. As pessoas se identificam com minhas músicas por que os temas que elas abordam são universais. Não engulo e nunca engolirei esse papo de “ah mas você é um artista gay”. Sou um artista gay também. Mas antes disso e acima de tudo faço música pop. Se quiser me taxar de alguma coisa pode taxar de artista popular, acho mais acurado.

Quais são as suas influências artísticas, que nomes te inspiram como cantor?
Eu sou uma pessoa que vim primeiro do cinema e depois pra música. Então pra mim o audiovisual está intrinsecamente atrelado à música. Então na minha música você vai encontrar desde David Lynch até Madonna. É uma mistura de provocação com surrealismo.

Não engulo e nunca engolirei esse papo de “ah mas você é um artista gay”

Tem planos para turnê desse disco?
Começaremos a turnê pelo nordeste, no Recife no dia 27 de março e depois 28 em Natal e 29 em Fortaleza, que é uma cidade que sempre acolheu meu trabalho de maneira tão emocionante que não dá nem pra descrever. Mais pra frente faremos Sudeste. Não vejo a hora de meter o pé na estrada, como fala a música do disco. As vezes me sinto mais em casa no palco do que na minha própria casa.

Para finalizar, qual sua lembrança mais remota de querer ser músico?
Eu era bem pequeno e peguei um VHS de Na Cama Com Madonna numa coleção antiga que vinha na Folha de São Paulo todo domingo, meu avô colecionava. Quando o filme acabou eu estava perplexo; estava tudo lá, tudo que eu queria ser, a identificação foi num nível que não dá pra imaginar. Aquela mulher incrível, vinda do subúrbio de Detroit, tomando o mundo de supetão. Discutindo sexualidade, religião, tudo isso embalado por músicas pop incrivelmente construídas, brincando com o imaginário das pessoas, ali tinha Basquiat, tinha Keith Harring, tinha o underground gay, tinha Broadway. Viajando o mundo com sua trupe cigana de artistas (dançarinos, performers, músicos). Aquele filme mudou minha vida. Tive sorte de nutrir e ter esse encontro com mulheres incríveis no decorrer da minha vida, acho que elas sempre foram minha maior inspiração. Madonna foi uma delas.

Ouça o disco na íntegra:

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