Fotos de Bruna Monteiro.
Fotos de Bruna Monteiro.

O crescimento precoce da Kalouv
Banda de rock instrumental arrisca alto em segundo disco conceitual e com influências que vão além do post-rock

A banda pernambucana Kalouv chega ao segundo disco apostando alto. Pluvero, que sai pelo selo paulista Sinewave, mostra que a banda está bastante segura dos caminhos que pretende tomar. E não será nada simples, ou fácil. O trabalho conceitual fala de ‘transitoriedade’, tem um título em esperanto e base post-rock do grupo se comunica com influências como jazz moderno, afrobeat e psicodelia.

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Mas os integrantes estão seguros. “Talvez no futuro a ideia de propor algo totalmente novo e estranho ao que fizemos no passado seja a lei. E é o que nos motiva a continuar.”

Quando estrearam em 2011 com Sky Swimmer, a banda foi incluída na ótima fase que o rock instrumental vivia no Brasil. Agora, eles esperam fazer a sonoridade experimental que fazem aproveitar o bom momento da cena indie do Recife, que passa por uma boa renovação, com o surgimento de novas bandas e cenas.

Conversamos com Túlio Albuquerque (guitarra) e Bruno Saraiva (teclado) sobre o processo de criação do novo disco, a cena atual e quem eles se inspiram quando o assunto é rock instrumental. A banda ainda tem na formação Basílio Queiroz (baixo), Rennar Pires (bateria) e Saulo Mesquita (guitarra). Leia abaixo.

O post-rock sempre serviu de base para entender o som do grupo, mas agora vocês parecem experimentar por outros ambientes. Podem nos contar mais da sonoridade do novo trabalho?
Acreditamos que é um caminho natural. No nosso primeiro trabalho, tudo foi formado a partir de um ideal, um conceito pré-formado ainda no início do projeto. As músicas que compunham o Sky Swimmer se baseavam muito em uma ideia – construída ainda nas primeiras reuniões – de criar uma banda que tinha como essência realmente o post-rock. Mas ali já se via que era impossível seguir puramente um modelo, pois a vivência musical de cada um dos integrantes sempre iria resultar na proposição de algo novo, e provavelmente estranho a essa ideia.

Dito isso, se no primeiro disco já havia uma leve cisão ao estilo tradicional do post-Rock, no Pluvero esquecemos de vez essa “regra” implícita. Quase todas as músicas do álbum foram criadas num segundo momento da banda, onde já tínhamos consciência do que poderíamos fazer como grupo e quais nossos desejos futuros. E aí fica possível perceber com mais naturalidade novas sonoridades. Elas já faziam parte do nosso vocabulário e universo temático, mas talvez não tinham espaço no nascimento da banda. Entra aí o jazz moderno, o afrobeat, a música ambiente, o shoegaze, o rock psicodélico, dentre outras características.

Tudo acaba sendo residual, porque no fim das contas o mais importante foi encontrar um modo de compor. E o novo álbum é isso. Finalmente tentamos explicar da nossa forma o que entendemos como “Kalouv” e qual a essência desse projeto. Assim seguimos. Talvez no próximo trabalho a ruptura de conceito seja exatamente sair dessa zona de conforto. Se aqui equacionamos o máximo dessa fórmula, talvez no futuro a ideia de propor algo totalmente novo e estranho ao que fizemos no passado seja a lei. Faz parte do crescimento de nós como músicos. E é o que nos motiva a continuar.

Como foi o processo de gravação do álbum?
O trabalho começou ainda em 2012, um ano em que fizemos muitos shows importantes para o crescimento da Kalouv. Ali, sem nem mesmo sabermos, tínhamos um embrião do que seria o Pluvero. Duas músicas – “Durango” e “Namazu” – já faziam parte do nosso repertório de apresentações pós-Sky Swimmer. Nessa época também participamos de um concurso de bandas, no qual ficamos em segundo lugar. Um dos prêmios foi a possibilidade de ter 20 horas de gravação em um dos melhores estúdios da região, que é o Fábrica. Esse foi o pontapé inicial para iniciarmos o projeto.

A partir daí buscamos algumas parcerias para tornar isso possível. E três pessoas foram fundamentais pra que tudo acontecesse da melhor forma: Renata Farias, nossa produtora executiva; Eduardo Caminha, um amigo músico que se tornou quase um sexto membro da banda, desenvolvendo uma série de papéis; e Roberto Kramer, integrante da Team.Radio, que participou de todas as etapas do processo, desde a produção, passando pela mixagem e masterização.

No meio de tudo isso, fomos desenvolvendo as faixas e o conceito do Pluvero, como se escrevendo um livro, colocando cada “palavrinha” no lugar certo e escrevendo as “frases”, “parágrafos” e “capítulos”. O nosso modo de compor é bem minucioso e demorado – talvez por não nos considerarmos músicos excepcionais –, mas isso acaba sendo positivo, e uma forma interessante de expressarmos nossas ideias da melhor forma possível. Com tudo pronto, o processo foi muito prazeroso. Gravamos baixo e bateria no Fábrica ainda no final de 2012 e partimos para uma segunda etapa no Medula, onde foram registrados o teclado e as guitarras.

Foi nessa última fase que surgiu o desejo mais forte de contar com participações especiais. Já era uma vontade antiga desde o Sky Swimmer, mas finalmente pudemos colocar em prática. Partiu de necessidades que algumas faixas tinham e se tornou um bônus que acresceu demais à qualidade do álbum. Tivemos muita sorte de contar com pessoas como Isadora Melo, Felipe Vianna, Fernando Athayde, Kevin Jock e o Barulhista – este último integrante de uma banda da qual somos fãs, Constantina. Ao todo, demoramos quase um ano pra terminar todas as etapas de gravação, mas já estamos prontos pra outra.

O nome do disco é uma palavra em esperanto. Como surgiu a ideia de fazer um trabalho conceitual. Podem nos explicar mais sobre o conceito todo?
A ideia de um trabalho conceitual veio naturalmente. Ao compor, acabamos percebendo que cada música contida no disco se relacionava e complementava a outra. Isso acaba se mostrando em vários aspectos: por vezes na estética, outras na forma, no sentimento ou na intensidade que acreditamos que cada uma delas passa. Então seria necessário escutar o Pluvero por completo para poder captar essas conexões que se espalham dentro do espaço musical do álbum. Assim, nós também acabamos por valorizar a obra por inteiro, ao invés das faixas particularmente.

Já o nome veio pela interpretação do que esse conjunto passava. Sentimos que o elemento da transformação estava presente nas faixas, cada uma de sua forma singular. E nossa música já é marcada por uma estética de transição: cada música possui muitas mudanças na harmonia, na intensidade, nos timbres, etc. Isso de fato ajudou no entendimento, mas o que percebemos conceitualmente ia um pouco mais além. Estávamos falando sobre um processo que envolve a vida e que compõe com grande beleza a existência.

Foi nessa força de transformação que alicerçamos nosso registro. E ela já foi bastante comentada por filósofos como Heráclito e Nietzsche, através da ideia do Devir, do “vir a se tornar”, do ser que apenas aceita a transição como verdade. Então numa pesquisa feita ainda no começo de 2013, descobrimos essa palavra em esperanto que significa algo como “gota da chuva”. E nada melhor do que isso para sintetizar o que queríamos passar. Um elemento da natureza, transitório e que especialmente representa a parte de um todo. Outros nomes passaram por nós durante os últimos meses, mas esse ficou.

Certos títulos do Pluvero também vão por esse viés conceitual. “Algul Siento” é uma cidade apresentada no livro A Torre Negra, de Stephen King, que ao mesmo tempo em que se cria e constrói, se destrói e “morre”. Já “Namazu” é um mito japonês sobre um peixe-gato que causaria os terremotos por lá. “Boa Sorte, Santiago” é uma música para dar votos de fortuna a um filho que ainda irá ser gerado. “Es muß sein” é “Tem que ser assim” em alemão, e representa a vontade de potência para o devir. E assim vai. No fim das contas, tivemos sorte também na parceria com o Imarginal, porque a arte deles parece ter congelado um momento de pura transformação da matéria.

Estávamos falando sobre um processo que envolve a vida e que compõe com grande beleza a existência.

Como a banda mudou desde a estreia em 2011 para hoje?
Achamos que há um caminho para uma maturidade do grupo em si. Em 2011 estávamos tendo nossas primeiras vivências como banda. Era o momento de nos conhecermos como músicos e compositores e nos acostumarmos com as articularidades de cada um, assim como em qualquer começo de relação. Vemos isso nas primeiras músicas, onde cada um dava sua contribuição, mas o senso de harmonia não vibrava muito forte em algumas partes. As apresentações ao vivo por vezes também explicitavam um pouco isso, onde ficávamos um pouco travados.

Conforme o tempo foi avançado, fomos vivendo diversas experiências e gradativamente tomando uma consciência sobre essa consciência de grupo. Isso envolveu muito as músicas que compomos para o Pluvero, pois elas dão mais espaço para as interações entre os instrumentos, como num diálogo. Procuramos saber o que cada um está executando para tentar interagir com aquilo de forma dinâmica. Curiosamente, isso nos fez ganhar uma espontaneidade maior: ao longo do tempo certamente cada música terá leves toques (pequenos improvisos) em relação ao original, dando um caráter novo a cada vez que tocamos.

Isso irá influenciar diretamente nossas apresentações ao vivo, que, com esse senso de harmonia construído, nos dará o conforto de brincar com a música, e ao mesmo tempo, respeitar sua profundidade. Também aprendemos a lidar com os erros de execução, sabendo agora que eles também fazem parte da vida de uma apresentação. Às vezes um erro pode inclusive dar um toque singular a todo aquele momento. Então aceitamos as nossas dissonâncias e descompassos.
Aprendemos também que fazer arte é fazer relações. Conhecemos muitas pessoas importantíssimas para nossas vidas e que contribuíram diretamente para o momento atual. Os passos que demos até hoje foram impulsionados por muita gente, desde o apoio dos ouvintes até aqueles que constroem o cenário musical. Dos donos de estúdios aos produtores de eventos. Dos músicos que dividimos palco aos que participaram do Pluvero. Há infinitas relações nutridas nesses anos.

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Recife vive hoje uma fase boa, com muitas bandas novas surgindo. Como vocês enxergam esse momento da cidade?
Desde que começamos a acompanhar a cena, provavelmente nunca houve um ano em que Recife deixou de revelar um grande talento. Não sabemos bem ao certo se isso faz parte do DNA cultural da cidade, ou é apenas um exercício de tentativa e erro que resulta sempre em algum resultado positivo. A verdade que nossa capital sempre traz algo de novo para cena e há muito tempo já não é monotemática em estilos. Sintoma brasileiro e mundial, multiplicado por aqui.

Muito desse destaque vem da democratização da informação. Por muito tempo se reclamou da falta de espaços em rádio e TV, mas hoje isso é suprido de certa forma por blogs e as redes sociais, que conectam nichos e nos aproximam da grande mídia. Nesse compasso, nunca deixarão de surgir talentos, tenham eles públicos específicos ou ganhem destaque no resto do país. E isso é o que torna Recife tão singular. Ficamos muito felizes que novos nomes ganhem força ao lado de gente que já trabalha há muito tempo.

O que falta hoje talvez seja uma quantidade maior de espaços de pequeno e médio porte que abriguem essas bandas. As afinidades surgem na internet entre os grupos, a vontade existe, mas com ela há também a dificuldade de criar eventos para que a cena se procrie. Chegam os grandes festivais e os produtores estão sempre cobrando que os artistas toquem mais, que criem público “real”, mas isso ainda é um problema. Juntos, há a possibilidade de contornar isso aos poucos. Suprir a falta de investimento com o trabalho coletivo.

Kalouv 01 (Foto - Bruna Monteiro)

Qual o desafio de fazer música instrumental hoje? Que bandas influenciaram vocês?
Esta barreira já foi passada há algum tempo e não fomos nós que a superamos. Quando começamos o projeto, em 2010, já existia um clima muito positivo para a música instrumental no país, fruto do trabalho de bandas como Hurtmold, Fóssil, Constantina, Herod Layne, Ruído/mm, Macaco Bong, etc. Aqui no Recife já tinham passado grupos muito bons como Monodecks e Ahlev de Bossa e já surgiam com muita força alguns da nova leva, como a Joseph Tourton. Obviamente é um nicho bem específico dentro do “mercado” da música, mas que recebe espaço cada vez maior tanto do público, como da imprensa. Certamente mais da metade dessas bandas citadas influenciam o que a Kalouv é hoje. Fazemos parte de um selo paulista, o Sinewave, que dá destaque para diversas delas há muitos anos e temos carinho e admiração muito grande por cada um com quem dividimos esse espaço.

Mas nossas influências vão além disso. Todos da banda têm gostos bem distintos, mas dentro deles há espaço desde Hermeto Pascoal, até Jackson Five. De qualquer forma, são inúmeras as identificações que acrescentam ao nosso trabalho. Durante a composição do Pluvero, por exemplo, nos influenciamos muito por trilhas de filmes antigos e jogos de videogame conceituais como Journey, To the Moon, Fez e Braid. Também passamos muito tempo escutando novos grupos orientais de música instrumental, como Toe, Lite, Te’ e Mouse On the Keys. Em paralelo, nunca deixamos de ouvir os clássicos como Tortoise, Medeski Martin & Wood, Porcupine Tree, Alcest, Marc Ribot, dentre outros. Se fosse pra enumerar aqui, este parágrafo nunca acabaria.

Quais os próximos planos para a Kalouv após o lançamento de Pluvero, uma turnê, clipes?
Bem, primeiramente nós queremos divulgar ao máximo essa versão digital do Pluvero, pois temos plena consciência que a resposta positiva de público e imprensa nos trará bons frutos. Estamos trabalhando há algum tempo em um show de lançamento e pretendemos fazer isso no começo de maio aqui no Recife, ao lado das pessoas que participaram do disco. Há algumas bandas que também lançarão álbuns nos próximos meses e a ideia é dividir o palco com elas.

A turnê ainda depende de algumas coisas, mas certamente iremos passar de novo nas cidades que nos acolheram tão bem nos últimos anos, como Natal, João Pessoa e Maceió. No segundo semestre provavelmente lançaremos a versão física do álbum e a intenção é levar para o sudeste do país também, onde há um público que sempre pede nossa presença.

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