Foto: Divulgação.
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“Quis mostrar quem é o com a câmera desligada”
Diretor cumpre o desafio de levar aos cinemas o Tim Maia que todos amam e o que ninguém conhece

Por Karen Lemos
De São Paulo

A vida de Sebastião Rodrigues Maia ou, melhor dizendo, Tim Maia (1942 – 1998) já ganhou coletâneas em sua homenagem, especiais para a televisão – como Por Toda Minha Vida e Som Brasil, biografia assinada por Nelson Motta e um musical de sucesso estrelado por Tiago Abravanel nos palcos do teatro.

Ao cineasta Mauro Lima (Meu Nome Não é Johnny) ficou a difícil missão de retratar a vida do músico de voz inconfundível e temperamento forte nos cinemas sem cair no óbvio, naquilo que já foi dito tantas outras vezes. Para tanto o diretor decidiu fazer um recorte e focar em um período da vida do artista que não havia sido abordado de forma tão profunda em Tim Maia – O Filme, cuja estreia acontece nesta quinta (30).

“Pensei em algo que fosse curioso aos olhos do grande público”, declarou Mauro em entrevista coletiva concedida em São Paulo no início desta semana. “De qualquer forma, Tim tem uma biografia com muita vocação para um filme. Ele já foi preso, roubou carro e tudo o mais, fora o que ficou de fora para poder caber em um filme, senão teríamos que fazer uma série”, pontuou.

Por esse viés, o longa-metragem foca mais na juventude de Tim – a adolescência no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, a descoberta da música e das terras estrangeiras quando se muda para Nova York ainda jovem – e de sua carreira na década de 1970, passando pela fase de obsessão pela Cultura Racional até seu “renascimento”, pessoal e financeiro, com o álbum Tim Maia Disco Club.

Quem contribuiu muito com este recorte foi o filho do cantor, Carmelo Maia, que também fez uma ponta no filme como um jornalista, entrevistando o ator que interpreta seu próprio pai. “Tim tinha uma personalidade muito clara quando a câmera estava ligada, mas quem é o cara quando a câmera é desligada? Quem é aquele cara na casa dele, tomando café da manhã com o filho? Ninguém registrou isso. Nesse ponto, precisei juntar informações e intuir algumas coisas. O Carmelo me ajudou muito nisso”, explicou Mauro, que não afasta a possibilidade de criar uma série baseada no filme (“temos material para isso”, alegou) e que ainda sonha em realizar a cinebiografia de Lennie Dale, bailarino e fundador do grupo teatral andrógino de contracultura Dzi Croquettes.

Três atores diferentes foram escolhidos para viver o músico. (Divulgação).
Três atores diferentes foram escolhidos para viver o músico. (Divulgação).

Artista de três faces

As facetas de Tim Maia são tantas que, para dar conta, o diretor convidou dois atores para interpretá-lo em seu filme. “Se você olhar para o Tim Maia em todas suas fases, ele parece três pessoas diferentes”, afirmou o cineasta.

Responsável por viver Tim no auge da carreira, Babu Santana parece ter nascido para esse papel. “Meu trabalho foi facilitado pela caracterização”, disse, com modéstia, o ator. Dessa forma, ele ficou livre para pensar no lado emocional do personagem e também para se dedicar às cenas em que solta a voz, revelando talento para o canto e impressionando com uma certa semelhança ao timbre raro de Tim.

Dando rosto à fase adolescente do artista, Robson Nunes disse que levou muitas coisas de sua experiência neste trabalho. “Ganhei quinze quilos a mais”, brincou. “Fora isso, interpretar um cara que sempre fez o que quis na vida, te faz repensar alguns princípios. Faz você querer se permitir mais”, refletiu.

O elenco conta ainda com atuações de Alinne Moraes, esposa do diretor, que vive a personagem Janaína (uma síntese de dois amores na vida de Tim Maia), e Cauã Reymond, que interpreta Fábio, músico que tocou com o artista e que também exerce a função de narrador da história.

“Eu achava que o filme tinha que ter um off. É um mecanismo necessário para esse tipo de trabalho e, como eu não ficaria à vontade escrevendo um testemunho do próprio Tim – até porque o livro em que me baseei não é uma autobiografia – pensei em colocar alguém próximo como narrador”, justificou Mauro sobre a escolha de seu relator. “Esse personagem realmente existiu e chegou a escrever um livro sobre sua amizade com Tim. Ele ainda está vivo, inclusive leu e se identificou com o roteiro”, disse o cineasta, que bateu o martelo após o sinal verde que recebeu de Fábio.

Foto: Paprica Fotografia/Divulgação.
Foto: Paprica Fotografia/Divulgação.

Roberto Carlos ‘mesquinho’

Tim Maia – O Filme também chama a atenção por outras questões como, por exemplo, a forma como o cantor enxergava as pessoas ao seu redor. É o caso de Roberto Carlos, apresentado no longa como um sujeito que tenta conquistar a fama a todo custo e, já em seu auge, dá pouca atenção aos companheiros de início de carreira – como é o caso de Tim, que cantou ao lado de Roberto no quarteto The Sputniks.

Esse detalhe, no entanto, não veio a ser uma preocupação para Mauro. “Nada do que está no filme saiu da minha cabeça, foi tudo baseado na biografia de Nelson Motta”, esclareceu durante a coletiva. “O Roberto, inclusive, leu e autorizou o roteiro. Não sei como ele vai reagir, mas ele conhece bem a história”.

“Temos que lembrar, também, que essa é a visão do Tim com relação ao Roberto”, completou o ator George Sauma, que vive o Rei no longa. “Mas, de fato, eu tentei fugir mesmo daquela imagem do Roberto de hoje em dia”.

Essa imagem, segundo Mauro, foi muito pautada no cantor dos especiais de final de ano, vestido de branco, com ares de bom moço. “Assim como Tim, Roberto teve várias fases na carreira. Ele já foi, por exemplo, um rebelde da Jovem Guarda”, recordou o cineasta, que garantiu que não sofreu censura alguma para rodar o filme.

“Não existiu um limite imposto, mas como se trata de um filme romantizado, tive que abrir mão de algumas coisas por se tratar de uma obra ficcional, caso contrário, eu estaria fazendo um documentário”, concluiu.

Foto: Divulgação/PapricaFotografia.
Foto: Divulgação/PapricaFotografia.
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