Artista diz que sua música é mais bem aceita pelas mulheres que homens. (Foto: Afroafeto/Divulgação)

No Ar Coquetel Molotov 2022: MC Carol e a potência do funk como revide

Funkeira construiu uma carreira falando de sexo sem rodeios a partir da perspectiva feminina. Hoje é um dos nomes mais relevantes do gênero. "As mulheres gostavam do que eu tava falando mas os homens não. Eu sabia que ia agradar uma galera, mas de outro lado iam me apedrejar."

“Sou uma mulher preta, gorda, totalmente fora dos padrões, falando sobre sexo abertamente”. A potência de MC Carol e tudo o que ela tem a dizer em suas letras serão um dos destaques do No Ar Coquetel Molotov deste sábado (19). O batidão e o papo reto da funkeira vão ocupar o palco Kmkaze, a partir das 21h10, nesta volta do festival ao campus da UFPE.

Com apenas 29 anos, Carolina de Oliveira Lourenço já alça o título de referência do funk brasileiro. O encontro com o ritmo aconteceu construindo a proposta da MC na música: responder. Isso porque, por volta de 2010, em Preventório, Niterói – RJ, onde ela cresceu, uma situação inusitada iniciou toda essa história. “Um cara bêbado na rua cantou pra mim que ia ‘me largar de barriga’, me engravidar e me abandonar. Aí eu falei: ‘eu vou chegar em casa e vou escrever alguma coisa para esse cara, para quando ele falar, eu revidar’. Aí eu escrevi e gravei, ele veio outra vez e eu revidei cantando. Depois já estava todo mundo na comunidade falando sobre a música, pedindo para eu cantar no gravador do telefone deles”, contou.

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Carol foi criada pelos bisavós num lar que ouvia muito da música popular de Roberto Carlos, Elis Regina, Dalva de Oliveira e Cartola, além de morar numa comunidade que marginalizava o funk na época. O talento e a vontade de dar vez e voz às suas vivências promoveu este encontro, ou melhor, fez o funk escolher Carol.

A Revista O Grito! conversou com a MC às vésperas do No Ar.

O funk escolheu MC Carol ou MC Carol escolheu o funk?

Eu costumo dizer que o funk que me escolheu. Eu não podia ouvir funk em casa. Fui criada pelos meus bisavôs e cresci ouvindo discos do Roberto Carlos, Elis Regina, Dalva de Oliveira, Cartola. O funk era uma coisa muito distante. Aconteceu do nada. Um cara bêbado na rua cantou pra mim que ia ‘me largar de barriga’, me engravidar e me abandonar. Ai eu falei: ‘eu vou chegar em casa e vou escrever alguma coisa para esse cara, para quando ele falar, eu revidar’. Aí eu escrevi e gravei, ele veio outra vez e eu revidei cantando. Depois já estava todo mundo na comunidade falando sobre a música, pedindo para eu cantar no gravador do telefone deles. A “Vou Largar de Barriga” foi se expandindo na minha comunidade e em outras. Fui para uma comunidade próxima e cantei, daí estourou, em três meses a gente estava na TV, rodando o Brasil todo. Foi uma coisa muito rápida, muito do nada. Eu não imaginava subir no palco, cantar para uma galera. Eu era popular, mas sempre fui muito tímida. 

A gente vem de uma cultura musical que tem o homem no protagonismo e exalta os desejos e vontades masculinas. Você, com suas letras, busca dar vez e voz às pautas femininas. É difícil ser uma mulher no funk que canta sobre ser mulher?

É muito difícil ser mulher em qualquer questão. O caminho é muito difícil. Eu percebi isso quando eu era nova. Na primeira escola, a quadra era dos meninos. As meninas não tinham direito a quadra, só uma pintura no chão, uma amarelinha. Ali, eu já percebi que o mundo não era igual. Aí eu comecei a falar grosso. Por isso que meu apelido é Carol Bandida desde criança, porque eu comecei a me camuflar. Comecei a me comportar como homem, me vestir e a andar como homens, para ter voz, para ser respeitada. Com a primeira música, eu passei a entender onde estava entrando. Pensei: ‘tô entrando numa parada em que todo mundo só fala do prazer do homem, que o homem é foda’. Decidi que não, que ia falar de mim, do meu prazer, do meu corpo, do que eu gosto. Comecei a cantar que eu pegava os caras, que eu usava eles. Minha proposta era me botar como fodona.

A gente cria um personagem. Eu criei um personagem que as pessoas acreditam. Elas acreditam que eu sou essa pessoa de pedra. Acreditam em tudo o que eu canto. Quando me conhecem pessoalmente, ficam assustados com a minha timidez. 

Quando você coloca o pé no palco é a MC Carol, quando tira é a Carolina. Como faz para dividir essas personalidades?

Acho que sou três pessoas. A Carolina, pessoa família, que tá num relacionamento sério, a que quer juntar a família no natal. A Carol Bandida, que é a pessoa da rua, eu com meus amigos, sentada no chão, qualquer coisa eu parto pra cima, saio na porrada. E a MC Carol, sou eu no palco, uma mulher foda e forte.

Qual a importância do palco para a MC Carol?

Quando me perguntam o que eu mais gosto de fazer no meu lazer, na minha folga, eu digo que é estar no palco. Quando eu tô no palco parece que eu esqueço tudo o que tá acontecendo. As vezes minha vida tá um inferno, mas ao pisar lá eu me sinto bem, me sinto confiante. Na pandemia foi a época que eu me senti mais feia. Quando eu tô trabalhando, me sinto bonita, ouvida. Na pandemia, sem trabalhar, foi a pior época da minha vida, em relação à autoestima.

Pensei: ‘tô entrando numa parada em que todo mundo só fala do prazer do homem, que o homem é foda’. Decidi que não, que ia falar de mim, do meu prazer, do meu corpo, do que eu gosto.”

MC CAROL

Estar num lugar de destaque representando o que você representa deve ser gratificante, mas ao mesmo tempo, deve trazer alguns desafios, pressão. Como você encara a questão da sua representatividade? Sente alguma dificuldade em relação a isso ou já é muito natural?

Sinto muito peso por ser quem eu sou. Não sou uma mulher branca, padrão, falando sobre sexo. Sou uma mulher preta, gorda, totalmente fora dos padrões, falando sobre sexo abertamente. Não falo sobre sexo de forma suavizada. Minha música “A Mulher do Borogodó”, por exemplo, já começa: Me pediu em casamento, Mas eu não entendo, Eu sou piranha porra, Eu vivo de momento. Não escondo as palavras. É um peso grande, porque as pessoas que estão ouvindo entendem aquilo ali: ‘se ela tá cantando, ela é piranha mesmo, é vagabunda mesmo’, e não é assim. É um peso até para se relacionar.

Em alguns momentos quando a gente está mais frágil, a gente fica ressentido. Quando eu fico ressentida com alguma coisa, eu olho minha conta bancária e fico feliz de novo. Parei para pensar: ‘vou ficar triste porque um cara fudido não quer se relacionar comigo pelo que eu canto?’. Comprei minha casa, meu carro, realizei os sonhos da minha bisavó, tudo com dinheiro de putaria. Vivo a vida que eu quero com dinheiro de putaria.

Eu sentia desde o início. As mulheres gostavam do que eu tava falando mas os homens não. Eu sabia que ia agradar uma galera, mas de outro lado iam me apedrejar. Me tacaram latinha, copo de cerveja, garrafinha de água. Naquela época não era uma coisa de internet, as pessoas que não gostavam iam ao show pra tacar coisa. Quanto mais famosa fica, melhora de um lado a vida, mas do outro carrega um peso. 

E sobre Pernambuco? MC Carol já caiu nos encantos do bregafunk? 

Sim! Lancei no álbum Borogodó. Fiz algumas parcerias com o pessoal do bregafunk, como “Novinho de 17/Pau Quebra”, “Pagar Com Juros”. Rolaram remixes e parcerias.

E sobre o Coquetel Molotov? Quais as suas expectativas? O que a gente pode esperar do show?

Pode esperar um show de putaria muito foda. Tô muito ansiosa. Vou chegar e vou arrebentar, dar o meu máximo.

Bororogodó (2021) foi o último álbum lançado por MC Carol. O show para o No Ar promete trazer essas canções, além da recente parceria com Pabllo Vittar “Descontrolada” e as mais clássicas como “Meu Namorado É Maior Otário”.

A Revista O Grito! é uma das mídias oficiais parceiras do festival, ao lado da Revista Continente, Eu Curto Recife, Hipster Recifense, Frei Caneca FM, Poline.Biz, Universitária 99.9 FM e S.O.M.

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