nadifa

“– Eu estava justamente dizendo a nosso amigo americano como as mulheres somalis são fortes, que não temos nenhum purdah aqui. As mulheres trabalham, combatem em nossas forças armadas, servem como engenheiras, espiãs, médicas. Não é assim?”

Nadifa Mohamed, um dos nomes mais celebrados da nova cena literária britânica, revela uma história da África ainda pouco conhecida pelo mundo. Assolada por uma guerra civil nos anos 1980, o país tem uma de suas histórias contadas em O Pomar das Almas Perdidas, que a Tordesilhas lança no Brasil. Nadifa foge dos estereótipos colonialistas para falar do conflito a partir do ponto de vista de três mulheres, de idade e classes sociais diferentes.

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A história se passa na cidade natal da autora, Hargesia, que hoje é parte da Somalilândia, região que se declarou independente da Somália e ainda hoje não reconhecida como um país. Adentramos neste universo particular pela ótica das personagens Kawsar, uma senhora acamada que vive o luto da perda da filha; Deqo, uma jovem abandonada em um campo de refugiados que encontra nova vida em uma casa de prostitutas, e Filsan, uma soldado que se voluntaria na revolução.

Com uma escrita firme e confiante, mas também poética, Nadifa conta essas histórias com irreverência. Seu livro também dá voz às mulheres somalis de diferentes gerações. “É muito simples transformá-las em vítimas, dando destaque apenas em histórias sobre caridade, com efeito de desumanização”, disse.

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Nadifa mudou-se com a família para a Inglaterra quando tinha cinco anos. Seu pai, marinheiro, levou a família para lá em 1986 e decidiu não mais voltar. Expatriada, a autora fez faculdade de história e política na St. Hilda’s College, ligada à Universidade de Oxford e fez carreira como escritora. Seu primeiro livro foi Black Mamba Boy, de 2010, sobre a peregrinação de seu pai pela África em busca de seus ancestrais.

Conversamos com Nádia sobre a publicação de seu livro no Brasil, as lembranças de sua infância em seu país natal e sobre a representatividade africana na literatura.

As narrativas sobre a história africana sempre foram relegados em nosso nosso meio editorial. Quais são as suas expectativas em relação ao seu livro ser publicado no Brasil?
Eu estou muito ansiosa! Eu nunca fui ao Brasil, mas quanto mais eu aprendo sobre o país, mais intrigado eu fico.

O que você conhece sobre o mercado editorial no Brasil (e na América Latina)?
Muito pouco. Eu não tenho nenhuma ideia de quem é o autor mais vendido ou quais são os aclamados pela crítica, ou quais livros de língua inglesa são traduzidos e lidos. Parece haver uma verdadeira divisão entre o mundo literário anglófono e o lusófono. Eu tenho ido para festivais literários na Colômbia e no Peru e encontrado escritores de ambos os países, mas ainda assim conheço pouco a América Latina.

nadifa2Apesar de nossa ligação histórica com a África, aqui nas Américas ainda sabemos pouco sobre o continente, especialmente em relação à imensa diversidade de povos e culturas que existem lá. Creio que é exatamente o mesmo na Europa, certo? Quais são os desafios de representar e traduzir a cultura somali para um grande público?
Eu acho que a primeira dificuldade é o fardo de ter que “representar” uma determinada cultura, em vez de contar Histórias e histórias individuais. Em meu primeiro romance pesquisei e aprendi muito sobre os impérios no Chifre da África e as rápidas mudanças sociais que aconteceram por lá. Eu queria passar o máximo de conhecimento possível, mas agora que o desejo diminuiu, eu quero concentrar mais em mundos internos em vez de situações externas.

Você escreveu uma vez que você se tornou britânica “por osmose”. Como foi essa experiência de crescer em uma outra cultura?
Muitos escritores passaram pela experiência de se mudar ainda crianças, Junot Diaz por exemplo, e eu acho que há algo muito benéfico para escritores em ter duas terras, duas culturas, duas maneiras de pensar e agir. Você trafega por lugares na sua imaginação e aproveita memórias muito específicas que só se tornam valiosas por conta do deslocamento físico. Me mudar para a Grã-Bretanha foi um evento muito chocante e me fez uma criança muito mais observadora e atenciosa do que eu poderia ter sido de outra forma.

O Pomar das Almas Perdidas acompanha a vida de três mulheres. De onde veio a inspiração para as personagens?
A história de Kawsar foi baseada na experiência da minha avó de estar acamada quando a guerra civil eclodiu. Mas há também muitos relatos da vida real presentes no livro que eu recolhi a partir de entrevistas com familiares e outras pessoas em Somalilândia e na diáspora.

Que lembranças você tem de sua infância na Somália e qual é a sua relação com o país hoje?
Lembro-me da sesta do meio-dia, acima de tudo, mas também a areia fina da nossa vizinhança, o balido de cabras, refrigerantes açucarados que não se encontra na Inglaterra e o baque da chuva no telhado de zinco. Somalilândia mudou muito desde que eu era uma criança e agora vejo um país rico com mais e mais cafés e restaurantes bacanas, mas também uma grande desigualdade e mal-estar político.

Você veio para o Reino Unido como um imigrante em 1986 e hoje a crise da imigração é um dos principais problemas sociais na Europa. Como você vê esses dois momentos?
A imigração sempre foi uma obsessão nacional e fobia. Da década de 1950 para cá sempre tivemos vozes anti-imigração na imprensa e na política. Esta crise em particular está relacionada à ansiedade em fazer parte da União Europeia e ao fluxo de refugiados da Síria. Eu acho que isto mostra o quanto parte da elite britânica é alienada da Europa a ponto de achar que podem puxar uma ponte levadiça e ignorar o que está acontecendo no do outro lado do canal.

A representação de gênero vem ganhando força nos meios de comunicação (em grande parte por conta de obras como a sua). Como se sentiu ao dar voz a essas mulheres somalis?
Me sinto desconfortável dizendo que dei voz a alguém, mas quanto mais histórias sobre mulheres somalis, e feitas por elas mesmas, melhor. É muito simples fazê-las vítimas e vê-las em destaque apenas em revistas com histórias de caridade falando de um ou outro abuso, com um efeito de desumanizá-las.

A sua escrita é muito fluida, confiante, firme, mas também poética, delicada. Quais são as suas maiores influências? O que você gosta de ler e o que te inspirou a ser escritora?
Toni Morrison é uma influência enorme, mas também poetas como Pushkin, Donne, Dylan Thomas, alguns escritores africanos como Ahmadou Kourouma e Ngugi Wa Thiong’o, que são muito criativos na forma como contam suas histórias de maneira inovadora.

O POMAR DAS ALMAS PERDIDAS
Nadifa Mohamed
[Tordesilhas, 296 páginas / 2016]
Tradução: Otacílio Nunes
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