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O mar pelo olhar de
O que o arquiteto e artista plástico tem a nos dizer sobre o fim das coisas

Por Rudá Araújo
Colaboração para a Revista O Grito!

O Instituto de Arte Contemporânea (IAC) exibe a exposição desde a quinta passada Mar Morto, do arquiteto e artista plástico Gentil Porto Filho, em cartaz até 5 de julho. O Mar Morto de Gentil, no entanto, é bem diferente do lago de água salgada que banha países do Oriente Médio. Ele é gelado e tem icebergs.

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Ao entrarmos no espaço reservado para a exposição a primeira coisa que vemos são fotografias dominadas pelo azul do mar frio e o branco de imensos blocos de gelo que flutuam nele, imagens que nos remetem a lugares como a Antártida. As fotos não foram tiradas por Gentil e nem tampouco ele esteve lá. Elas são reproduções acompanhadas por inúmeros post-its com alguns recados e dão início a uma narrativa que segue pelos outros ambientes da exposição tendo como mote a vastidão do mar, as paisagens geladas e o vazio que elas podem nos provocar.

Na sala seguinte temos um espaço vazio com diversas bacias logo na entrada que impedem a passagem do visitante, algumas delas estão com água e outras vazias. Um fundo musical com a canção “Noite de Temporal”, de Dorival Caymmi completa o cenário. O recurso lembra a exposição Primeiros Documentos do Surrealismo, realizada sob a curadoria de Marcel Duchamp, em 1942, em Nova York, onde um emaranhado de fios amarrados pelos expositores dificultava a circulação de pessoas.

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Embora a comparação com Duchamp acabe sendo inevitável, Gentil Porto Filho não classificaria essa exposição como um trabalho conceitual nos moldes propostos pelo artista francês. Para ele “sua arte estaria num lugar onde os conceitos não as alcançam”. Isto pode ser traduzido ao pé da letra quando entramos no terceiro ambiente montado pelo artista. Lá nos deparamos com duas mesas gigantes, cada uma com dois metros de altura e pela disposição dos objetos, o olhar do visitante é imediatamente direcionado para o topo delas. Em uma há um vaso de vidro com água e, na outra, um vaso com flores que serão deixadas lá, murchando, até o final da mostra.

A exposição fica em cartaz até 5 de julho. Vale a pena ir ao IAC para descobrir o que Gentil Porto Filho quer nos contar sobre o fim das coisas. Seja na imagem de um iceberg, seja nas flores que irão murchar, seja no vazio dos espaços que não conseguiremos preencher. É perceptível no seu trabalho a recorrência de contrastes da vida e morte. Para ele, elas nunca deixaram de caminhar juntas.

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