A série Faça Uma Playlist traz contos inspirados em clássicos musicais de diferentes gêneros, épocas e estilos. Os textos são assinados por Ismael Machado, roteirista e escritor paraense, radicado no Rio de Janeiro, autor do livro Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem, entre outros. As artes são de Igor Alves, ilustrador e DJ paraense, atualmente residente em Portugal.

Todos os finais de tarde a cena se repetia. Ele, um jovem aprendiz, ia para a sacada do prédio e tateava num sopro um tanto desafinado. O trompete lhe parecia rebelde ao não querer reproduzir com perfeição a melodia de “Round Midnight”, de seu Deus Miles Davis.

Ele arranhava apenas a superfície da música. Não acertava a embocadura correta, a respiração exata. Sobravam reclamações dos moradores vizinhos. Até o síndico do prédio recebeu um bilhete anônimo por baixo da porta reclamando daquele ‘som horrível’ que todos os dias eles, moradores de bem, eram obrigados a suportar.

O aprendiz ignorava as queixas. Passava parte do dia e da noite estudando a música. Os dedos passeavam no ar, em um trompete imaginário. Ia para as atividades externas com Miles Davis e John Coltrane revezando-se no fone de ouvido. O jazz lhe elevava os pensamentos.

Um dia leu num portal sobre um vírus mortal. Não se preocupou tanto assim. Mas pouco a pouco as atividades foram sendo encerradas. As aulas, o estágio, os esportes, os encontros sociais. Ele ainda assistiu a um concerto que homenageava o cool jazz. Emocionou-se profundamente quando ouviu a execução de “My Favourite Things”, de Coltrane.

As semanas se passaram. E um fim de tarde onde o céu explodia de tonalidades e luzes, o aprendiz musical foi mais uma vez até a sacada. E pela primeira vez executou “Round Midnight” exatamente como ouvia e imaginava. Pela primeira vez, repito, a música de Miles Davis se tornou tão íntima dele quanto sempre sonhara.

Naquele fim de tarde ouviu aplausos em vez de reclamações. Pessoas foram até a sacada. Sua primeira plateia.

Ao fim, olhou a rua deserta. O som parecia ainda ecoar. Durante dias e dias repetiu a performance. Os vizinhos já o esperavam naqueles fins de tarde reclusos.

Até o dia em que o silêncio fez companhia à rua sem transeuntes. E quando todos, de suas sacadas vizinhas buscaram com o olhar o palco improvisado do jovem músico, testemunharam o corpo dele sendo levado por pessoas com roupas de ‘astronauta’.

E cada um se sentiu infeliz para sempre. 

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