A série Faça Uma Playlist traz contos inspirados em clássicos musicais de diferentes gêneros, épocas e estilos. Os textos são assinados por Ismael Machado, roteirista e escritor paraense, radicado no Rio de Janeiro, autor do livro Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem, entre outros. As artes são de Igor Alves, ilustrador e DJ paraense, atualmente residente em Portugal.

Desde quando a informação começou a circular eu decidi. Iria conhecer Jimmy Page. No início era difícil acreditar que o gênio da guitarra estivesse morando no Brasil. Mas era verdade.

Meu pai repetia sempre, como um mantra: ‘existem as bandas de rock e existe o Led Zeppelin’. O Led era outra coisa para ele. Acima de qualquer outro grupo. Meu velho morreu quando ainda restava um ano para eu me formar.

Agora ali estava eu. Aos 23 anos, recém-formado. Um emprego me esperava assim que eu retornasse. Talvez aquele fosse meu último momento antes da chamada vida adulta e responsável.

Em Lençóis todos sabiam de Page, mas muitos apenas se referiam a ele como o gringo esquisito, ou coisa parecida. Na pousada onde me hospedei me contaram um pouco sobre os hábitos e também sobre alguns projetos que ele havia ajudado por ali. Contaram da ida dele à Chapada Diamantina e dos banhos de cachoeira.

À noite eu zanzava com meu violão. Dedilhava Stairway to heaven, Going to Califórnia, Tangerine. Sonhava encontrar com Jimmy e confessar a ele o quanto eu e meu pai nos unimos sempre ao som do Led. Talvez ele já estivesse cansado de relatos similares a esse.

Fiz quase uma vigília em frente à casa onde ele estava com a namorada brasileira. Uma noite, na praia e já cansado, comecei a tocar canções do Led. Três pessoas se aproximaram. Um rapaz e duas meninas. Ele trazia uma flauta e ficamos tocando a noite inteira. Uma das meninas, de longas tranças, ficou comigo. Perguntou o que eu fazia ali. Contei minha história com o Zep e ela riu. Mas depois, séria, disse que era bonitinho aquilo tudo.

Convidou-me a viajar com ela para Minas. Topei. No dia da viagem, mochilas prontas, disse a ela que tinha uma coisa a fazer. Fui até a casa de Jimmy Page. Não me importava mais se ele estava ali ou não ou se iria conversar um pouco comigo. Toquei minhas músicas preferidas. As que eu sempre executava, enchendo a paciência de meus amigos.

Estava no meio de Tangerine quando um vulto longínquo começa a ganhar forma. Ele se aproxima, me cumprimenta. Eu quase fico sem palavras. “Posso? Ele me pergunta e aponta ao violão. Trêmulo, entrego a ele. Sorrindo, passa a mão com carinho sobre o instrumento. Digo que é uma lembrança de meu pai. Ele fica em silêncio por alguns segundos. E diante de meus olhos umedecidos dedilha os acordes mágicos de Thank You.

Seis anos depois, dedilho a mesma canção à minha filha, gerada naquele verão em que Jimmy Page fez o melhor show de minha vida.

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