A série Faça Uma Playlist traz contos inspirados em clássicos musicais de diferentes gêneros, épocas e estilos. Os textos são assinados por , roteirista e escritor paraense, radicado no Rio de Janeiro, autor do livro Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem, entre outros. As artes são de Igor Alves, ilustrador e DJ paraense, atualmente residente em Portugal.

Fim de uma era. Eu sabia que era exatamente isso. Sempre fui detalhista e saudoso de coisas que ainda estão por vir. Então naquela manhã eu dei atenção a tudo com o dobro do cuidado. Como se cada coisa, por menor que fosse, adquirisse sentidos especiais, ocultos.

Foi assim ao colocar a chave na fechadura. Ao entrar na loja, passeei o olhar com carinho. O pôster de Iggy Pop, um dos primeiros. A famosa língua dos Stones. As prateleiras de discos, já poucos. A promoção surtira efeito. Colecionadores, como aves de rapina, vieram em bandos. Pareciam deliciar-se com meu sofrimento.

Naquela manhã apenas a última funcionária, Beth, chegou meia hora depois de mim. Ela me olhou como se estivesse diante de alguém a quem todos sabiam ter sofrido uma dor, uma perda, uma doença rara, algo assim.

Os clientes começaram a chegar. Estoques foram rapidamente esvaziados. Os discos iam desaparecendo. Ao anunciar ser aquele o último dia, eu sabia que teria um grande movimento.

A loja sobrevivera a várias reviravoltas do Brasil. Fora aberta em pleno Plano Cruzado, em 1986. Conseguiu manter-se apesar de outros planos econômicos, mudanças de governos. Tivera seus momentos de altos e baixos. No auge, cheguei a gravar demos de bandas, sonhando em montar uma gravadora independente. Não deu muito certo, mas essas fitas hoje são relíquias.

Os tempos mudaram. A maneira de se ouvir música mudou. E eu já cansei. Sustentei filhos com essa loja. Mas eles não precisam mais. Sou grato pela música.

Um cliente, um dos mais antigos, olha para a edição original e importada de Chelsea Girls, da . Colocada em posição de destaque. Minha moedinha número 1 do Tio Patinhas. Ele insiste, pela milionésima vez, em me fazer uma oferta pelo vinil.

Olho para o disco. Me vejo algumas décadas atrás, primeiro dia de loja. Para dar sorte pus The Fairest of the Seasons.

Ele aguarda uma resposta. E ela é a mesma.

Mesmo que nenhum disco a mais eu tenha na vida, Chelsea Girls me acompanhará. Em vez de vender, ponho o disco para tocar. Ele ainda está parado à minha frente quando Nico encerra a minha canção preferida: ‘Now that I smile/Now that I’m laughing even deeper inside/Now that I see/Now that I finally found the one thing I denied/It’s now I know do I stay or do I go/And it is finally I decide/That I’ll be leaving/In the fairest of the seasons’.

Na mais bela das estações, eu concordo. Não há melhor momento para partir.

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