A série Faça Uma Playlist traz contos inspirados em clássicos musicais de diferentes gêneros, épocas e estilos. Os textos são assinados por Ismael Machado, roteirista e escritor paraense, radicado no Rio de Janeiro, autor do livro Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem, entre outros. As artes são de Igor Alves, ilustrador e DJ paraense, atualmente residente em Portugal.

Era um daqueles músicos da noite. De barzinhos voz e violão. Duas vezes na semana desfilava naquele bar um repertório calcado em clássicos da MPB que um amigo de língua ácida havia batizado de gosto médio. Uma flor de lis aqui, um dia branco ali, uma tarde em Itapoã acolá. O bar não lotava. Não era um bar da moda, embora servisse um peixe frito digno de recomendação.

Em uma dessas noites de quinta-feira, enquanto ele encerrava debaixo dos caracóis de seus cabelos na versão imortalizada por Caetano Veloso, o garçom de testa brilhante de suor entregou-lhe um papel dobrado. Abriu e leu um pedido. “Conhece Vincent? ”.

Relanceou o olhar e o viu no fundo do bar, fazendo um pequeno sinal que o denunciava como o autor do pedido. Desculpou-se. Não conhecia a canção, mas iria pesquisar. O homem ao fundo sorriu. Mas era um sorriso triste.

Na pausa, o músico da noite foi até o homem do fundo do bar. Perguntou de quem era a música. O homem, de uns 40 anos, falou um pouco sobre e a canção em homenagem a Van Gogh. Havia muita solidão na voz do homem do fundo do bar.

Encerrado o intervalo, o músico da noite retornou ao seu repertório cotidiano. Recebeu alguns aplausos entre garfadas de carne e peixe e goles de cervejas e risos e falas soltas. Algumas vozes desafinadas acompanhando alguns sucessos.

Em casa, a manhã quase nascendo, pesquisou na internet a canção. No Youtube alguém a ensinava em acordes básicos.

Na noite seguinte aguardou a chegada do homem do fundo do bar. Ele não veio. Recolheu a canção em si mesmo. Não a jogaria assim à toa.

O homem do fundo do bar só retornou na outra semana. Ocupou o mesmo espaço, pediu a mesma bebida, uma caipirinha de vodka. O músico da noite sorriu ao vê-lo. Ao encerrar Sampa, emendou: ‘essa é um pedido de uma pessoa especial’. E começou: ‘Starry starry night/Paint your palette blue and grey/Look out on a summer’s day/With eyes that know the darkness in my soul’.

O homem do fundo do bar tomou um susto. Não pela música, mas por não estar acostumado a ser chamado de pessoa especial.

Naquela noite, esperou pelo fim do trabalho do músico da noite. Restavam poucos clientes no bar e na madrugada quando os dois juntaram solidões e provaram um do outro. E as manhãs nasceram com paletas multicores.

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