Foto: Nina Gaul/Divulgação

Foto: Nina Gaul/Divulgação

e a urbana

Em abril do ano passado o mineiro-carioca Marcelo Frota, mais conhecido como Momo, lançou sem aviso seu quarto álbum. Mais melancólico e sombrio que os anteriores, surgiu do desafio autoimposto de sustentar um álbum inteiro em formato voz e violão. “São poucos os discos na história da música que conseguem ser interessantes nesse esquema. Fiquei motivado pelo desafio”, explica ele. São 9 faixas em apenas 25 minutos de duração e em três delas (“Sozinho”, “Copacabana” e a faixa-título “Cadafalso”), Momo retoma sua parceria com o amigo , que também assina um inspirado release  intitulado “A coragem para mirar o abismo”, onde escreve:  “Momo encontrou uma forma de execução rara de se encontrar na cena atual e sua poesia – e nisso estou envolvido – encontra caminhos novos e inusitados, vezes evitando rimas e noutras nos jogando imagens bonitas, porém desconcertantes. (…) É bonito ver a transição de Momo, perceber que seu romantismo agora habita uma poesia mais urbana e existencialista. Tenho a maior honra de ver nossa parceria crescendo, azeitada em três momentos deste disco, como na enigmática ‘Copacabana’.”

A parceria entre os músicos seria ainda reforçada no mesmo ano pelas versões de “Flores do Bem” e “Tão Feliz” (ambas de A Estética do Rabisco, 2006) feitas por Wado em Vazio Tropical –  álbum produzido por Marcelo Camelo que, entre outros, contou também com a participação de . Juntos, os três partiram para Portugal para uma apresentação no festival Mexefest e aproveitaram a estadia para se unir aos portugueses Diego Armés, Fred Ferreira, Bernardo Barata e Alexandre Bernardo e regravarem algumas canções de seus discos.  A coletânea saiu neste ano sob a alcunha de Clube Internacional Transatlântico de Criadores e Gostadores da Música que Se Faz Hoje, ou simplesmente , produzida por Fred Ferreira e apadrinhada por Marcelo Camelo e está disponível gratuitamente na web no site da NOS Discos.

Para O Grito!, Momo comentou Cadafalso e ainda falou sobre sua parceria com Wado, sobre o O Clube e sobre como seus discos deixam de fazer sentido para ele logo que são finalizados: “Não me reconheço mais no Cadafalso, por exemplo. São pedaços e sentimentos meus que vou deixando pela estrada”.

Pode falar um pouco sobre a concepção e o conceito de Cadafalso? O lançamento foi feito de maneira praticamente silenciosa, quase de surpresa. Por que? 
A ideia do disco foi nascendo aos poucos, em 2012 fui convidado pra tocar num festival em Maceió no formato voz e violão. Depois do show intuí que talvez tivesse recursos pra sustentar um disco nesse formato. São poucos os discos na história da música que conseguem ser interessantes nesse esquema. Fiquei motivado pelo desafio. Fui compondo, me convencendo, testando coisas no violão até que um dia mostrei pro Gil Fortes o repertório do que viria a ser o disco e ele me encorajou a fazer. O disco foi gravado em 3, 4 sessões noturnas no estúdio dele em Copacabana, dois microfones, gravação ao vivo e sem edição. O lançamento foi feito da maneira que consegui fazer. O meu maior interesse sempre foi no fazer artístico, no ofício de criar, de me aprimorar artisticamente, estudar e amadurecer minha música. Minha energia tá voltada pra isso. Os meus discos sempre são lançados desse jeito.

E a sua parceria com Wado, cada vez mais consolidada? 
O Wado é meu amigo há muitos anos, de fato é o autor mais presente nas minhas parceiras. Na maior parte das vezes ele me manda as letras e eu vou musicando, construindo as melodias. Das coisa que ele me manda, mudo uma palavra o outra quando precisa entrar na métrica da melodia. Considero ele um dos melhores letristas dessa geração, poesia inquieta e doída de verdade, sem ser cerebral e chato.

Ao lado de Cícero, vocês dois fizeram apresentações em Portugal e o público português parece ser bem receptivo ao trabalho de vocês. Acredita que lá exista um mercado a ser explorado? 
Pois é,  saiu esse bonito disco do O Clube, coletivo entre os amigos portugueses e brasileiros. Não posse te afirmar se existe de fato esse mercado, acho que essa questão deve ser um desdobramento natural do trabalho. O que fica pra mim nesse projeto e nos meus projetos musicais são as experiências musicais, a troca e o envolvimento das pessoas.

O que Cadafalso representa para você? 
É um disco especial muito pra mim, assim como sinto os meus discos anteriores. O discos são pra mim uma tentativa e uma oportunidade no momento que os faço de re-significar e decifrar a minha existência nesse mundo tão precário e sem sentido. Depois que os acabo eles perdem o sentido pra mim, é como se eu os apagasse da minha memória, só os compreendo no momento que estou fazendo, concebendo. Não me reconheço mais no Cadafalso, por exemplo. São pedaços e sentimentos meus que vou deixando pela estrada.

cover

 Site oficial: http://www.momomusica.com/

Cadafalso, faixa a faixa:

01. Coragem
Fiz durante a gravação do disco, gosto sempre de compor algo novo durante o processo de gravação do trabalho. Parece que a música absorve toda a atmosfera do disco. Não é à toa que ela abre o disco, acho que ela convida a pessoa pra entrar no disco e resume o que vai acontecer.

02. Arte
Filosofia sobre o sentido e significado de fazer arte. No refrão falo que o canto é pra cantar, e vem dos pássaros. Meus discos não são defesas de tese, música é pra ser sentida, não entendida.

03. Sozinho
Pedi ao Wado que fizesse uma letra que tratasse sobre o tema da Amizade, ou falasse da nossa amizade. Mudei um pouco da letra, e acho que não conseguimos desenvolver bem esse assunto. A coisa se perdeu rs. Mesmo sendo assim, é a música que mais gosto no disco.

04. Uu
Uma composição com letra e poesia Naifes, mas que ganha cores e tons do barroco mineiro no fim.

05. Cadafalso
Poesia primorosa do Wado que musiquei mexendo quase nem uma palavra. Poesia arrebatadora e fio condutor do disco. Fazer um disco voz e violão é estar no Cadafalso.

06. Tema em Estéreo
Eu e Gil pensamos nesse momento pra dividir o disco em duas partes. É o início da segunda parte onde a influência da música do Nordeste vem mais presente.

07. Eu vou pro Ceará
Escutei essa canção no filme, O Homem que Engarrafava Nuvens, do Lirio Ferreira e Denise Dumont. Foi difícil achar uma versão da música na internet, então pedi prum dos maiores pesquisadores de música do Brasil, Nirez Azevedo, que me enviasse alguma gravação dessa música. Ele me enviou um versão em baião cantado por Iracema, coisa linda. Tive como referência essa versão para fazer a minha.

08. Recomeço
O mundo ruindo e a esperança de um Recomeço.

09. Copacabana
História de uma relação amorosa que ganha contornos sombrios, mares revoltos. E uma Copacabana cinza e misteriosa como pano de fundo.

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