“A devorante mão da negra morte acaba de roubar o bem que temos; até na triste campa não podemos zombar do braço da inconstante sorte: qual fica no sepulcro, que seus avós ergueram, descansado; qual no campo, e lhe arranca os frios ossos ferro do torto arado.” Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga

Quando o assunto é Nordeste, o senso comum faz o imaginário viajar por uma série de imagens cuja associação mais condescendente são os tons laranjas e terrosos. O regionalismo calcificou na história e na própria representação da região na literatura uma miríade de símbolos que são muito particulares e caros. Podemos citar o cangaceiro e todo o movimento em torno desta figura; a seca e a aridez; a pobreza; a religião exacerbada; o vaqueiro; o forró; e os retirantes que povoaram o Sudeste do País, só para citar as principais referências.

A exortação da identidade nacional criada pelo Estado Novo e sua necessidade de regionalismo ainda caminha livre no juízo dos incautos. Essa promessa burlesca e messiânica, proferida quase como axioma, tem ganhado novos contornos no campo de batalha editorial da literatura nacional.

A rearticulação identitária toma conta da paisagem na narrativa e na poética construída pelos autores que são os filhos da terra mais ensolarada .

Mailson Furtado, vencedor do prêmio Jabuti de 2018, com À Cidade; Raimundo Neto, vencedor do prêmio Paraná de Literatura com Todo Esse Amor que Inventamos Para Nós; Micheliny Verunschk vencedora, em 2015, do Prêmio São Paulo de Literatura com Desnorteio; ou mesmo Mário Rodrigues, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2016 com Receita Para se Fazer Um Monstro”: são os autores, já referendados pelo establishment, que são o fruto mais profético de uma produção literária que está fora do tradicional centro de poder do Brasil.

Eles e seus personagens fazem parte de grupos tradicionalmente discriminados. Suas produções tem cunho épico e eles não são apadrinhados por grandes editoras. A produção deles, contudo, não nega e nem perde de vista do código base de invenção do Nordeste, de forma que o lirismo, a saudade, a valorização da tradição e o passado rural estão inscritos em sentimento não ditos das suas obras.

Rompendo, pelo menos aparentemente, com os padrão colonialista, europeu e branco pelos quais a prosa do eixo Sul-Sudeste vem enveredando nos últimos anos. Eles não sonham com uma volta ao passado, mas sim com a construção de um futuro que emerge a partir um espaço de predominação da miséria e do preconceito enquanto códigos de normalização da injustiça social.

Baseado nessa injustiça está sedimentado, de forma mutante e arteira, o romance Torto Arado, do baiano Itamar Vieira Júnior, publicado pela editora Todavia e vencedor do Prêmio LeYa. O livro fala acerca da vida dos trabalhadores rurais de Água Negra, uma fazenda localizada no interior da Bahia que vivem em condições análogas à escravidão. Bibiana, Belonísia, Donana, Zéca Chapéu Grande, líder religioso do Jaré, e Salustiana são os frutos mais diletos do passado mais sangrento, vergonhoso e irreparável da história portuguesa e brasileira.

Nas páginas em que a narrativa se desenvolve estão permeadas por uma forte névoa de saudade e lamento que vai descortinando, a cada passo, um território de plena revolta, construção de identidades, questionamento e elaboração dos mecanismos de poder.

O autor Itamar Vieira Junior: a cada passo, um território de plena revolta se revela. (Foto: Divulgação/Todavia).

A primeira parte de Torto Arado é narrado por Bibiana. Uma personagem concreta e onírica ao mesmo tempo. Uma narradora que é protagonista ao contar uma parte da história determinando, assim, uma estrutura narrativa que é encontrada em diversos autores: “as narrativas encaixadas”. Técnica utilizada por Guy de Maupassant, Henry James e mesmo Bernardo Guimarães.

Uma dúvida, contudo, se instala. Seria Bibiana uma narradora homodiegética (que narra a história sem ser parte importante dela) ou autodiegética (narradora que é também parte da história contada)? A resposta vai aparecendo ao longo do texto e muda conforme a estrutura do livro vai tomando corpo. Descobrimos, ainda, na primeira cena que o acontecimento que abre o livro é uma chave que vai determinar toda a condução de uma das personagens.

Os acontecimentos narrados por Bibiana provocam o interesse que é despertado pela história. E este interesse não vem da espera de uma revelação sobre os dados apresentados, mas das consequências que vão sendo desencadeadas pelas atitudes das personagens. São os resultados de cada ato que mantém o suspense ativo e atiça o leitor.

A forma como Bibiana conta a história também desvela um certo conteúdo fantástico da obra. Donana sempre sorrateira a dizer palavras que misturam magia, falando com os mortos, entidades ou mesmo com pessoas vivas, mas que não estão fisicamente naquele mesmo espaço.

As dúvidas sobre possíveis acontecimentos sobrenaturais cai por terra, quando Zéca Chapéu Grande procura ervas e a própria Donana diz palavras para proferir feitiços. Essas imagens poderiam se sobrepor ao real universo da narrativa, mas acaba compondo o contexto da obra e bebe, diretamente, nas inspirações religiosas do Nordeste.

Naquele tempo costumávamos ver nossa avó falar sozinha, pedir coisas estranhas como que alguém – que não víamos – se afastasse de Carmelita, a tia que não havíamos conhecido. Pedia que o mesmo fantasma que habitava suas lembranças se afastasse das meninas. Era uma profusão de falas desconexas. Falava sobre pessoas que não víamos – os espíritos – ou de pessoas sobre as quais quase nunca ouvíamos, parentes e comadres distantes. (VIEIRA-JÚNIOR, p. 14)

A dicotomia entre a concretude do relato de Bibiana e o onírico de viver ao lado de um universo possivelmente mágico revela uma nuance de incerteza e ambiguidade que são, constantemente, confrontadas com as considerações racionais.

As crenças e superstições apresentadas já nas primeiras páginas parecem ligadas à uma dita fé religiosa que vai se descortinando e ganhando fôlego com a apresentação das demais personagens. O fantástico contido no texto de Itamar, contudo, não reside em uma história permeada, apenas, pela tradição oral, mas nas considerações antropológicas dos seus personagens, na paisagem que os rodeia e no relacionar-se com um universo mítico.

A relação com o fantasmagórico está no dia a dia dos personagens, onde a morte é um elemento próximo e até familiar chegando a constituir, muitas vezes, um ato ritualístico, para o qual o homem se prepara ou, pelo menos, deve se preparar. A vida, então, ganha contornos de passagem.

Naquele dia, escutamos a voz de Donana se afastar no espaço do quintal, em meio ao cacarejo e aos cantos das aves. Era como se as rezas e sentenças que proferia, e que muitas vezes não faziam sentido para nós, estivessem sendo carregadas para longe, carregadas pelo sopro de nossas respirações ansiosas pela transgressão que estávamos prestes a cometer. (VIEIRA-JÚNIOR, p. 14)

Outra característica que faz o fantástico ressoar no texto de Torto Arado é o medo. A curiosidade de Belonísia e Bibiana resultaram em uma cadeia de eventos que encheu de medo todos os personagens até então apresentados ao leitor. O medo de perder a língua, perder a fala, o medo do resultado insólito da mutilação se opõem à realidade diegética, determinando a incerteza e a ambiguidade que causam curiosidade e conduzem o leitor ao longo do texto.

Alguns outros sentidos aparecem mapeados: a hesitação de Bibiana, ao verificar se, realmente, a avó tinha ido para longe, a interrogação de Donana ao perceber as duas crianças manejando a faca, o espanto dos pais, a surpresa da mutilação, a inquietação dentro da rural no trajeto ao hospital. Tudo isso contribui para despertar o desejo de saber os próximos passos da história.

O texto do livro surge como uma melodia. Conduz a leitura com imagens poéticas em que é possível ver e até sentir o chão de terra da casa de Bibiana, a imagem do quintal repleto de plantas. A prosa, contudo, não é repleta de afetações como se a narradora quisesse imitar os modos de falar e os vocábulos relacionados ao contexto dos personagens. É possível verificar uma cadência muito típica nos personagens, uma musicalidade no descrever os fatos, como se uma canção baixinha, no volume cinco, estivesse sendo entoada.

Essa musicalidade e encadeamento não são elementos que parecem roubados de alguém ou fixados no texto de forma solta, pelo contrário, são insígnias que compõem o dorso da obra. Há, então, uma intertextualidade em Torto Arado a partir da relação entre os vários códigos em permanente diálogo. Um movimento constante de aproximação e distanciamento do leitor com o contexto da obra, do leitor com a linguagem utilizada, com elementos que se misturam , se separam e reaparecem. Um constante vai e vem de referências que, longe do hermetismo, compõem a estrutura do romance.

Um ponto que não passa incólume até mesmo ao leitor mais desatento é a força e a perenidade das personagens femininas. As mulheres são o esteio do livro, personagens cuja acepção perpassa a oposição binária entre sexos, recaindo na ideia de uma essência feminina que vem de uma longa história. A representação do patriarcado está presente em Torto Arado, tal qual está vivo quando pensamos em nossas amigas, mães, filhas e qualquer figura da mulher que preencha nosso imaginário.

Não há como fugir, mas há como se ressignificar, negar, agir diferente, pensar de outro modo. A ação unilateral e sozinha não rompe de vez toda a lógica construída, mas desvela a capacidade de insurreição fetichista. A construção das personagens femininas é permeada por um conjunto de significações que, na obra, revelam em suas entrelinhas a denúncia da dominação masculina, os conflitos nas identificações de gênero e a possível ruptura com essa dominação.

Torto Arado fala de um universo particular. A chapada, a Bahia, o Sertão, a magia do Jarê, a crença, o racismo estrutural que explode no rosto de quem é negro, a escravidão contemporânea, as trocas que temos constantemente com aqueles e aquilo que nos funda. E tudo isso é universal. Perpassa o tempo. Perpassa as horas.

TORTO ARADO
Itamar Vieira Junior
[Todavia, 264 páginas, R$ 54,90 / 2018]

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