Fotos: Divulgação

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Uma revolução para a HQ local
Se é isso que querem para os quadrinhos pernambucanos o roteirista e a editora , o álbum em quadrinhos – que tem como pano de fundo uma outra revolução, a Pernambucana, de 1817 – pode ser um bom começo

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!, no Recife

Ano passado, no aniversário de uma amiga, comecei a trocar ideia com um cara e logo percebemos um forte interesse comum: as histórias em quadrinhos.

Conversa vai, conversa vem, joguei pra Rodrigo minha maior indagação desde que percebi a movimentação artística de Recife, quando me mudei pra cidade, há uns 6 anos: com tanto artista plástico/gráfico por aqui, com uma forte carga contemporânea, onde estão as pessoas que fazem quadrinhos por aqui? “Então, eu e uns amigos estamos fazendo uma novela gráfica!”. Fiquei ainda mais surpresa quando ele me disse que o projeto tinha incentivo do Funcultura – possibilidade que eu desconhecia completamente. Logicamente, quis saber do que se tratava. “Então, é uma ficção história sobre !”.

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Apesar de poucas luzes se acenderem na área do meu cérebro onde ficam guardadas as aulas de história do segundo grau, a ideia do projeto em si me parecia bastante arrojada – uma HQ de grandes proporções, feito por artistas de uma cidade que, quando muito, eu via parir um bom zine, protagonizado por um personagem histórico local, mas na intenção de fugir do didatismo que vemos em quase todos os quadrinhos históricos financiados por incentivos públicos. Bravo!

Rodrigo Acioli Peixoto – historiador de formação, bacharel e um mestre pela UFPE – me recebia agora na condição de pesquisador e roteirista da HQ A Morte e a Morte de Frei Caneca, cujos exemplares recém-chegados da gráfica se empilhavam na sala de sua casa. Com ele, Sabrina Carvalho, editora da , casa escolhida para publicar o livro.

O que vem a seguir é uma conversa sobre as dificuldades de se transformar paixão em ofício, o que que aconteceu com a antiga cena de quadrinhos em Recife, subjetividade, Constantine e Mutarelli. E é claro, sobre o processo de produção de A Morte e A Morte de Frei Caneca, provavelmente o primeiro álbum de quadrinhos contemporânea recifense, que será lançada amanhã, dia 9, no Forte das Cinco Pontas – local da execução de Frei Caneca.

REVISTA O GRITO!: E aí, Rodrigo, foi teu primeiro roteiro de uma HQ longa?
RODRIGO: Eu diria até que de uma curta. Foi a primeira experiência geral. Tinha ensaiado sempre, mas nunca efetivado, muito menos em um formato tão longo.

Mas tu nunca tinha feito, sei lá, história curta pra fanzine?
RODRIGO: na verdade, mais contos, crônica… coisas mais literárias.

SABRINA: ele também foi ilustrador. Pouco, mas desenhou.

RODRIGO: é verdade.

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(à Sabrina): e você foi a editora?
SABRINA: uma das. Fizemos um processo de edição bem coletivo.

Você e outros editores ou você e os meninos?
SABRINA: eu, esse rapaz, Mateus, que é um dos ilustradores, e Camilo Maia, que é o designer e fez a capa. Um processo bem coletivo.

Rodrigo, vamo começar pelo básico: como foi que surgiu a ideia e como foi que você resolveu que esse seria seu primeiro trabalho com HQ? Porque esse é um projeto grande – grandioso, na verdade…
RODRIGO: é, ele ficou bem maior do que a gente previa, inclusive; a gente achou que ele ia, por exemplo, ter fim!

SABRINA (rindo): isso é verdade!

RODRIGO: a gente achou que ele ia ter 100 a 120 páginas no máximo, com toda a gordura de páginas pré e pós, que ia ser um volume só, que ia ser completo. Só que não aconteceu. Ele tá com 150 páginas e virou volume 1.

Capa do livro, que será vendido por R$ 30.

Capa do livro, que será vendido por R$ 30.

E os outros volumes já tão garantidos pelo Funcultura ou vocês vão…?
RODRIGO: nada é garantido (risos). Mas é a ideia, né?

Por que esse tema lhe interessa? Foi você quem propôs ou também foi uma ideia coletiva?
RODRIGO: na verdade, é uma história meio longa que eu vou dar uma encurtada – acho, na verdade, que daqui pra frente eu vou fazer feito o Curinga e ficar inventando; “sabe como é que eu ganhei isso aqui”… (risos) não, então, tem muito a ver com minha dissertação de mestrado; minha pesquisa era sobre o nascimento da imprensa em Pernambuco. E Frei Caneca é um dos publicistas mais ativos nessa primeira geração, que vai mais ou menos de 1821 a 1824, em que acaba a Confederação do Equador com quase todo mundo morto, ou fugido. Ele é um dos caras mais proeminentes e de mais fácil acesso à documentação impressa que ele tinha. Na minha dissertação, na verdade, eu nem cheguei nele, acabei ficando pelos primeiros jornais e ele ficou sempre como referência; só que eu já tinha feito alguns trabalhos sobre ele e aí, sei lá, morei com Tiago [Acioli] e Diogo [Luna] – Tiago é meu irmão e Diogo é meu amigo-irmão, são dois dos ilustradores do livro. E a gente sempre quis fazer algo junto. Sempre desenhou junto, sempre fez muita coisa junto e sempre gostei de quadrinhos. Aí sempre ficou no horizonte, “pô, a gente podia fazer quadrinhos, podia pensar em alguma coisa…”. Eu já tinha feito um conto que virou um filme de Diogo.

Qual?
RODRIGO: Tudo Em Seu Devido Lugar; ficou bem underground.

Mas tá online em algum lugar?
SABRINA: tá não, né?

RODRIGO: Tá não, pô! Diogo fez numa resolução gigantesca, aí nêgo tem que fazer uma coisa mais leve, enfim, aí minha experiência com roteiro foi mais nessa história com o filme: era pra eu ter feito um roteiro, que acabou virando um conto – mas também não era bem um conto, era uma coisa híbrida. E com isso veio a inquietação da coisa de fazer roteiro. Então, Frei Caneca surgiu justamente da inquietação com o edital. Da gente se olhar e pensar “porra, seria massa fazer um quadrinho!”; mas na verdade, a gente pensava em fazer uma adaptação de uma tragédia grega, que eu e Tiago gostamos muito – a gente tinha feito até alguns estudos disso – , que é As Fenícias, de Eurípedes. Aí, no edital tinha: um herói da cultura pernambucana. Tinha isso bem taxativo e isso me gerou uma revolta. Mas alguém disse: “tu num estuda esses cara?! Vai lá!” E eu disse, eita, é mermo (risos). E Frei Caneca, a morte dele, na verdade, é muito teatral. João Cabral já escreveu um poema longuíssimo que é o Auto do Frade, exatamente sobre o último dia dele, um poema de 60 páginas, e como eu gosto de tragédias, eu disse “vamo lá”. A partir daí a gente começou a bolar o projeto e foi muito coletivo, mesmo. Mateus [Samico, ilustrador] também é historiador e estuda um período parecido, isso enriqueceu muito. O projeto começou, a gente fez os primeiros estudos ainda enquanto estávamos preparando o projeto pro edital. Aí contatamos a galera da Livrinho, que eu já conhecia por amizade, mas também pelos produtos. Eu sei que essa galera faz bem e queria estar perto. Aí virou uma coisa só, do meio pro fim do processo.

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Vocês passaram quanto tempo?
RODRIGO: do edital pra cá… deve ter uns dois anos.

SABRINA: quando a gente deu o start, que já tava aprovado, já tavam com a grana no banco, desde a primeira reunião, já tem mais de um ano. E quando os meninos procuraram a gente com o projeto, na mesma hora a gente se apaixonou, disse “porra! Que massa!”.

RODRIGO: inclusive, a ideia era bem mais modesta, no começo. Camilo foi quem veio com Crumb, logo e disse “Tem que ser assim, com esse papel”, sei-quê-lá…

SABRINA: junta o preciosismo dos meninos com o nosso e deu nisso.

Vocês já tinham publicado alguma coisa de quadrinhos?
SABRINA: já; na verdade, a Livrinho começou basicamente com quadrinhos. A editora era formada por alguns quadrinistas que faziam coisas juntos, como um fanzine chamado Fusão, do qual a gente fez uns 20 volumes. E aí tinha uma porrada de gente: ilustrador, cartunista, designer… pessoal que gosta de artes gráficas. Aí, saia muito quadrinho. Quando a editora começou a tomar cara de editora, a gente lançou uma coleção de livros de bolso. Os primeiros números eram, basicamente, quadrinhos. Aí a gente foi esticando pras artes visuais, um campo mais amplo. De 27 números, 10 são quadrinhos. E aí tem Xorume, que é um grupo de quadrinistas que a Livrinho edita.

Acho que vi algo deles no Iraq, uma vez.
SABRINA: sim, deve ter sido o número #3.

Foi numa festa em que tinha muito fanzine à venda. Foi quando eu me dei conta de que tinha gente em Recife fazendo gibi. Mas então, há quanto tempo rola esse trabalho com quadrinhos?
SABRINA: uns 7 anos, num sentido mais coeso.

Porque é o seguinte. Eu sou de Brasília e [esse é o momento em que eu coloco a mesma questão que explicitei acima]. Porque, com exceção da Ragú, eu não conhecia nada. Então: onde estão essas pessoas, o que foi feito dessas pessoas e por que a distribuição não consegue ser um pouco mais ampla? Não em um esquema profissional, claro, mas como é que essas coisas não são mais ventiladas?
SABRINA: ótima pergunta. (risos) Eu sou até meio traumatizada. Mas eu acho que é um mundo muito fechado. A questão é essa. É um mundo em que circulam muitas informações e referências, mas é fechado, só circula naquele mundo. É um mundo que vai se abrindo por causa do cinema, por causa de outras linguagens, que vão puxando dos quadrinhos. Mas a galerinha do quadrinho tem uma linguagem própria, referências próprias. É como um clãzinho que o resto do mundo não alcança. A mesma coisa aqui. Tipo, no lançamento da última Xorume, que foi lá na Mau Mau, tinha uma galera que…[interrompe] A gente tá fazendo agora uma coletânea chamada Hellcife: o lance era que, quem fosse na hora e levasse sua página, seria publicada; foi um monte de gente, desenhando na hora. Foi uma loucura.

Quando foi isso?!
SABRINA: há um mês, mais ou menos.

A editora Sabrina, da Livrinho de Papel Finíssimo e Rodrigo Acioli durante o longo papo (Foto: Dandara Palankof para RevistaOGrito!)

A editora Sabrina, da Livrinho de Papel Finíssimo e Rodrigo Acioli durante o longo papo (Foto: Dandara Palankof para RevistaOGrito!)

Caralho, como eu não fiquei sabendo disso?! (risos) Como assim?!
SABRINA: mirmã, pra onde você olhava, tinha nêgo acocorado, um monte de gente desenhando, ali, na hora. Muita gente e muita gente boa, muita coisa fuderosa.

Que foda! E aí, como ficou?
SABRINA: A gente vai lançar. Foram umas 20 histórias. E tu perguntou, “cadê essa galera?”; foi o que eu me perguntei naquela hora. É bem isso.

RODRIGO: a gente dividiu um ateliê com uma galera de zine, também, a galera do NoisÉ, que Mateus também faz parte e, na frente da gente, a Casa do Cachorro Preto, que é de Raoni [Assis, artista plático] – que também é um monstrinho – e fez umas páginas pra gente em Frei Caneca – e teve uma desenhada na casa dele; foi um negócio assustador! Fiquei do lado de Cavani Rosas vendo ele desenhar e não consegui fazer um traço, mas fiquei sacando tudo. Não aprendi nada, porque ele é muito rápido. (risos)

SABRINA: na verdade, foi de Cavani o primeiro quadrinho da Livrinho que não era nem livro de bolso, nem zine coletivo.

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Mas aí, vocês acham que é justamente por ser um clubinho fechado e por ser um tipo de produção que exige muito – desenhar toma um tempo do caralho, escrever toma um tempo do caralho, publicar toma um tempo do caralho.
RODRIGO: dá pra dizer que toma uma vida do caralho!

Aí tu acha que essa galera que curte, que tem a inclinação, não tá afim de fazer porque é um clubinho fechado e não vai ter retorno pra todo esse trampo?
RODRIGO: Não, eu diria que tem outras coisas também… aqui tem uma galera pra quem a questão da remuneração…

Não, não retorno financeiro, de reconhecimento, mesmo!
RODRIGO: mas então, muito desse pessoal trabalham em jornal; grande parte da galera da Ragú trabalha em jornal. Então eles, que já trabalham, fazem isso pelo gosto, de estar por dentro; ao trabalho desses, o acesso é maior. Mas tem uma galera do zine, e acho que essa galera que não consegue ultrapassar essa barreira porque não tem nem volume pra isso. Fazendo uma publicação do próprio bolso, a possibilidade de ter 500 exemplares é difícil.

SABRINA: 500, nunca!

Então [Frei Caneca] está bem pouco ortodoxo, ele não nasceu herói. Nietzsche disse que não acredita em um deus que não dança; e eu não acredito em um herói que não trepe

Qual foi mesmo a tiragem de vocês?
RODRIGO: mil.

SABRINA: mas então, a gente tem hoje um grupo grande, porque acho que os meninos e nós, da Livrinho, acabamos virando um grupo só. E a gente tende a ter um processo de continuidade. A Livrinho achou massa, porque a gente começou com essa pegada de quadrinhos; só que o caminho do mercado levou a gente pra uma coisa tão mercadológica, que a gente perdeu um pouco esse campo criativo. E aí, encontrar com os meninos, rolou meio que uma obrigação de voltar pra esse nicho.

RODRIGO: porque chegou uma hora de estarmos de repente com seis, sete pessoas numa mesa desenhando, e eu pensar “caralho, o que a gente vai fazer com esse povo todo, agora?!”

SABRINA: tem que escoar.

RODRIGO: Pois é, e por isso que tô dizendo que é difícil fazer alguma coisa de corpo, com uma afinidade tão grande. A gente tem muito exemplo aqui, mas de história curta, então, o nosso fôlego meio que vai muito mais pra isso. Então, talvez o que espante em Frei Caneca é que é uma parada grande. Os meninos não desenharam em uma semana, desenharam em meses!

SABRINA: E acho que tem também essa coisa do continuado. Quando você pega, sei lá, o Conan, o Superman, tem uma questão de continuidade. São personagens que tomaram uma personalidade tão própria que eles pedem essa continuidade. Aqui, a gente tem essa tradição das pequenas histórias. Então a gente acaba não criando.

Sim, vocês não acham então que, de repente, com essa abertura que há hoje pra esse público interessado em novelas gráficas, histórias mais longas, não rola direcionar a produção, de repente, dependendo de como o livro se sair?
SABRINA: É o que a gente está tentando fazer. A gente tá no mato com um facão na mão, tentando abrir caminho.

RODRIGO: e foi um negócio muito de vontade. Contar essa história pareceu massa pra todo mundo, e ela foi crescendo e a galera não quis reduzir. Chegando perto do fim, os prazos estourando, eu lembro que Mateus chegou e “não, eu vou desenhar mais umas 20 páginas” e eu “meu irmão, não vai dar!”; e ele “mermão… vai ter que ser!”

SABRINA: e o Frei Caneca deixou de ser um personagem histórico pra ser um outro tipo de personagem.

Era isso que eu tava pensando agora há pouco; inclusive, acho que deve ter sido uma das tuas críticas a outros gibis históricos, de que seriam muito didáticos.
RODRIGO: pois é, isso está no projeto, inclusive. Quando o fizemos, dois anos atrás, estava escrito: isso não é uma obra pedagógica. Não vai ensinar nada a ninguém.

SABRINA: E de fato tem muita licença poética.

RODRIGO: é uma ficção histórica.

Então, como foi que vocês criaram esse Frei Caneca que não é mais o Frei Caneca?
RODRIGO: é, ele agora é Joaquim…

SABRINA: Quinzinho…

RODRIGO (pensando): então, eu tentei escrever um artigo no mestrado que tinha o mesmo título do livro. Mas uma artigo que nunca publiquei foi bad trip, porque como gosto muito de linguística, semiótica. A galera de História disse “não, não, nem deixe isso aparecer por aqui!”. E na época, eu tava num encanto estruturalista, formalista, figuras de linguagem no Typhis Pernambucano – que era o jornal de Frei Caneca. E eu, na minha inocência, achei que ia encontrar muitas referências bíblicas. Foi a primeira quebra, porque tinha mais referências greco-romanas – o próprio jornal dele fazia referência a um personagem grego, é muito mais forte nele, isso. Ele cita muito pouco Jesus Cristo. Pontualmente e, quando faz, é sempre muito combativo. E aí eu li Stendhal, O Vermelho e O Negro; o protagonista é bem cético; pra ele, a batina é o uniforme daquele século – se ele tivesse nascido antes, seria o uniforme do exército de Napoleão. Tem a possibilidade de ascensão da batina. Pra quem é pobre e inteligente, era a única via de acesso numa sociedade como era a do século 19. (pausa) Nem lembro mais porque eu tava falando disso. (risos)

Para falar da construção do teu Frei Caneca!
RODRIGO: Isso! Porque eu fui seguindo essas interpretações, numas escolhas bem ousadas. Tipo, aqui em Pernambuco, ele é herói desde que nasceu. Ele não tem um período de ruptura. E ele é muito pouco documentado; até a proximidade da Confederação do Equador, tem muito pouca coisa sobre ele. Todo mundo tem ele como um herói que nasceu herói. E um dos autores que estudei muito foi Marco Morel, que é do Rio, e tem umas duas biografias sobre Frei Caneca. Ele vem com outra tese, de dizer “ó, velho, a gente não conta, mas os textos dele antes são meio árcades, tem umas poesias que são só ajeitadinhas.”. Então ele é preso, entre 1817 e 1821. Ele está na prisão, junto com todo mundo que foi preso em 17 [a Revolução Pernambucana de 1817], na Bahia. E essa prisão foi um momento muito forte. No livro, a gente tentou dar espaço pra isso. A decisão foi essa: ele não vai nascer herói. No livro, ele entra quase que por acaso em 17, ele não é um dos seus ideólogos. Então está bem pouco ortodoxo, nesse sentido. E outra coisa: Nietzsche disse que não acredita em um deus que não dança; e eu não acredito em um herói que não trepe. (risos)

SABRINA: pois é, eu tinha a minha ignorância de Frei Caneca, de referências de quem o estudou na escola, um conhecimento mediano, e aí, quando teve esse papo com os meninos, o primeiro choque foi que eles humanizaram o cara. Porque ele deixou de ser um personagem tão abstrato e virou um cara que tinha crises de identidade, crises existenciais. Ele era ruivo! Eu confesso que saí apaixonada por Frei Caneca. Porque eles trouxeram um cara humano, não uma armadura de guerra, como a gente vê. É um cara que se fudeu, que trepa, tem filhos.

RODRIGO: essas são referências históricas, inclusive. Ele era um cara moderno, no limiar da modernidade possível pra alguém que nasceu e é filho de um tanoeiro – o nome dele vem disso, o pai dele fazia canecas.

SABRINA: e outro dado que eu achei massa que os meninos trouxeram, que eu sabia que tava no plano inicial e que ficou muito bom no livro, foi de trazê-lo como educador. Ele não só tem as ideias, não só articula, como tá ali pra multiplicar o conhecimento, tirar a escuridão das pessoas.

Mas voltando numa questão: como vocês vão distribuir o livro?
SABRINA: Temos poucos exemplares. Então, nenhuma distribuidora vai trabalhar com 600 livros – que são os disponíveis após as contrapartidas previstas no edital do Funcultura. Mas a gente tem muitos contatos. Vai ter o lançamento, temos contatos com algumas livrarias, temos contatos no Rio e em São Paulo, site, blog.

Se me permitem a sugestão, seria interessante mandar pros críticos de HQ mais mainstream desse eixo Rio-SP. Para a galera saber o que se está produzindo por aqui atualmente.
RODRIGO: com certeza! Até porque esse livro, de certo modo, tem mais fôlego do que o que a gente faz geralmente, com circulação mais limitada, com grana mais limitada – não que essa grana tenha sido ilimitada. Por baixo, metade disso aqui foi feito sem dinheiro. E a gente quer que esteja numa livraria, claro. A gente vai fazer até onde a gente tiver perna pra fazer.

SABRINA: e isso que você falou é essencial, pra criar essa comunicação, um ciclo maior de troca. E acho que a gente tá trocando. Aos pouquinhos, mas estamos indo por esse caminho, é isso que a gente quer.

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(à Rodrigo): sim, mas então. Começou com você, Tiago, Mateus…
RODRIGO: Sabrina, Camilo, Diogo…

(à Sabrina): da editora, são você e…
SABRINA: Camilo.

Pronto. No total, eram quantos ilustradores, no começo?
RODRIGO: eu e mais quatro.

SABRINA: tiveram alguns que entraram só como participações especiais.

RODRIGO: tipo, Raoni desenhou oito páginas da prisão. Felipe Sidartha desenhou duas páginas, Hélio desenhou outro bloco… então, as pessoas entraram também no último quartel (risos).

Acho que o livro me libertou muito dessa fala de historiador. Tava precisando (Rodrigo Acioli)

E como foi harmonizado com tantos artistas diferentes?
RODRIGO: desde o começo, a gente queria tratar quadrinhos como artes plásticas, também. Até pela formação de Tiago em plásticas, pela formação dos outros meninos com cinema. E tem uma coisa com a compreensão de subjetividade, como algo fragmentado, então, já no projeto, a gente tinha a ideia de que iam ser quatro pessoas distintas desenhando o livro – inclusive a arte-final, não ia ter depois alguém arte-finalizando.

SABRINA: Que virou oito.

RODRIGO: Que virou oito. Mas uma coisa que garante, nos quadrinhos, no cinema, a unidade do objeto, são as unidades de finalização. Às vezes, você tem muito desenhistas, mas é um arte-finalizador só. E a gente quis explorar essa multiplicidade.

SABRINA: cada um era completamente responsável pelo seu bloco.

RODRIGO: pelas soluções gráficas a partir do roteiro, mas aí tiveram vários esquemas diferentes. Alguns foram quase aritméticos (risos). Tipo o prólogo: duas páginas de Tiago, duas páginas de não sei quem, minha ideia não era essa. Minha ideia era que cada um ia pegar um momento que tivesse a ver com cenário e subjetividade; então, a prisão seria um, outro seria outro, essa era a ideia original. Acabou sendo uma falta nossa; mas vieram outras coisas com isso, outros experimentos – experimentamos muitas coisa. O que eu mais gosto deve ser o segundo ou terceiro capítulo que é já na prisão, que eu acho que foi o que ficou mais redondinho. E aí, cada desenhista pegou a história de um personagem. Então, Diogo desenhou o Frei nas reflexões dele. Tiago desenhou Pedro da Silva Pedroso, Raoni pegou Gervário Pires e Mateus, a chegada de Cipriano Barata. Esse foi o brinco, acho que foi onde a gente conseguiu. O resto, não tanto.

SABRINA: O resto não seguiu uma regra.

RODRIGO: Não, seguiu algumas, tipo ligação a cenário e momento.

SABRINA: Começou assim, mas depois a gente tava no processo dos prazos, do encerramento da história.

RODRIGO: uma coisa também é que o roteiro não estava totalmente pronto. Isso foi foda, espero que a gente consiga resolver nos próximos. Parte do roteiro foi quase concomitante aos desenhos.

SABRINA: uma coisa interessante é essa passagem do roteiro pra imagem. O roteiro tem a imaginação do roteirista, no qual ele bota os elementos que acha que deve, que não deve. Aí o ilustrador capta e traduz pra imaginação dele. Então foram ótimos momentos de surpresa, também, tipo “eita porra, aqui no roteiro ele ia tirar o braço do cara!”

RODRIGO: aí tirou a cabeça!

SABRINA: daí Mateus vai, argumenta. E aí cada um criou um Frei Caneca na sua cabeça, também.

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E tu acompanhasse tudo bem de perto, mesmo…
SABRINA: quase em cima.

RODRIGO: foi um processo de imersão muito sério.

SABRINA: principalmente os últimos meses, foram muito intensos, de estar todo mundo junto, internado, todo dia.

O projeto gráfico do livro como um todo, foi coletivo?
RODRIGO: CAMILO, véi. Camilo, desde o começo, vinha cevando esse livro.

SABRINA: com Crumb e “Gênesis” na cabeça.

RODRIGO: mas claro, foi tudo muito discutido.

SABRINA: A capa, por exemplo, foi muito conversada. Ele não desenhou dentro da história, mas desenhou a capa. E ele, mais do que eu, teve um processo muito intenso.

RODRIGO: Ele pegou todos os desenhos, fez a balonização, tudo foi muito pensado e repensado, a fonte foi trocada várias vezes; fontes específicas: pra recordatório é uma, pra data é outra. Camilo chega a individualizar o balão. O cara militar é mais quadrado, o dos padres é mais arredondado.

SABRINA: “Você viu o balão de fulaninho? Veja como ele é arredondado nas pontas, por causa da personalidade dele…”

A gente fica seguindo coisa de fora, não tem algo daqui que o leitor fique esperando todo mês pra sair, pensando no que vai acontecer. Temos muita vontade de fazer algo que tenha uma continuidade

O cara saca muito da linguagem dos quadrinhos, então…
SABRINA: Muito. E essa é uma questão interessante, porque aí teve esse processo de aprendizagem de todo mundo, também.

RODRIGO: a imersão teve muito disso – além de fazer, a gente tinha que aprender a fazer.

SABRINA: e com prazo estourando!

RODRIGO: e todo mundo querendo fazer bem! Porque tem uma galera muito boa, então ninguém queria abrir mão de certas coisas…

SABRINA: no folhear do quadrinho, você vê a evolução, também. Tem um crescimento.

O primeiro volume vai de que ponto até que ponto?

RODRIGO: ele começa em 1825, no prólogo, já depois da morte. Daí, a gente volta e conta a história a partir de interpretações dos documentos que ele deixou. Volta pra 17 – e a gente escolheu, não historicamente falando, mas que a gente achou mais legal – e acontece quase que casualmente a participação de Frei Caneca em 17. Caiu de para-quedas no caos. Na verdade, tem a ver com o documento que ele escreve na prisão, pedindo pra ser solto. Tem a ver com a história do Prior, que obrigou ele a ir. Daí termina em 1821, antes da independência, com a derrubada da junta de Luís do Rêgo Barreto e com a eleição da junta de Gervário Pires, a primeira junta eleita de Pernambuco, da qual Frei Caneca fazia parte e que assume a presidência da província. Acaba com essa notícia. De 21 a 24, muita coisa acontece. Independência, queda da junta, eleição pra deputado. Fora as coisas pessoais, também. Tô falando muito como historiador, mas acho que o livro me libertou muito dessa fala, também. Tava precisando.

SABRINA: um descarrego acadêmico.

RODRIGO: só não consigo não falar, ainda, às vezes, como tal.

Vocês tão esperando a poeira baixar de terem pegado o livro, ainda, ou já começaram a pensar no dois?
SABRINA: a gente se negou a começar a captar agora. A gente pensou em viver ele, primeiro.

RODRIGO: ainda pensei em colocar nesse último Funcultura. A gente chegou a se reunir. Mas o livro nem tinha saído ainda. Nem essa lombra de pegar o objeto, olhar. Se fosse esse mês, a gente teria tentado!

SABRINA: a gente só tinha visto uma prova de capa dura que não era nada.

RODRIGO: isso foi ridículo (risos)! Eu tava longe, um amigo ligou, “chega aí, a gente vai ver uma prova, agora!”, e era só a capa branca, sem nada dentro.

Além do volume dois, vocês tão pensando em mais alguma coisa, já que falávamos no redirecionamento da galera e começar uma produção mais voltada pra novela gráfica.
RODRIGO: A gente aprovou outro projeto que é a história pernambucana da infâmia. Saindo um pouco do épico. Entrando num esquema mais “safado”, numa finalidade mais satírica, mas com outro personagem histórico, que é o Padre Carapuceiro. Que foi um escritor do jornal “O Carapuceiro”, que fazia crônica moral e de costumes em Pernambuco do séxulo 19. E é muito divertido, já tinha pesquisado e gosto muito dos textos dele. A ideia agora é usá-lo como gancho pra falar da moralidade – mais da imoralidade, na verdade. E nessa pegada de novela gráfica, mesmo.

SABRINA: e outras coisas autorais que estão sendo pensadas, outras que estão sendo editadas, mais ficção. Vai ter a Hellcife; Rafael Anderson, um dos caras da Xorume, já está editando um material na Livrinho. Estamos pensando em fazer um selo de quadrinhos da Livrinho. A gente se reanimou muito, esse processo foi uma injeção de ânimo nesse ambiente muito burocratizado em que a Livrinho estava, com coisas institucionais, isso deu um gás e a gente não quer mais parar.

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Mais curtas, mas longas…?
SABRINA: Está em aberto. Eu tava falando pra Camilo, ontem: eu sinto muita falta da gente ter um personagem, ter uma história, uma coisa que a gente queira seguir e que tenha aqui. A gente fica seguindo coisa de fora, não tem algo daqui que o leitor fique esperando todo mês pra sair, pensando no que vai acontecer. A gente tem muito essa vontade de fazer algo que tenha uma continuidade, mas são pensamentos.

Essa coisa do ciclo, eu tava pensando que volta pra coisa da distribuição; porque mesmo que você tenha uma cena local fortalecida, de criar o buxixo, ainda assim, é importante, em vários aspectos, você mandar a produção pra fora. E isso não é uma parada que acontece só aqui, na verdade. Agora me lembrei que, uns bons anos atrás, numa ida à São Paulo, entrei numa comic shop e tinha MUITO gibi – não fanzine, aquela coisa artesanal, gibi mesmo – mensal, serializado, que tava sendo produzido por lá e eu não fazia ideia. E não chega, de jeito nenhum!
SABRINA: então, a internet acaba sendo a solução do enigma. É um meio onde as coisas podem ser vistas e é aí que a gente tem que se encontrar; a gente, como produtores independentes, que não precisam de uma editora.

Enfim: há a necessidade de criar uma cena e há abertura nacional para projetos como o “Frei Caneca”. É importante criar esse público do material serializado, ainda que a distribuição seja mais restrita, mas para criar esse conhecimento da cena pelo público local. Mas aí um projeto como Frei Caneca dá essa projeção que a cena precisa no resto do país. Em compensação, dá pra fazer esse tipo de coisa, que expandiria a visibilidade, sem apoio do Funcultura ou outros incentivos públicos?
RODRIGO: Não. Até porque, como manter tantos artistas, trabalhando tanto tempo, tão imersos, e ainda tem a grana pra gráfica.

SABRINA: seria mais difícil. E uma grana que seria pra tantas pessoas, com a entrada de mais artistas ao longo do projeto, teve que pagar o dobro de pessoas. Então, todo mundo trabalhou com pouquinha grana. Até porque a gente pensou que, com o objeto pronto, ele poderia de uma maneira ou de outra ressarcir esse tempo que foi muito doado. Agora, o lance da impressão… aí, meu nêgo… porque, sem grana, se trabalha, se desenha, se faz um projeto gráfico lindo, se faz uma capa perfeita. Agora, sem grana, não imprime!

Minha questão é: o Funcultura ainda tem a exigência de você ter que tratar de um tema histórico?
RODRIGO: não mais.

Porra, menos mal. Porque isso dificulta pra criar essa visibilidade. Se tudo que tem potencial de verdade pra ser distribuído fora do estado trata de temas históricos, isso restringe muito o público.
RODRIGO: então, esse é um corte do qual eu acho que Frei Caneca não padeceu. A gente tentou fazer uma história que pudesse ser lida como eu li a Revolução, do Manara, como eu li os Borgias. É um romance histórico.

Não, mas não digo isso nem por um possível didatismo. Mas por conta da questão de que o público tem interesses variados. Aí, se o único incentivo pra que o material de grande porte possa ser produzido seja tão atrelado a um aspecto só, você poda o artista e limita o alcance ao público. O cara tem uma história do caralho pra contar, mas não tem viés histórico e não pode sair.
RODRIGO: pois é, eu não poderia fazer uma história microbiológica num copo de cerveja – a luta entre as bactérias, não-sei-que-lá.

SABRINA: isso tem muito a ver com a política cultural daqui. Na época que eu tinha banda, por exemplo, nunca consegui aprovar um Funcultura.

Qual era a banda?
SABRINA: nah, num era conhecida não. Mas aí…

RODRIGO: ouxi, vai falar não, é?

SABRINA (suspira): Backing Boquets Barbie Vocals.

Ei, pô, já ouvi falar várias vezes da sua banda (risos)!
SABRINA: é, fala de porraloca, a galera. (risos) Então, a gente nunca conseguiu aprovar porra nenhuma, porque a gente não se encaixava naquelas linguagens que estavam nos olhos do governo. Por exemplo, tem uma coisa forte, a Ragu aprovou Funcultura pra caralho. Então, tem umas coisas massa, mas que tão muito direcionadas. Domínio público, transformar conto em quadrinho, de autores renomados, num sei quê. Isso também é uma restrição.

RODRIGO: e a Ragu aprovou como impressão de revista. Que é bem mais livre que a linha pra quadrinhos, e conseguiram artista até da Argentina. A Ragu é bem completa, ela dá um panorama bem completo do… underground-pop-contemporâneo, sei lá (risos)!

SABRINA: o que acontece também é o seguinte: tinha uma época que tinha aqui uma tradição de festival de quadrinhos, que tinha todo ano. O ano que eu entrei na Livrinho, foi o ano que ela tava virando editora e a gente fez o circuito experimental do último festival de HQ que teve.

O que aconteceu com esse festival? Qual era o nome desse festival?

SABRINA: acho que era FIHQ [N.E: Festival Internacional de Humor e Quadrinhos]

RODRIGO: não lembro. Mas era na Torre Malakof.

SABRINA: e aí Livrinho entrou com várias ações experimentais; uma delas era a 24 Horas – um concurso que rola simultaneamente, no mundo todo, em que um grupo tem 24 horas pra desenhar uma história de 24 páginas. Aquele ano foi foda, foi na Kabum, e quem ganhou foi Rafael Anderson, o cara da Xorume, desenhado sozinho – como várias pessaos fizeram, aliás. Ou seja, esse ambiente já foi muito aquecido: Samuca, Flavão, Lin, não sei o que foi que aconteceu.

Era o que eu ia perguntar agora.
RODRIGO: pô, essa galera vira e mexe faz as paradas, mas estão em seus trampos, em jornal, fazendo coisas de outro nível. O Lin fez aquela parada da Turma da Mônica, que chamaram 50 ilustradores – uma história do Curumim. [Trata-se da segunda coletânea de histórias curtas da Turma da Mônica de cunho autoral, MSP +50, publicada em 2010]

SABRINA: vou dizer uma coisa. Pra mim, o melhor deles, sou fã dele e é amigo pessoal, é Greg. Dia desses, ele tava resmungando “porra, vou ter que viajar! Tem que tirar passaporte, vou pra Portugal!”. E eu já ficando tensa, vai viajar por que, fazer o que em Portugal? E ele “porra… ganhei um prêmio.” Ele falou com a humildade mais linda. E aí Greg, um cara que ninguém sabe quem é em Pernambuco, ganha um puta prêmio internacional de quadrinhos!

Diomedes, de Mutarelli, citado como influência (Divulgação)

Diomedes, de Mutarelli, citado como influência (Divulgação)

Qual foi o prêmio?
SABRINA: porra, num lembro (risos). Mas enfim, o cara é foda, fundador da Livrinho, e é de jornal. Do Diário [de Pernambuco]. Chega no jornal às 15h e não tem hora pra sair, de domingo a domingo. [Greg ganhou o terceiro prêmio na categoria “caricatura editorial” do World Press Cartoon; o desenho premiado foi “O maior inimigo dos EUA”, publicado no Diário de Pernambuco em 15/12/2012. N. do E.]

RODRIGO: como é que se pede pra um cara desses desenhar uma história longa? A gente até cogitou: a gente conhece o cara, está ali perto, mas pelo preço que eu vou pagar, e quando eu vou pagar, como é que eu…?

SABRINA: mas a coisa com Greg é só você fazer ele se apaixonar. Por exemplo, Greg está em um livro que a gente vai lançar, Sacanagem, que é só de putaria. Cada artista tem uma página, um negócio absurdo. E a gente ainda não lançou porque ele ainda não mandou a página. O cara cheio de filho, cheio de trabalho – além do jornal. Não tem mais tanto tempo pra ficar se dedicando. Vai ficando velho, criando família, necessidades, cheio de conta pra pagar, mais fácil ler quadrinho do que fazer.

RODRIGO: Porque é muito trampo, muito trampo…

SABRINA: e cada um tem um ritmo, uns mais lentos, outros mais rápidos – Cavani Rosas, por exemplo.

Agora, aquelas perguntas clichês: quais foram suas influências pra compor essa história? Tu teve algo como “porra, quero dar um tom parecido com isso daqui que eu li, que eu vi” – tu lê o quê?
RODRIGO: Borgias, de Manara e Jodorowsky…

SABRINA: por causa disso que tem aquelas putarias todas.

RODRIGO: enfim… de quadrinhos, né?

É, mas não necessariamente influências diretas, precisa nem ser diretamente quadrinhos, tipo “tentei escrever parecido com um filme de fulaninho”…
RODRIGO: cara, nos últimos anos eu vi muitas séries. Tinha o maior preconceito, mas vi tanto que agora não vejo mais filme, só vejo série, que é bem mais legal (risos). Principalmente pra quem gosta de roteiro, tem vários pontos de virada. Tô vendo Game of Thrones, os meninos todos estão vendo. Diogo já chegou hoje, “pô, Rodrigo, tava pensando, qual será a tua casa?”.

SABRINA: isso é muito massa, se inserir num universo.

RODRIGO: outro quadrinho que me ajudou muito foi El Gaúcho [Hugo Pratt e Manara], que Raoni me emprestou logo que a gente começou.

SABRINA: tu lia “Druna”?

RODRIGO: não, não… “Conan”, véi! Gosto pra caralho de “Conan”, uma influência que tá tão dentro que dá nem pra livrar, mesmo que queira. E minha referência vem muito de literatura, O Vermelho e o Negro. Na parte da prisão, eu me esforcei pra não decalcar livros de Dostóievski, na vida dele na Sibéria; Recordação da Casa dos Mortos foi foda. E foi meio desesperador dar conta de uma trama política de uma forma legal, então essas influências foram importantes. Roma também é muito interessante. A série de Borgias também é legal, apesar de o gibi ir mais além.

Vocês tão plenamente satisfeitos com o resultado e o processo, como um todo? Ou deu alguma merda?
RODRIGO: deu altas merdas…

Verdade, merda sempre dá; mas alguma foi incontornável?
SABRINA: não, nada que não tenha sido contornável. No sentido geral, é mais satisfação.

RODRIGO: a gente tá bem ansioso. Acho que ficou no limite do que a gente sabia, mesmo. Tá tudo ali: depois disso, eu não sei o que a gente poderia ter feito. Até onde eu tive olho, até onde a gente teve mão, braço, cabeça, a gente foi. Tenho essa sensação, fui até onde eu sabia, inventei até onde eu podia, amarrei até onde eu percebi que dava. Nem consegui ler ainda, depois que foi impresso.

SABRINA: nem eu.

RODRIGO: a gente fica mais na lambida do objeto pronto.

SABRINA: a gente leu tanto no processo de revisão, tanto, tanto, tanto…! Estamos tentando ‘desimpregnar’. Por isso que eu não vou ler agora. Olhar, eu olho pra caralho. Mas ler, não ainda.

RODRIGO: minha curiosidade agora é saber a repercussão entre leitores.

Bom… eu não sei mais o que perguntar, falem mais sobre o que vocês quiserem… qual é o futuro do quadrinho pernambucano (risos)?
SABRINA: eu, como sou otimista, espero que o futuro do quadrinho pernambucano seja lançar 70% de sua produção pela Livrinho (risos).

RODRIGO: bom, eu tô instigado pra caralho, tá todo mundo muito instigado…

SABRINA: e tá todo mundo experimentando funções. Eu tô quase virando quadrinista. Ele tá quase virando editor. Tá todo mundo quase virando designer. As coisas estão meio que se misturando, o processo foi tão junto que está todo mundo desenvolvendo o olhar do outro.

RODRIGO: eu tô tendo que voltar a desenhar loucamente porque vi muito a galera desenhando na minha frente.

SABRINA: eu sinto falta de você desenhando.

RODRIGO: então, eu queria ter feito em Frei Caneca. A história que eu queria pegar, Sidartha quem fez. Mas foi foda, porque o prazo foi acabando, o roteiro ainda tava sem fim, a gente ainda cortou umas coisas..

SABRINA: chegou um momento que era uma DR todo dia, do tipo “não, eu juro que eu não bebi ontem, eu não fiz farra, tô aqui trabalhando!”.

RODRIGO: a gente vai viver agora essa nova etapa – como tudo pra mim foi bem novo, da distribuição, da entrevista.

SABRINA: de ter sete milhões de livros na sala da sua casa.

RODRIGO: tudo muito novo e agora a gente vai, não com menos vontade do que a gente teve, nessa coisa de “terminou” – não, ainda não terminou. Ninguém relaxou ainda, eu não tomei uma cachaça digna.

SABRINA: a gente nem brindou, ainda todo mundo junto.

RODRIGO: NEIL GAIMAN! Neil Gaiman, pelamordedeus, volta, Neil Gaiman! (risos) Porra, se eu tenho uma religião nessa vida, é Sandman. Gaiman e Jorge Luis Borges.

SABRINA: queria só ilustrar com uma cena em que estávamos numa reunião com a diretora do museu e Rodrigo ficou “não, porque eu sofri na tese, eu sofri nesse livro…”. Aí chega Betânia e diz “você sofreu? Por que, meu filho?!” e eu, isso é draaaaaaaaama.

RODRIGO: não, pô, tormento do caralho! Escrever é punk.

SABRINA: mas é um sofrimento esquisito, em que você tem prazer.

RODRIGO: sim, mas é foda; eu comparo o sofrimento desse trabalho à minha tese por conta do seguinte: eu tenho uma relação com arte muito explosiva, dias internado fazendo alguma coisa e depois parava um tempo. Dessa vez, não tinha escolha. Tinha dia que tinha que escrever e pronto. “Ah, não veio inspiração”… foda-se, escreva.

SABRINA: a arte-ofício é isso, né?

RODRIGO: pois é, eu tô nessa mudança de paradigma com a arte: sempre tem o que fazer. Consegui pontuar ao menos um diálogo que pareça razoável todo dia.

Isso que você quis dizer quando falou que vocês foram aprendendo a fazer? Não só aprendendo a fazer um gibi, mas a transformar isso num ofício.
SABRINA: na verdade, essa profissionalização é um sonho. E tem a porção de doação, aí.

RODRIGO: eu chamo de militância.

SABRINA: fazer porque quer. Porque tá vivo. E vai fazendo até conseguir. E a gente começou isso cada um no seu trampo – ou não, tinha a galera desempregada. E eu ficava 24h na livrinho, porque quando começou, eu não tinha filho. Daí hoje a gente já consegue tirar um salariozinho. Isso é um sonho que a gente está realizando, de ter nosso escritório, e o quadrinho se estende pra uma coisa mais difícil. Editar livros é uma coisa generalizada – o dinheiro que vem é cartilha institucional, do governo, a universidade que quer um livro assim-assado.

GS: clientes.
SABRINA: exato. E quando chega nos quadrinhos… Os meninos, por exemplo, deixaram de ser clientes. Chegaram como tal; a pauta da primeira reunião era “Frei Caneca – novos clientes”.

Sim, mas tu não falasse sobre o que tu lê.
SABRINA: cara, na verdade, eu li pouco quadrinho. Mas uma coisa que eu adoro é John Constantine. Uma referência muito forte foi Diomedes. Me deu uns tapas. Como eu tava acostumada a ler Sandman, Constantine, Diomedes me deu questionamentos mais cotidianos e contundentes.

RODRIGO: tem uma cena muito foda em que o Diomedes tá com aquele amigo dele, filósofo de subúrbio.

SABRINA: é lindo, aquele personagem.

RODRIGO: e ele questiona “por que você vai contar mais uma história? O mundo tá tão cheio de objetos!”

SABRINA: Diomedes é muito sobre essa subjetividade de cada um, de lidar com seu cotidiano e suas distrações, suas crises, e passa por esse ambiente de criação, tanto que ele vai bater num encontro de quadrinhos em Portugal. De repente, é esse em que Greg foi (risos)! E ele mesmo aparece, o ‘Muçarela’…

RODRIGO: ele também aparece no filme de O Cheiro do Ralo.

SABRINA: tá ligado que ele se baseou no pai dele pra fazer o Diomedes?

RODRIGO: foi…?

SABRINA (pra mim): mirmã, tu tava lá no Iraq, no dia do Mutarelli?

GS: não, cara, num fui…!
SABRINA: mermão, que coisa esquisita, aquele cara! Virou uma grande terapia de grupo, o negócio! Quando eu vi, tava todo mundo com as vísceras nas mãos! Eu chorei, várias pessoas choraram, ele viu um disco voador…! (risos) Aí ele contou a história do pai, que era um delegado torturador na ditadura. Então ele já presenciou coisas horrorosas. Ao mesmo tempo, era o cara que dava quadrinhos a ele e o incentivava a desenhar. Na última página de Diomedes ele fala, “esse livro, nanana, e tal página, uma catedral linda, fiz nas ultimas 24h dele, e ele infelizmente não viu”…

GS: bom… acho que é isso.
SABRINA: virou papo de botequim!

Essa era a ideia!

SABRINA: cadê a cerveja?!

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