Fotos: Jonatan Oliveira

Botas, saias longas, camisas de banda, estampas coloridas e glitters eram os trajes do público na quarta edição do , um híbrido de prévia carnavalesca e festival de música alternativa. Já incluso na rota dos grandes festivais de Pernambuco, o evento ultrapassou o limite de prévia carnavalesca, trazendo para este ano mais de 20 atrações em três palcos para seis mil pessoas, de acordo com a organização do evento.

O GRT, que evoluiu de um bloco de carnaval de rua, reuniu bom público à Fazenda Bem-Te-Vi, no KM 13 de Aldeia, em Camaragibe, no Grande Recife, e exaltou o tanto o folclore nordestino quanto a natureza e a produção artística da região. No passado, o lugar foi considerado território sagrado, antiga morada dos índios Camará. A festa aconteceu ao longo da tarde e noite do último sábado (9) e a madrugada do domingo (10) e tudo o que foi prometido para as atrações, musical ou extra-musical, foi executada com uma qualidade surpreendentemente positiva.

As atrações foram divididas nos palcos chamados “Devassa”, “Naná” e “Pitú”. Os dois primeiros palcos, estruturas de grande porte, receberam artistas maiores ainda, como , Ave Sangria e Cordel do Fogo Encantado, e nomes mais recentes que vêm ganhando cada vez mais destaque, como Jaloo, Carne Doce e Ana Frango Elétrico. O palco Pitú, que se encontrava tímido na metade do caminho entre o Naná e Devassa, por sua vez, projetou o som de bandas menores em seguidores, mas tão potentes quanto as que se apresentaram nos palcos principais. Entre as atrações estavam Sereia Problema, Torre, Kalouv, Vieira e Luísa e os Alquimistas.

O cantor paraense Jaloo subiu ao palco Naná, uma homenagem ao percussionista Naná Vasconcelos, no fim da tarde e cantou os seus maiores hits como “Say goodbye” e “Cira, Regina e Nana”. Ele recebeu a MC Tha, que levou os fãs ao delírio com a música “Valente”.

O palco Devassa, por sua vez, durante a tarde, recebeu os shows de Escurinho, Marrakesh e a experiência sensorial de Flora Bitancourt. Em seguida, de apenas 21 anos, Ana Frango Elétrico levou seu álbum de estreia, “Mormaço Queima”. Ela define seu estilo como bossa-pop-rock decadente com pinceladas de punk. O destaque foi a participação da cantora , queridinha da cena indie nacional. A pernambucana levou os presentes à loucura com seus hits “Bédi Beat” e “Bixinho”.

Logo em seguida, o palco Naná recebeu o rock psicodélico pernambucano da banda Ave Sangria. Confira aqui matéria especial sobre a apresentação.

A programação seguiu, desta vez no palco Devassa, com Carne Doce. A vocalista Salma Jô abençoou os ouvidos de todos que compareceram. Com uma voz icônica e uma presença marcante, ela trouxe o repertório de Tônus, terceiro álbum da banda goiana. “Já não sou mais gostosa Você goza triste em mim / Acho que é algo que é real / Eu cato as sobras / Dos teus sinais / Eu sou a sobra”, versos que abriram o show com a canção “Comida Amarga”. “É melancólico, mas aponta pra um caminho de consciência e força ante os baques da vida”, aponta Salma, em entrevista à Revista O Grito! Do começo ao fim, a artista abusa da sensualidade com efeito da luz negra pelo seu corpo vestido pela peça de roupa branca. Foi um show pra lá de sensual.

Baco Exu do Blues trouxe o Bluesman ao Recife.

No mesmo palco, Dadá Boladão levou o -funk e o dos malocas. O artista é um dos ícones do ritmo pernambucano, que movimenta a economia cultural nas periferias do Grande Recife. Dadá botou todo mundo pra dançar com sucessos como “De Ladin” e “Cobertor”. Ao lado do MC Troinha, MC Tocha, MC Metal e Sheldon, Dadá Boladão representa o brega-funk recifense, uma das mutações que surgiram das hibridizações do funk ao longo dos últimos anos.

Duas apresentações que prometiam muito, e com certeza não decepcionaram, foram os shows do rapper Baco Exú do Blues e Cordel do Fogo Encantado. Cada atração se apresentou em um dos palcos principais, e tocaram em horários diferentes, sem deixar o público perder uma delas, como ocorreu na edição 2018 do GTR, quando as bandas Francisco, El Hombre e Letrux, por exemplo, acabaram tocando simultaneamente, deixando o público dividido. Ponto positivo para a organização do evento, que registou poucos atrasos este ano.

Bastante aguardado, com canções envolventes, Cordel levou o lirismo e a teatralidade ao palco Naná Viagem ao Coração do Sol, trabalho lançado em 2018, que marcou o retorno do grupo de Arcoverde. “O sonho acabou / E só assim saímos do fundo da terra em direção ao Sol / O mundo agora é esse: Precisamos falar com a filha do vento / A que chamam / Liberdade“, declamou o vocalista Lirinha. Com se fosse um ritual, começou houve precipitação no final do show, muito celebrada pelo público, com a música “Chover (ou Invocação Para um Dia Líquido)”.

Pela primeira vez em Pernambuco com Bluesman, um dos discos mais elogiados de 2018, Baco contagiou a plateia com seu carisma. O rapper conseguiu fazer um dos shows mais eletrizantes em relação à correspondência com os presentes, que estavam ansiosos pela sua presença. Ele se recuperou da edição do ano passado do evento, quando estava sem voz. Junto às batidas de trap, a apresentação animou todo mundo que fez questão de ficar até o último minuto.

A carioca MC Carol foi a responsável por encerrar a festa. Ela agitou Fazenda Bem-Te-Vi com as músicas “100% Feminista”, “Jorginho Me Empresta a 12” e “Delação Premiada”.

No início do festival, quando ainda havia pouca gente, não houve reclamações em relação ao Expresso Treloso, transporte oferecido pelo evento. A ideia era que os ônibus saíssem a cada meia hora dos shoppings Tacaruna, Plaza e Recife. Na volta para casa houve grandes filas e foi preciso ter paciência. Taxistas e motoristas de serviços de transporte via aplicativo também marcavam presença.

O evento contou com bares e pontos de venda de copos retornáveis próximos de cada palco e os food trucks não ficaram tão lotados. No geral, o Guaiamum Treloso Rural 2019 ofertou shows de boa qualidade e também boa estrutura para o porte que atingiu.

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