Foto: Divulgação.

Heloísa Marques e a arte como cartas de amor

Natural do Sertão do Pajeú e radicada no Recife, o trabalho da artista funciona como uma poesia visual que une bordados e colagens

A arte de criar novos significados às imagens através de colagens é antiga e se fez presente em movimentos culturais responsáveis por gigantescas mudanças no mundo artístico, tal qual o cubismo e o surrealismo. O bordado também se apresenta no mundo da arte há bastante tempo e o que antes era considerado algo muito mais ligado à necessidade, passou a ser visto como um adereço de beleza e também de possibilidades. 

Para Heloísa Marques, artista de 30 anos, nascida em Itapetim, no Sertão de Pajeú, Pernambuco, as colagens e bordados se entrelaçam nas composições do que ela gosta de chamar de poemas visuais. 

As obras produzidas por essa artista começaram com sua intuição na hora de fazer colagens quando ainda era uma criança, como uma brincadeira — e mais tarde, na adolescência, como expressão de identidade em cadernos e até na porta de seu quarto. 

“Comecei a fazer colagens sem saber que isso era um tipo de técnica, eu não tinha noção, só gostava de compor as imagens. Fui ficando mais velha e fazia isso esporadicamente, mas ainda sem pensar na colagem como construção e ressignificação de imagens. Era muito mais um hobby, me dava uma sensação boa”, contou Heloísa. 

Já a sua história com os bordados surgiu de uma maneira diferente. De acordo com Heloísa, sua mãe era uma grande conhecedora das artes manuais, fazia tricô, crochê e costurava, mas afirmava que o bordado era difícil demais e por isso não sabia. As artes citadas são muitas vezes vistas pela sociedade como uma expressão pequena e sem grande valor, o que vem das ideologias machistas que as mulheres sempre enfrentaram durante a história da humanidade. 

Como poderia ser arte, afinal, algo produzido quase que exclusivamente por mulheres? Heloísa observa essa realidade da minimização do bordado como expressão artística ao percebê-la como um tipo de atividade que era constantemente produzida dentro do lar. “Essa era uma arte muito usada para domesticar a mulher, para mantê-la no perímetro da casa, para enfeitar a casa e aquela mulher ser tida como uma boa esposa. Minha mãe tinha isso tudo muito introjetado nela e eu peguei um pouco disso para mim. Eu fui criada por essa mãe que é uma artista manual, mas que nunca se viu como artista, isso era algo que eu também absorvia”, contou. 

Heloísa segurando um dos seus quadros: um outro olhar para o bordado. (Divulgação)

Marques vivia a sua arte antes de realmente viver dela e foi com a entrada na faculdade de arquitetura e urbanismo que começou a pensar em como manter o espírito criativo de criança vivo — os bordados postergados até então. 

“Entrei na graduação de arquitetura e comecei a ter acesso de forma mais consciente à arte, sua história, processos criativos, as correntes artísticas, as colagens surrealistas…percebi que eu gostava muito disso e então comecei a resgatar aquela coisa da minha infância”, explicou. Ainda de forma contemplativa, Marques passava a enxergar a colagem com olhos mais treinados. Ao terminar seu curso, conseguiu um emprego que a fez aprender a usar ferramentas do photoshop e uma nova fase se instaurou: a de criar colagens digitais. 

Vou pegar essa arte feminina, meio domesticadora até, para falar o que eu quero, tocar em pontos nostálgicos mas também em pontos sensíveis e políticos.

“Eu fazia arte como eu fazia um projeto: ia atrás de um conceito, buscava referências na música e na literatura, então eu comecei a entender que eram poemas visuais. Mas eram colagens inteiramente digitais, coloridas e feitas muito como um hobby. Se alguém falasse que eu era uma artista eu pensava ‘não, pelo amor de Deus!’”. 

Dessa maneira, sem a pretensão de ser nomeada como tal, Heloísa era uma artista que transpassa em suas obras as delicadezas de ser humano tão quanto as suas ideologias fortes e sempre vivas. 

Marques contou a Revista O Grito! que uma culminância de motivos a faziam acreditar que o seu trabalho não podia ser chamado de arte: A insegurança em acreditar que para ser artista ela ainda precisaria estudar e aprender muito mais e também porque existe um estigma relacionado às colagens, onde muitos creem que, por não ser um fazer de técnicas não tão minuciosas como a pintura, por exemplo, não pode ser considerado arte. 

Um ano antes da pandemia do coronavírus começar, contudo, a vida de Heloísa passou por uma grande transformação quando ela saiu do emprego em arquitetura e passou a se dedicar inteiramente à arte. 

A obra de Marques celebra a carta como uma importante memória tátil. (Divulgação).

“Quando criança eu fazia todas as minhas colagens com as mãos, mas depois que eu comecei a fazer as digitais, eu fiquei travada com o manual. Então quando saí do trabalho, eu pensei em começar a explorar mais o manual para ver no que dá. Eu gostava do digital porque você não perde uma imagem, tem acesso a um acervo muito maior, mas eu fiz um curso de ilustração que é muito manual e embora seja de ilustração, a base dele é colagem, mas isso me fez voltar a ter um contato com manual”, explicou. 

Um pai de uma de suas colegas, artista plástico, lhe entregou cerca de setenta revistas dos anos 1950 como um presente e, para somar ao grande acervo, Marques descobriu um baú de tesouro guardado nas coisas antigas de seu sogro: uma coleção gigantesca de revistas fotográficas dos anos 1970, 80 e 90. 

“É um material muito delicado, e eu não sabia muito bem o que fazer com ele porque as imagens eram muito datadas e não pareciam o Brasil. Também havia coisas muito racistas. Eu não sabia muito bem o que fazer com tudo aquilo e eu sentia que não estava no momento certo. Eu sou uma pessoa muito prática, então preferia ficar no digital. Até que eu viajei para a Bahia e achei uma coleção enorme de revistas de fotografia, além de várias cartas antigas do meu sogro para a minha sogra”.

As cartas de amor trocadas entre os pais de seu namorado acenderam em si as lembranças das correspondências pelos seus pais. Juntando todos os escritos românticos em sua mente, Heloísa passou a se debruçar pelo processo de escrever uma carta. 

O tempo que a pessoa leva para escrever; o tempo que ela leva para ir de um lugar ao outro; o tempo para o destinatário, ler e responder; o tempo que a resposta leva para voltar às mãos do remetente. 

Mais uma da série de bordados. (Divulgação).

“Eu comecei a pensar no tempo de todo esse caminho, pensar na grafia das cartas… era tudo muito bonito. Fazia muito tempo que eu não recebia uma carta, passei a pensar em como eu e meus amigos estávamos perdendo essa memória tátil”, explicou. 

Decidiu que o bordado seria a melhor forma de realizar suas artes, subvertendo a técnica e mostrando o grande valor das artes têxteis. Foi quando surgiu a ideia de produzir sua colagem como se fosse uma carta. Daquelas que leva horas para pensar, que é escrita com o coração na boca e quer transpor em palavras todo o amor guardado na alma. As colagens bordadas de Heloísa Marques são capazes disso. 

“Vou pegar essa arte feminina, meio domesticadora até, para falar o que eu quero, tocar em pontos nostálgicos mas também em pontos sensíveis e políticos. Meus trabalhos sempre tiveram mulheres como personagens centrais e isso seguiu. O bordado junta tudo. À primeira vista ele é algo mais delicado, mas vou tentando romper com isso através da mensagem, tendo a palavra como um importante elemento de criação, não só a imagem. Eu sou muito da música, da literatura, é muito quem eu sou”, disse a artista. 

Celebrando as cartas como importante memória tátil através de uma arte capaz de unir o bordado e das colagens, as produções de arte de Heloísa rapidamente tomaram forma e igualmente rápido, novas oportunidades se abriram. 

Teve seu trabalho vinculado em diversas mídias do Brasil e do mundo, participou de férias e viu sua arte despontar para o mundo no meio de uma pandemia global. 

“Eu senti que essa arte estava me salvando de algumas coisas, inclusive de uma vulnerabilidade financeira porque eu estava desempregada e isso passou a ser o meu trabalho e eu passei a ganhar bem com ele, mas também sobre acontecer essa identificação das pessoas com a minha arte, que eu nunca achei que iria acontecer. Nesta pandemia muita gente perdeu o emprego ou precisou mudar a rotina de trabalho, passou por momentos muito difíceis, mas para mim não, eu tive sorte. Para mim, profissionalmente, foi muito próspero e só agora eu estou passando por algumas crises, querendo mudar algumas coisas, até porque eu acho que produzi muito durante esse tempo e isso satura um pouco”. 

As colagens bordadas de Marques são um reflexo de quem ela é como pessoa, dos ideias que ela acredita, então em suas artes, é possível encontrar política, questões de gênero, reivindicação territorial. O vazio não é uma opção.

“Muita gente faz o que eu faço, muita gente faz colagem com bordado, usa linha vermelha. Eu ficava me perguntando porque alguns trabalhos não tem a repercussão que o meu em e acho que bate nesse ponto político, de sair do delicado e quebrar isso de alguma forma”. 

Marques não limita sua arte e quando perguntada se a dor coletiva de um momento como este se projeta em sua arte, ela explica que suas criações parte de um otimismo sentimental. 

“Eu acho que tem uma coisa que me inquieta que não é a dor, mas que me ajuda a produzir. As coisas não surgem do nada, é realmente como se eu estivesse projetando uma casa, uma ideia muito primária do que eu quero, um sentimento, uma frase, algo que uma pessoa me diga. É assim que surge, acho que a dor pode ajudar pela o que ela traz: pela revolta, pelo vazio que precisa ser preenchido, mas é outra coisa que me move”. 

“Não é um trabalho de dor, são cartas. É como se eu estivesse escrevendo cartas que outras pessoas estão lendo, mas é tudo muito íntimo e ao mesmo tempo eu quero que seja tudo muito público”, completa. 

A arte de Heloísa soam como cartas ao mesmo tempo íntimas e públicas. (Divulgação)

Uma de suas artes surgiu com uma linda história de amizade de uma tia, outra ao escutar uma música que gosta muito. Heloísa passa a impressão de ser uma artista de sensações e sentimentos. De colocar para fora o que a alma canta de diversas formas diferentes. 

Uma artista que valoriza a mutabilidade das suas formas de produzir arte. Ela diz ter vontade de pintar e de experimentar coisas novas, deixando bem claro que “É mais sobre o que eu quero dizer, sobre o que precisa sair, do que a técnica que eu estou usando. O que me move vai seguir sendo igual. Eu achei na arte, um lugar”. 

Heloísa agora percebe que sempre foi uma artista. Deseja ir mais longe e continuar experimentando na arte uma forma de comunicar o que quer. A maioria de suas artes são vendidas para estados do sul e sudeste e para fora do Brasil, mas adoraria, como mulher nordestina, que seu trabalho fosse mais consumido por aqui; quer viajar com o seu trabalho; tentar editais públicos de arte para se dedicar a algo maior; aprender técnicas novas, se dedicar a pintura.

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