Um papo com a jornalista e quadrinista Gabriela Güllich sobre o projeto que aborda histórias do sertão e do Rio São Francisco (e você pode apoiar!)

Mais do que carregar uma importância econômica histórica, o é também repositório do imaginário do sertão. O rio é referência cotidiana para milhões de pessoas e está presente em histórias, lendas e obras de arte ao longo de séculos. A reportagem em quadrinhos de e o fotojornalista trazem histórias reais do Velho Chico em uma linguagem inovadora que une jornalismo, HQ e fotografia.

De Belém do São Francisco, cidade pernambucana banhada pelo Velho Chico, cruzando todo o estado de Pernambuco e chegando a Monteiro, na Paraíba, a dupla percorreu mais de 1000 quilômetros durante mais de 15 dias para retratar de maneira aprofundada todas as contradições, histórias e perspectivas envolvendo o São Francisco e as populações de seu entorno. O projeto aborda três aspectos: água, seca e obra, temas que são um tripé essencial para compreender a importância que o rio tem para o Nordeste.

A iniciativa surgiu através da vontade de unir a narrativa do jornalismo em quadrinhos com o fotojornalismo, além de abordar histórias sobre uma das principais obras do país.

O projeto conta com o apoio do financiamento coletivo através da plataforma Catarse para ser impresso. Os apoiadores podem ganhar, além do livro impresso, uma série de brindes como prints, marcadores de página, desenhos originais, páginas originais do livro, zine e adesivos. A campanha fica disponível até 09/11.

Batemos um papo com Gabriela Güllich sobre a produção da HQ, a importância do São Francisco hoje, política e mídia.

Como surgiu a ideia de fazer um quadrinho com histórias do Rio São Francisco? Qual sua relação com esse tema?
Esse projeto é uma parceria com o fotojornalista João Velozo, nascido e criado em Pernambuco. Nós somos amigos há alguns anos e já havíamos trabalhado juntos em um modelo mais convencional (foto dele e texto meu), para a VICE Brasil e para a Deutsche Welle. O João sempre foi apaixonado por quadrinhos e tem uma ligação muito forte com essa narrativa, e eu já vinha guiando minha pesquisa acadêmica na graduação de Jornalismo nessa área de jornalismo em quadrinhos. Em 2017 (por aí, não lembro a data exata), o João deu a ideia de juntar meus desenhos com a fotografia dele, e a Transposição do São Francisco foi o tema escolhido tanto pela proporção que a obra tomou a nível nacional, quanto pela importância do Rio para a região. O ano de 2018 foi bem corrido tanto pra mim quanto pra ele, tive lançamento de outro quadrinho que estava produzindo então resolvemos deixar a viagem para 2019. No final de 2018 fizemos todo o planejamento, escolhendo a cidade que visitaríamos e quais os temas seriam abordados – e aí decidimos que o livro não seria só sobre a Transposição e dividimos então em três capítulos: água, seca e obra. No fim de janeiro/início de fevereiro de 2019 fizemos a viagem de produção e ao longo do ano fomos montando o livro.

O Brasil vive hoje uma boa fase do jornalismo em quadrinhos, mas essa área é escassa de publicações não só aqui, mas no mundo todo. É legal ver uma HQ com essa proposta. O que acha de se aventurar nessa área? Quais os desafios?
Eu me apaixonei pelo formato do JHQ já na metade da graduação em Jornalismo – que foi quando comecei a pesquisar o tema. Eu desenho desde criança e sempre quis ser jornalista, mas não havia pensado em usar o desenho de forma profissional até descobrir essa vertente. Acho muito interessante as possibilidades visuais que o desenho sequenciado pode trazer pra uma narrativa, tanto em questão de movimentação quanto de mudança de perspectiva. Os desafios estão mais ligados à recepção do público no geral que ainda tem uma ideia enraizada de que quadrinhos são um produto infantil (e aqui entra a questão do consumo mais voltado para HQs de super-heróis, principalmente do nicho norte-americano), quando na verdade os quadrinhos são uma plataforma de narrativa. A linguagem ilustrada pode abordar tanto histórias ficcionais quanto obras que relatam vivências reais, é apenas mais uma maneira de se abordar um relato.

A produção da reportagem envolveu mais de 1000km e 15 dias de estrada. Em que momento vocês identificaram que um quadrinho seria a melhor maneira de contar essa história do Velho Chico?
O projeto foi pensado como livro-reportagem em quadrinhos e fotografia desde o princípio, o ponto de partida foi justamente unir meu desenho com a fotografia do João. Durante esse processo, elaboramos um diário de viagem no Medium com rascunhos de histórias de personagens e fotografia, que nos ajudou tanto a montar a estrutura do livro depois quanto trouxe o público pra dentro da experiência de produção da reportagem.

O que de mais inusitado vocês descobriram na produção da reportagem que desconstruiu uma ideia pré-concebida que tinha do início?
Eu (Gabriela) tinha uma visão bastante idealizada da obra da Transposição, e chegando lá, tanto a partir dos relatos quanto do que nós vimos nos canais, acabei percebendo uma série de outras questões que envolvem a obra e que eu não havia notado em outras matérias e conteúdos que havia lido.

Como foi trabalhar com a fotografia aplicada ao quadrinho? Temos muitos exemplos de autores que trabalham com o fotojornalismo nas HQs, com resultados bem diferentes (Palestina, de Joe Sacco, Valsa com Bashir, O Fotógrafo etc). No caso dessa HQ, qual o papel que a fotografia assume na narrativa?
Muita gente acredita que uma foto em meio à uma narrativa ilustrada serve como “comprovação” do ocorrido, mas não é com esse aspecto que a gente trabalha. A fotografia em São Francisco incorpora uma ferramenta visual que também traz sequência à narração, mesclando ora misturada na mesma página que os desenhos, ora em uma página sozinha dando destaque ao olhar daquele momento exato.

Que autores de jornalismo em quadrinhos vocês curtem? E quais inspiraram vocês para esse trabalho?
Quando fiz essa pergunta pro João, ele respondeu “Marjane Satrapi, Gabriela Güllich, Art Spiegelman e Zerocalcare” hahaha. Eu também gosto muito da Satrapi e do Spiegelman, e citaria também o trabalho da Sarah Glidden, Susie Cagle, Lauren Weinstein e Augusto Paim. A nível nacional que eu tenho visto um trabalho recorrente tem a Carol Ito, o Alexandre De Maio e o Pablito Aguiar.

Temas como seca e água sempre fizeram parte do imaginário do Nordeste e foram tema de muitos conteúdos ficcionais sobre a região. Que tipo de abordagem vocês tentaram dar a esses assuntos na HQ?
Nós tentamos sair um pouco daquela estrutura (muito ligada às reportagens de telejornalismo) que é: começar mostrando a terra rachada, sobe “A Morte do Vaqueiro” tocando no fundo e tratando a seca como algo inesperado. A seca é um fenômeno natural da região, o que precisa ser feito é uma adaptação e uma gestão que se preocupe em contornar certos problemas. A gente se preocupou em deixar que as pessoas que convivem com isso narrassem o que acontece, a história da seca no Rio Pajeú (um dos assuntos tratados no livro) é contada por um cidadão que tem contato direto com o rio. Não há alguém melhor para narrar isso do que as próprias pessoas que vivenciam essa experiência, então buscamos dar o foco da narrativa sempre pela voz do personagem.

Na opinião de vocês, o que esse livro pode contribuir para o debate sobre a importância do Rio São Francisco para o Brasil?

Em todo momento do livro nós estamos mostrando as mais variadas capacidades do rio: renda através da pesca e do turismo, água para a população, geração de energia etc. Esperamos que não só quem leia adquira certa consciência em relação às diversas funções que um rio desse porte tem, como também entenda que todo uso gera um impacto – positivo ou não, e que todo cuidado é pouco quando tratamos de algo que interfere diretamente na vida de uma população tão grande.

mockups-design.com

Sem mais artigos