HQ “História Real de Crime e Poesia”: o poder libertário da arte

A partir de uma história real, o multiartista David L. Carlson e o desenhista Landis Blair fazem um dos melhores quadrinhos do ano

HQ “História Real de Crime e Poesia”: o poder libertário da arte

A partir de uma história real, o multiartista David L. Carlson e o desenhista Landis Blair fazem um dos melhores quadrinhos do ano

HQ “História Real de Crime e Poesia”: o poder libertário da arte
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História Real de Crime e Poesia
David L. Carlson e Landis Blair
Darkside Books, 457 páginas, R$ 99,90, 2022. Tradução de Bruno Dorigatti e Paulo Raviere.

Junte o Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri, o mito da caverna de Platão, um dos crimes mais comentados do século 20 na cidade de Chicago e a história real de um homem cego preso em uma cela de apenas nove metros quadrados e você tem um dos romances gráficos mais incríveis dos quadrinhos contemporâneos. História Real de Crime e Poesia, escrito pelo multiartista David L. Carlson e ilustrado pelo desenhista Landis Blair, foi lançado no Brasil pela Darkside e são 464 páginas garantidas de puro deleite. 

A história poderia ter se tornado um romance tradicional ou um filme, contudo duvido que causaria o mesmo impacto. A inusitada e surpreendente vida de um homem aparentemente comum chamado Matt Rizzo, pelas mãos de Carlson e Blair, encontrou na linguagem dos quadrinhos a sua melhor tradução. O prêmio Fauve d’Or do Festival de Angoulême de 2021 não me deixa mentir. A modernidade da obra com sua narrativa densa, mas finamente construída e acompanhada por desenhos envolventes, encantou os jurados. Inicialmente, Carlson pensava em realizar um projeto multimídia, mas enquanto escrevia o roteiro e pensava num storyboard percebeu que um romance gráfico seria o formato mais adequado para o que desejava mostrar.

A descoberta do livro Inferno, do poema épico A Divina Comédia mudou a vida de Matt Rizzo.

O ponto de partida de Crime e Poesia foi uma conversa que Carlson teve com seu amigo Charlie Rizzo, quando este lhe contou a história de seu pai. Após a morte da mãe, em 1959, Charlie, aos 11 anos, foi morar em Chicago com o pai cego. Matt Rizzo ganhava a vida vendendo seguros e morava sozinho em um pequeno apartamento cercado de livros e com uma máquina de escrever. Aos poucos o jovem foi aprendendo como conviver com um homem que dizia ter perdido a visão num acidente de caça. Uma forte relação se estabeleceu entre eles até que um dia Charlie se envolveu em problemas com a polícia. 

O episódio levou o pai a contar ao filho sua verdadeira história, o envolvimento com mafiosos, o motivo real de sua cegueira e como ele foi parar na prisão de Stateville, onde estabeleceu uma complexa amizade com Nathan Leopold com quem compartilhou a mesma cela enquanto esteve preso. Rico e culto, Leopold era tristemente célebre por ter assassinado, junto com seu companheiro Richard Loeb, um adolescente de 14 anos para provar que poderiam cometer um crime perfeito. O assassinato foi um dos mais comentados nos Estados Unidos na década de 1920 e inspiração para o filme Festim Diabólico (1948), de Alfred Hitchcock. 

A convivência com Leopold mudou o rumo da existência de Matt. Com ele, o jovem cego descobriu a poesia e a força da literatura, sobretudo, pela leitura em braile do primeiro livro – Inferno – do poema épico A Divina Comédia. Matt aprendeu também a usar a imaginação ao comparar as estações do inferno dantesco com a sua vida na prisão estadual de segurança máxima de Stateville, no estado de Illinois, famosa por ter sido construída com um panóptico, uma torre central com visão de 360 graus capaz de vigiar todas as celas dispostas ao seu redor.

Para escrever Crime e Poesia, Carlson passou cerca de seis meses conversando com Charlie. Fez então uma enorme pesquisa documental e leu os escritos de Matt Rizzo, cujas obras embora nunca tenham sido editadas, tem os originais depositados na Biblioteca Newberry, de Chicago. O roteirista revela que quanto mais ele mergulhava no material levantado, mais achava ser impossível escrever algo capaz de fazer os leitores verem o mundo através do olhar de um personagem cego. Foi então que intuiu a possibilidade de perceber o seu universo se projetando no seu imaginário a partir da noção de “verdade da imaginação” como defendia o poeta John Keats.

David Carlson e Landis Blair nunca tinham trabalhado juntos e levaram quatro anos para concluir Crime e Poesia. (Divulgação)

Carlson e Landis Blair nunca tinham trabalhado juntos e nem se aventurado no campo do romance gráfico, mas a sintonia entre os dois fluiu com tranquilidade durante os quatro anos de colaboração. Concebida em preto e branco, Blair usou lápis, caneta e tinta de modo a valorizar o seu estilo de desenhos hachurados, alcançando, neste trabalho, uma grande força expressionista repleta de criações gráficas que reforçam o jogo de escuridão e luz e o clima sombrio sugerido pela narrativa. 

Além da trama centrada na relação entre pai e filho e na história dentro da história no flashback do período em que Matt esteve preso, Carlson introduziu passagens literárias e poéticas que podem parecer desnecessárias. No entanto, aos poucos percebemos o quanto esse recurso nos dá uma perspectiva interessante para o personagem central da história, servindo de pano fundo para um tema essencial que perpassa Crime e Poesia: a redenção.  Seja no sentido estrito ou figurado, Matt escapa não só da escuridão provocada pela cegueira, mas também, por meio da arte, liberta sua mente aprisionada para retomar a sua humanidade. Nos dias que correm é bom acreditar na capacidade libertária da poesia. 

A verdade da imaginação , noção criada pelo poeta John Keats guiou o roteiro concebido por Carlson. (Foto: Reprodução)

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