A artista visual soteropolitana Illi, Íldima Lima, radicada no Recife (Foto: Divulgação)

No dia da Consciência Negra, marca-se a necessidade de uma reparação histórica em um país ferido pelas memórias e reminiscências do racismo estrutural implementado pelo passado colonial nas Américas. Dia 20 de novembro é a data escolhida em menção ao dia da morte de Zumbi, um dos maiores líderes anti escravagistas e quilombolas do Brasil. A efeméride nos sugere, nacionalmente, reconhecer e valorizar as raízes culturais e históricas dos antepassados africanos e indica que ainda estamos longe de viver em uma sociedade igualitária. 

“Toda história da luta antirracista perpassa pela desconstrução de estereótipos relacionados ao cabelo crespo, apontado por tanto tempo como sujo, bagunçado, ruim”. É nesse ponto que a exposição Negras cabeças, da artista visual soteropolitana Illi, Íldima Lima, radicada no Recife, posiciona-se como instrumento de transformação. A mostra aborda a importância ancestral de penteados e adornos de cabeça como artifício de linguagem para grupos étnicos pode ser acessada através do Negras Cabeças Art. Podem ser vistas pinturas de mulheres das etnias Betsimisaraka, Mangbetu, Suri, Mursi, Mwila, Mbalantu, Fulani e Himba.

Para a filósofa, escritora e feminista negra Djamila Ribeiro, considerada uma das vozes mais relevantes da atualidade na área de direitos humanos, “o racismo estrutura todas as relações, não podemos falar de nenhum tema no Brasil sem falar de racismo”. De modo geral, aponta a autora, para o brasileiro médio, falta o entendimento da estrutura e também o entendimento de que todo mundo reproduz racismo.

Entrevista Marcelo D’Salete: “distância social entre brancos e negros no Brasil ainda é imensa”

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A ideia de representar mulheres negras, pertencentes a grupos de diferentes etnias do continente africano, surgiu no processo de estudo da artista para uma pintura que fez em junho de 2020, inspirada numa fotografia de uma mulher da etnia Betsimisaraka. O contato com a história e os elementos contidos naquelas imagens despertou o desejo de elaborar uma pesquisa visual sobre essa estética.  “Utilizar a gamificação como meio para visitar a exposição cria esse arco visual-ancestral, ou seja, estamos usando uma tecnologia contemporânea para contar histórias dos nossos ancestrais”, conta a baiana.

A exposição de Lima inova ao criar um ambiente de visitação imersivo em formato de game interativo, e tem como propósito estabelecer uma conexão visual-ancestral, partindo de referências e registros históricos de mulheres pertencentes a grupos étnicos que utilizavam penteados e adornos de cabeça para expressar aspectos pertinentes à sua cultura. Através da materialização dessas memórias, o objetivo é que o recurso digital estabeleça uma conexão com debates da sociedade atual. São cópias numeradas, assinadas e limitadas.

Em entrevista, a artista fala sobre os desafios à agenda de equidade racial e desconforto da branquitude com a mudança da sensibilidade e apropriação cultural. Confira:

A exposição se propõe a ser e interativa. Como se deu o processo de concepção desse trabalho?

No contexto que estamos vivendo, cenário pandêmico, sinto que é o formato mais seguro para todos os envolvidos. Nós, que produzimos e realizamos, os visitantes, que podem fazê-lo repetidas vezes de suas casas sem precisar se expor. Outro aspecto positivo é que por ser virtual não há limites físicos. Qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo com um computador e uma conexão de internet podem vivenciar a exposição. Acredito que essa liberdade e alcance são os maiores ganhos proporcionados pela virtualidade. 

Eu amei cada parte do processo. Fui eu quem desenhou o layout do game, dos três mundos que compõe a jornada da exposição. A trilha do visitante e a concepção de cada vila, fruto da pesquisa que fiz sobre as etnias, também foi tarefa minha. O posicionamento de cada elemento, a forma como o deslocamento se dá, tudo foi modelado por mim e executado pela Ops Games Studio, empresa responsável pela criação do game. Ainda que tivéssemos limitação do orçamento, conseguimos criar soluções que favoreceram o resultado final. Ficamos todos muito satisfeitos e contentes com o mundo que criamos.

A exposição é apresentada de forma inédita ao se utilizar da mecânica da gamificação. Por que você escolheu esse tipo de proposta?

Já fazia algum tempo que eu estava pensando como estabelecer um diálogo entre ancestralidade e afrofuturismo no meu trabalho e a exposição pareceu o momento perfeito uma vez que ao falar desses sistemas de comunicação não verbal e desses códigos visuais estamos falando de um processo de inovação e tecnologia, no sentido de criar soluções práticas para questões que eram importantes para aqueles grupos. Então acredito que utilizar a gamificação como meio para visitar a exposição cria esse arco visual-ancestral, ou seja, estamos usando uma tecnologia contemporânea para contar histórias dos nossos ancestrais. Por isso não bastava estruturar um espaço virtual com a mecânica da gamificação apenas, mas sim redesenhar um ambiente alinhado às informações da pesquisa que proporcionasse uma experiência sensorial ao visitante. Dispor a tecnologia a serviço desse resgate. Assim, para além da questão da racialidade e de gênero, temos também uma perspectiva informacional-educacional e tecnológica. 

Pintura de uma mulher da etnia Mangbetu, que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Como se deu a dinâmica de trabalho com a equipe? A pandemia e o isolamento social interferiram na execução do projeto?

A pressão do prazo foi atenuada pela confiança que tinha em meus parceiros de trabalho. Escolhi pessoas que já faziam parte da minha vida, profissionais muito competentes e com uma vontade gigante de tornar esse projeto possível. Isso foi fundamental para que o processo nesse aspecto fosse leve. A dinâmica entre nós fluiu muito bem, criando canais entre parceiros, inclusive. Minhas conversas com Filipe Castro, músico que compôs as trilhas, sempre eram divertidíssimas e muito produtivas. Havia uma sintonia que permitia deixar tudo às claras, sem vaidades, porque desde sempre havia o entendimento que toda proposição estava direcionada ao que era melhor para o projeto. Acredito que isso foi fundamental para que o processo de execução fosse assertivo e harmônico.

De que forma penteados e adornos de cabeça ajudam a contar a história do empoderamento das mulheres negras?

Considero que toda história da luta antirracista perpassa pela desconstrução de estereótipos relacionados ao cabelo crespo, apontado por tanto tempo como “sujo”, “bagunçado”, “ruim” e toda violência naturalizada por um sistema estruturalmente racista, fundamentado em premissas eurocêntricas que tinha como efeito a negação da beleza de negros e negras, promovendo o  distanciamento de suas origens.

Acredito que a mudança gradual de comportamento principalmente das mulheres negras é resultado de práticas afirmativas, posicionamento identitário e, principalmente, dentro do sistema capitalista que vivemos, mudança no comportamento de consumo. Nesse movimento, o cabelo se posiciona como matriz simbólica, uma presença materializada do discurso político a partir de uma perspectiva estética, a exemplo do Movimento Rastafari e o Black Power. O mergulho nessas etnias possibilita o reencontro com as nossas raízes, um alinhamento com o orgulho que essas mulheres experimentaram ao ostentar seus penteados carregados de beleza, significado e história. O elo que elas estabeleciam ao cuidar do cabelo umas das outras, as heranças perpetuadas através de gerações, o sentido de pertencimento a partir de um código visual escrito com seus cabelos, entre outros, são reproduzidos hoje com uma ainda tímida, mas crescente liberdade de assumir essa herança cultural, orgulhar-se dessa trilha que nos trouxe até onde estamos. A valorização da estética negra é um caminho de fortalecimento para derrubarmos de uma vez os muros do condicionamento do racismo.

A experiência gamificada (Foto: Divulgação)

E como você enxerga seu próprio cabelo hoje? Como foi sua trajetória capilar?

A minha transição capilar começou em 2018. Estava de tranças e quando tirei vi como meu cabelo natural estava se desenvolvendo e decidi naquele momento que não iria mais fazer alisamento. Não é um processo fácil. Durante minha infância e adolescência (décadas de 80/90) a publicidade, os meios de comunicação e as artes, seguiam propagando conteúdos visuais carregados de estereótipos racistas, sexistas e machistas. Assim, eu e tantas outras meninas negras, tivemos nossa construção identitária baseada, ainda que de forma inconsciente, na negação das características físicas que destoavam do padrão de beleza europeu.  Desvincular-se desses estigmas é um processo longo e precisa respeitar o tempo de cada indivíduo. No meu caso, são três anos até aqui e ainda é uma adaptação, porque o crescimento apesar de contínuo esbarra no tão temido fator encolhimento, característica dos fios com curvatura 4c. Até alguns anos eu nem fazia ideia dessas coisas, mas hoje faz parte da minha rotina.

A sensação é a de que estou no caminho que é certo para mim porque faz sentido para mim. Cada um tem sua história e forma de manifestar essa conexão e identidade. O cabelo tem sido protagonista nessa cena de empoderamento, mas acredito que toda e qualquer forma de estabelecer essa conexão e valorizar nossa cultura é válida, urgente e igualmente importante.

Estudo realizado nos Estados Unidos evidencia que os penteados naturais, como fartas cabeleiras afro, tranças ou rastas, criam dificuldades para conseguir uma entrevista de emprego, perpetuando a discriminação racial. Comente.

Acredito que é um estudo local que representa uma perspectiva global em se tratando de espaços que foram colonizados e receberam toda influência de uma narrativa branca e europeia. Muitos são os relatos de pessoas negras que sofreram discriminação por conta da aparência, deixando de alcançar uma colocação profissional adequada às suas competências. Entendo isso como mais uma forma de violência, uma vez que muitas pessoas tiveram que adotar uma estética não condizente com suas crenças e valores para sobreviver. Infelizmente o que se avalia nessas situações não são as habilidades e sim a adequação a esse referencial que por si compõe o sistema racista que vivemos, especialmente no Brasil.

Como você enxerga a falta de representatividade para mulheres negras em anúncios publicitários, na indústria cosmética e na mídia, em geral, por exemplo? Você tem alguma fonte de inspiração?

Atualmente, o cabelo crespo protagoniza um movimento de valorização da estética negra. A indústria dos cosméticos é uma das que mais crescem no mundo. Ajustar-se a acompanhar esse movimento de fortalecimento identitário das mulheres negras me parece um caminho natural e sem volta para esse mercado. É a resposta a uma demanda que só aumenta. Somos múltiplas, temos tonalidade de pele e tipo de pele diferentes, com necessidade de cuidados distintos. Com o cabelo acontece o mesmo. A corrida das grandes marcas pela nossa atenção gerou uma vasta oferta de produtos cada vez mais específicos. Esse movimento, acima de tudo, me faz pensar nas milhares de crianças e jovens negras que hoje veem sua imagem com orgulho, cuidando de seus crespinhos e cacheados, sem a violência do alisamento.  Uma geração que tem o poder de escolher quando em outros tempos a nós cabia apenas nos ajustarmos a um padrão que não nos valorizava. As lojas de cosméticos hoje posicionam esses produtos com destaque, sinalizando que somos um público forte e que merece essa atenção e respeito.

Pintura de mulher da etnia Betsimisaraka (Foto: Divulgação)

É importante quando vemos Iza, Djamila, Taís Araújo e outras mulheres negras associadas a campanhas de estética, mas acredito que ainda há muito espaço a ser ocupado principalmente quando falamos de outros segmentos. Apenas 12% das campanhas publicitárias registram presença de pessoas negras, deste percentual 4% mulheres, sendo que esse número está concentrado basicamente na indústria cosmética e governamentais. Quando falamos de campanhas de organizações financeiras ou anúncios de veículos, joias entre outros que pontuam um status social, a presença é quase nula. Isso é um grande problema ainda considerando nosso universo de 55% de pessoas negras no país.

Além do racismo, as mulheres negras carregam o estigma de ser um eterno objeto sexual, gostaria que falasse sobre isso.

Todas essas etiquetas de estereótipos são resultado do racismo estrutural. O processo de hipersexualização das mulheres negras foi fortalecido através de diferentes vias, como publicidade, cinema, artes plásticas e literatura, por exemplo. Essa concepção está atrelada ao projeto de supremacia branca para assegurar as relações de dominância e poder hegemônico. A  desumanização das pessoas negras, a categorização enquanto raça, posicionando-as como primitivas e inferiores serviu, inclusive, para justificar o processo de colonização. Reduzir um indivíduo negro à sua sexualidade animaliza sua existência, retira sua racionalidade e capacidade de administrar seus instintos e é exatamente essa condição que cria um espaço onde um é dominador e o outro é o dominado. Assim, a objetificação desses corpos negros resulta na criação desse imaginário massificado que remonta o racismo, do mesmo jeito que são perpetuados os estereótipos da negra raivosa e o negro violento, por exemplo. Essas adjetivações puramente racistas servem como mecanismo de controle para assegurar as desigualdades e continuar oprimindo pessoas não brancas e privilegiando a branquitude.

Na sua concepção, qual é o espaço da mulher negra no contexto atual no Brasil, em que as artes são rondadas pela sombra da censura, do racismo e do conservadorismo?

Acredito que ocupar os espaços que nos foram negados é a principal ferramenta de combate para as mulheres negras. Esse deslocamento se dá mediante algumas políticas favoráveis à diversidade e à inclusão, além daquelas que buscam uma reparação histórica. O fato dessa ampliação de perspectivas e presentificação em espaços de poder cria um ambiente favorável para a disseminação das vozes negras. Nem sempre essas pessoas têm letramento racial ou fazem uso de suas conquistas como plataformas de discussão de questões raciais, mas quando isso acontece essa voz ganha corpo e impacta positivamente outras mulheres negras. Não é uma luta isolada, mas é uma das formas contemporâneas de desfazer as grossas camadas do racismo estrutural. A Afrocentricidade pressupõe a participação ativa da comunidade negra, envolvida e engajada em posicionamentos e atitudes voltadas para desconstrução das relações coloniais e subversão dos sistemas. Acredito que a arte é uma ferramenta poderosa nesse combate.

No seu trabalho está tudo conectado? A ILLI Relações Públicas, especialista em Estudos Cinematográficos, artista visual e pesquisadora?

Sim, sem dúvida. Assim como a comunicação, a arte é uma forma de comunicar um pensamento, uma ideia, um sentimento. Como Relações Públicas faz parte das atribuições criar estratégias para o posicionamento positivo da marca e é um pouco disso o que eu faço com a illi. Especificamente meu propósito é reposicionar a imagem das mulheres negras nas artes visuais, criando imaginários afetivos e conectados com experiências positivas dessa existência feminina. Ao mesmo tempo, o cinema me possibilita criar cenários e estabelecer um diálogo com as pessoas, contando através de imagens, usando uma escrita visual para alcançar as pessoas. A pesquisa é o fundamento de tudo que faço. Ainda que o resultado não seja um tratado textual, ela pode ser lida nas entrelinhas do meu trabalho. A pintura e o cinema estão intimamente ligados não apenas por uma perspectiva estética, mas, principalmente, pela linguagem visual e a forma como a disposição dos elementos infere na composição e consequentemente na mensagem. É o cinema em essência, das narrativas imagéticas construídas pelas imagens em movimento sem a necessidade de impor uma oralidade explicativa. A pintura estabelece essa forma de contato também, porém através da estaticidade do movimento. Gosto de pensar que todo meu caminho, da comunicação à pintura passando pelo cinema, está costurado pela necessidade de transmitir uma mensagem via uma codificação pessoal que encontra eco em outras pessoas, por isso ressoa, vibra, vive.

Etnia Mbalantu (Foto: Divulgação)
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