Jairo Pereira discute racismo e resistência cotidiana no álbum visual Monocromático

Artista parte de uma reflexão sobre a cor marrom para compor um trabalho cheio de nuances que passeia pelo rap, soul e samba

Jairo Pereira discute racismo e resistência cotidiana no álbum visual Monocromático

Artista parte de uma reflexão sobre a cor marrom para compor um trabalho cheio de nuances que passeia pelo rap, soul e samba

Jairo Pereira discute racismo e resistência cotidiana no álbum visual Monocromático
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Jairo Pereira
Monocromático
Estúdio Medusa, 2022. Gênero: Pop, rap, MPB

Foi durante a pandemia que o músico Jairo Pereira, um dos fundadores do grupo Aláfia, intensificou as reflexões sobre racismo, privilégio de classe, violência, isolamento e perda. Mas tinha uma coisa que o provocava ainda mais nesses questionamentos: a cor marrom e como ela era percebida em nossa sociedade, nas mais diferentes áreas. E é esse o ponto de partida no álbum visual Monocromático, que acaba de chegar ao mundo, acompanhado de um show musical que foi apresentado no Sesc Belenzinho em São Paulo no último dia 20/08.

O recorte de Pereira para pensar conceitualmente este seu terceiro trabalho parte da cor de pele de homem negro, em suas mais diferentes nuances. “Tudo neste álbum, passa por todos estes lugares, a forma que amo, que luto, que trabalho, que brigo, que choro, que protesto”, diz, em apresentação do disco, por e-mail. “Tudo isso passa por minha alma e feito suor exala de minha pele marrom, nos tons que me compõem; socialmente, politicamente, sexualmente, afetivamente, geograficamente, filosoficamente”.

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O álbum visual surge na elaboração do projeto para o Proac 2021, em parceria com o Estúdio Medusa. A inspiração veio do projeto Colors Studio (mais especificamente na versão Colors Encore), em que artistas se apresentam em uma proposta mais intimista e minimalista. Em Monocromático, Pereira aparece em um estúdio de filmagem com fundo infinito, bem simples, com uma iluminação voltada apenas para a figura central exaltando o poder da ancestralidade nos adereços e na paleta de cores marrom, que aparece em diferentes tonalidades.

Na sonoridade, Jairo Pereira mostra a mesma versatilidade que vemos na conceituação visual da cor marrom: ele passeia com desenvoltura entre o rap, o samba, o pagode e a soul music. Há momentos em que as rimas são bem diretas e falam de um ponto de vista bem factual, preciso, como “Indústria do Medo”, com Dani Nega, em que cita a necropolítica e o presidente atual. O mesmo senso de urgência pode ser dito do interlúdio “Enquadro” e “Marrom” (com Negra Rosa), que abre o álbum.

Trabalho foi lançado como um álbum visual. (Foto: Prehto/Divulgação.)

Mas o disco ganha mais quando se propõe a ir mais fundo em questões sociais, a partir de um olhar mais amplo, como “Ô da Cor”, em que traz uma base eletrônica dialogando com uma pegada afrobeat. Ou mesmo “Xô Falá Procê”, com uma letra mais elíptica, com nuance e “Pra Relaxar”, uma dançante faixa que fala do cansaço que dá a necessidade de estar sempre pronto pro embate num país racista.

Monocromático é um ótimo cartão de visitas de Jairo Pereira, que já tinha se destacado no cenário musical com sua big band, Aláfia, que por sua vez já experimentava na música ao buscar inspiração na ancestralidade africana para compor sua proposta sonora. Pereira vai ainda mais fundo ao trazer o rap como base para um trabalho moderno que aposta na interseção com a black music, o soul e o samba.

Participaram da construção do álbum o DJ Will, a percussionista Thata Vieira, o guitarrista Dudu Tavares, o tecladista Fernando César e a cantora Marina Afares. O disco se soma à safra de alta inventividade que vive hoje a música pop brasileira independente e traz como diferencial um debate íntimo, porém universal, sobre a experiência da pessoa negra na sociedade brasileira.

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