Foto: Divulgação
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Não é nenhum exagero dizer que O Ato de Matar é um dos mais desagradáveis, indigestos e perturbadores filmes feitos nos últimos anos. Exibido no segundo dia do Janela de Cinema, é um dos mais impactantes longas de terror do ano, ainda que também possa ser encarado como um documentário. O que mais assusta é o quanto ele é real e contemporâneo. Todo o mal que aparece em tela ainda está à solta por aí.

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Dirigido por Joshua Oppenheimer, o filme é uma produção da Dinamarca e Noruega e mostra a ação de esquadrões da morte durante a ditadura da Indonésia nos anos 1960. Orgulhosos de seus feitos, esses antigos líderes aceitaram re-encenar todos as chacinas, torturas e assassinatos do período. Para isso, usaram diversos gêneros cinematográficos, como musicais, romance, ação e até faroeste e gângsters que serviram de inspiração para matanças de antigos chefes como Anwar Congo, um dos homens mais temidos da ditadura e que aparece como protagonista neste doc.

Anwar é um daqueles vilões que assustam por sua parcimônia, seu jeito manso de pessoa ordinária. Ele ajeita a prótese dos dentes, brinca com os netos. Ao mesmo tempo, conta com frieza e suprimindo qualquer arrependimento as mortes que causou e como orquestrou os assassinatos de comunistas e opositores do regime indonésio. Ao lado de outros colegas daquela época, ele reconstrói episódios utilizando descendentes daqueles que perseguiu. Em um dos momentos mais chocantes, crianças e mulheres idosas participam de uma grande tomada que mostra um vilarejo sendo queimado e todos os seus habitantes mortos. Com ajuda de cenários toscos usados para as encenações e as memórias dos algozes, o espectador tem material suficiente para imaginar tudo. E isso, por si só, já é incrivelmente angustiante.

O Ato de Matar está longe de ser um documentário convencional, tanto no formato quanto no argumento. Sua originalidade chega a colocar em xeque a ética do documentarista, figura que está sempre desafiando os limites da imparcialidade. Oppenheimer usou a insanidade de seus entrevistados como motor criativo para seu filme e os revelou como ninguém até então. Diferentemente de re-encenar outros períodos sangrentos, como o nazismo, esse documentário não lida com fantasmas, mas sim com personagens reais. Mais ainda: são verdadeiros e seguem impunes, vivendo vidas pacatas sem nenhuma perspectiva de irem a julgamento.

Neste sentido, o documentário pode ser entendido como uma denúncia. Mas há outras interpretações. Errol Morris, um dos maiores documentaristas de nosso tempo, que ao lado de Werner Herzog é um dos produtores executivos, diz que O Ato de Matar é uma obra de arte, o que libera Oppenheimer de qualquer discussão ética. Para ele, não seria o caso de pensar sobre qual o papel do diretor nessa suposta “recriação” do real, mas sim levar o espectador a se indagar, se questionar sobre aqueles fatos. Eduardo Escorel, documentarista brasileiro, se pergunta em seu blog sobre os acordos feitos entre Oppenheimer e seus entrevistados. Eles não teriam recebido salário, apenas uma diária modesta. “Não foram remunerados por quê, é o caso de perguntar. Se for verdade, além de manipulados, terão sido também explorados”, diz Escorel.

O mal no espelho
Oppenheimer, por vezes, parece trabalhar com o delírio em um nível coletivo, investigando o impacto daqueles tempos sangrentos no imaginários das pessoas. Um dos maiores grupos paramilitares da Indonésia, que teve participação crucial para as chacinas, ainda hoje segue em atividade. Em uma das cenas, o vice-presidente do país louva a história do grupo e mostra que o governo ainda mantém ligações estreitas com esses assassinos. Anwar Congo e outros são heróis nacionais chancelados pelo Estado. O final surpreendente do filme confronta esses homens com suas próprias atrocidades. Oppenheimer usa a loucura como um atalho para encontrar algum respingo de moralidade na mente dos personagens. Anwar encena uma vítima morta por um enforcamento e começa a passar mal realizando o que seus torturados teriam sentido.

O diretor tenta provar que até a representação do mal como Anwar Congo pode reencontrar a humanidade quando se confronta com seus próprios atos.

O longa vem fazendo sucesso em festivais desde o final do ano passado. Causou polêmica em Berlim, onde venceu prêmio do público e foi aplaudido no último Festival do Rio. Ganha reprise no Janela de Cinema no Recife nesta segunda (14) às 15h30, no Cinema da Fundação. Ainda não há previsão de estreia em circuito comercial.

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