O terceiro dia do Janela, por Vitor Jucá/Divulgação.

O terceiro dia do Janela, por Vitor Jucá/Divulgação.

O segundo programa da mostra competitiva de curtas do 9º do Recife acendeu, mais uma vez, no público presente no cinema São Luiz, na tarde desta segunda-feira, o espírito de indignação e revolta contra os desmandos das forças políticas conservadoras brasileiras e dos seus braços armados, no caso, a Polícia Militar de Minas Gerais. O filme Na missão, com Kadu, sobre a repressão ao movimento de uma ocupação na cidade de Belo Horizonte, causou uma inesperada catarse na plateia que externou sua reação com choro copioso de alguns presentes e palavras de ordem ao final da sessão.

Leia Mais
Curtas destacam mudanças no cotidiano
Um olhar poético do Cinema Novo
Debate político abre o Janela
A programação completa

Na Missão, com Kadu é um documentário realizado pelo pernambucano Pedro Maia de Brito e o mineiro Aiano Bemfica que junta imagens de depoimentos colhidas pelos cineastas com imagens feitas por um celular pelo líder comunitário Ricardo de Freitas Miranda, o Kadu, durante uma passeata realizada pelos moradores da Ocupação Vitória, na Izidora, região periférica de Belo Horizonte. Os manifestantes se dirigiam ao Centro Administrativo do governo mineiro em junho de 2015 e foram reprimidos de forma brutal, o que resultou na prisão de cerca de cem pessoas e ferimentos em várias delas por balas de borracha, incluindo crianças, atingidas por bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta.

O filme é uma denuncia contundente contra a ação da Polícia Militar e tem sido usado pelos ocupantes para tentar sensibilizar a Justiça mineira dos arbítrios cometidos para definir o direito de uso da área invadida. Existem sérias dúvidas quanto à legalidade de posse da mesma pelos que dizem ser seus proprietários e questiona-se também o uso da violência contra uma reivindicação legítima. O caso torna-se ainda mais dramático quando no final do filme tomamos conhecimento que o líder comunitário Kadu foi assassinado numa emboscada quatro meses depois da manifestação.

O curta "Na Missão, Com Kadu". (Divulgação).

O curta “Na Missão, Com Kadu”. (Divulgação).

A situação política também é o mote, embora aparecendo de forma bem mais sutil, no curta de Gustavo Vinagre Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos. O filme gira em torno de um grupo de quatro pessoas, entre as quais está Tan, um rapaz que, no decorrer da história, o espectador descobre que ele precisa chorar. Enquanto fora do apartamento onde eles moram há sinais de movimentação em torno de uma manifestação política, os quatro conversam sobre assuntos prosaicos e que, inevitavelmente, acabam se voltando para a questão do choro de Tan. Segundo Vinagre, que realizou, entre outros filmes, o média Nova Dubai, nesse seu novo trabalho ele quis retratar a desorientação e perplexidade de uma parcela da classe média diante dos acontecimentos recentes na vida política do país. O curta se insere num certo tipo de filme muito em voga hoje, onde pessoas discutem coisas aparentemente anódinas e que só aos poucos apreende-se o sentido delas.

Outro curta bastante ovacionado foi o pernambucano , realizado por Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, um documentário musical sobre o fenômeno da música brega. A dupla toma como gancho para trabalhar o tema, a produção de videoclipes por bandas e MCs que na periferia do Recife movimenta a vida de diversas pessoas que sonham em se tornar estrelas. Bárbara e Benjamin, no entanto, ressignificam a linguagem musical do brega e tentam a partir desse rearranjo mostrar os elementos que motivam os artistas a cantar músicas com letras sobre amor, traição, desejo sexual, etc. O filme tem uma bem cuidada apresentação visual e integra uma instalação que está exposta atualmente na Bienal de São Paulo. Todavia, a exibição fora do contexto da instalação talvez pedisse que a edição do filme fosse repensada. Os longos blackouts na passagem de uma sequência para outra acabam interferindo na fruição e na articulação das questões que o documentário aparentemente pretende demonstrar.

O programa teve ainda um simpático curta carioca dirigido por Pedro Freire e rodado em Cuba. Fruto de um curso na Escola de Cinema de Cuba ministrado pelo cineasta Abbas Kiarostami, Se por Acaso é realizado seguindo o método do diretor iraniano de construir uma obra de ficção a partir de elementos de uma dada realidade que o cineasta deve reorganizar. Assim Freire deslocou-se para uma comunidade da ilha e coloca não atores para protagonizarem um filme que mescla uma história de amor com garotos que brincam de zumbis. O resultado é divertido e singelo.

Estás Vendo Coisas, de Barbara Wagner.

Estás Vendo Coisas, de Barbara Wagner.

Sem mais artigos