é lógico que fui ver “sex & the city 2” na própria sexta-feira, 28 de maio, dia da estréia para o grande público. imagina, eu não ia conseguir dormir sabendo que a continuação da saga já estava disponível. eu e todas as diversas mulheres de diversas idades, sozinhas ou acompanhadas por outras mulheres, pacientes maridos ou zelosos namorados. ah, e muitos rapazes do babado, que provavelmente ansiavam pela cena do casamento de stanford e anthony, celebrado por ninguém menos que liza minelli.

o casamento gay talvez seja a segunda maior surpresa do filme – nada supera a ressurreição de aidan shaw, o homem dos sonhos de qualquer mulher que carrie dispensou na quarta temporada da série. pena que, ao contrário do primeiro “sex & the city”, a continuação não nos regala com mais frios-na-barriga desse tipo. a montanha-russa emocional que tanto caracteriza a vida das fab four de manhattan dá lugar a um sabor de vida real, algo que, se por um lado gera muita identificação na expectadora, por outro peca pela incapacidade de proporcionar escapismo, de fazê-la sonhar, inseri-la numa realidade de guarda-roupa estonteante e homens lindos.

o maior choque de todos é ver mr. big – antes um playboy incorrigível cujos maltratos para com o coração de carrie culminou ao abandoná-la no altar no primeiro filme – preferir um filminho no sofá de casa a uma balada hipada ou um restaurante concorrido. carrie, sempre fervida mas eternamente incapaz de atitudes mais maduras, não consegue sair sozinha e se recusa a deixar o marido em paz, exigindo que ele a acompanhe aos eventos. charlotte, agora mãe não apenas da chinesinha adotada como também de outra biológica, começa a tomar uma canseira da vida de stay-at-home mom, ao mesmo tempo em que alimenta medos internos por conta da babá superjovem, competente e que não usa sutiã. samantha segue serelepe e relata as maravilhas da reposição hormonal. mas, no final das contas, a sempre neurótica miranda pede demissão do emprego e desabrocha como a mais bem-resolvida, agradável e possivelmente bem vestida das personagens do filme.

para chacoalhar um pouco as coisas, samantha descola uma viagem a abu-dabi para as quatro, com tudo pago. para seu desespero, seus contêineres de pílulas anti-menopausa são confiscados assim que chega ao aeroporto local, garantindo um bom estoque de piadas para toda sua estadia. o tradicional brilho e glamour do quarteto, quase sempre caracterizados pelas luzes de nova york, vestidos de paetês e cristais swarovsky ganham proporções verdadeiramente faraônicas – na verdade muito jecas – no apartamento de diária de vinte e dois mil dólares do hotel oitenta estrelas em que ficam hospedadas. miranda se revela uma perfeita guia de turismo a medida em que arranha frases no idioma local e elabora roteiros divertidos que incluem uma noite num karaokê repleto de dançarinas do ventre até passeio de camelo no meio do deserto.

mas é num labiríntico mercado de abu dabi que o clima realmente esquenta: carrie esbarra com aidan, o ex que, apesar da esposa e dos três filhos, ainda balança feito vara de bambu ao vê-la. meus mais profundos desejos de vingança, originados a cada cachorrada que mr. big inflingiu em carrie por tantos anos, afloram todos de uma vez: seria incrível, absolutamente genial, para não mencionar libertador, se carrie inicinasse um tórrido romance clandestino com aidan – em especial aidan, não qualquer um, mas aidan! eles combinam de sair para jantar; ela se emboneca com o mais provocante look do filme, revelando suas piores intenções; eles se encontram, jantam, flertam a não mais poder; finalmente se beijam, mas… carrie amarela e sai correndo. mais: decide ligar na mesma noite para big e confessar tudo. a frustração é dupla: não apenas carrie não desfruta de sua oportunidade de ficar quite como big reage como um verdadeiro adulto e a perdoa pelo deslize assim que ela volta para casa. mas jamais sem antes deixá-la sofrendo um pouquinho, é claro.

então finalmente nos conformamos com a natureza sadomasoquista do casal: ele está sempre irremediavelmente no controle, ela despreza a própria dignidade – ponto final.

o filme conta com numerosas historinhas paralelas – algumas memoráveis, como a hilariante sessão de confissões entre miranda e charlotte que, entre um golpe etílico e outro, vão criando coragem para revelar suas angústias no papel de mães. a saga também é pontuada por questionamentos sobre a condição da mulher muçulmana, com direito a surpresas por trás de burcas e samantha escandalizando o mundo árabe com suas maneiras francas e sexuais. a aventura termina de volta a manhattan com um relativo final feliz para todos, mas uma inegável carência de ousadia que um possível terceiro filme bem poderia sanar.

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