Dois lançamentos dão aos novos leitores a chance de conhecer o trabalho de João Antônio (1937 – 1996), autor paulista que foi uma voz periférica pioneira na imprensa e na literatura brasileira. A editora 34 traz ao mercado o livro de estreia, Malagueta, Perus e Bacanaço, além de Leão de Chácara, trabalho elogiado que rendeu ao autor comparações com Jean Genet.

Lançado em 1963, o livro de estreia de João Antônio, Malagueta, Perus e Bacanaço, tornou-se de imediato um clássico. O autor, então com 26 anos, movia-se com originalidade e força numa linhagem de prosadores que podia abranger nomes tão distintos como Antonio de Alcântara Machado, Lima Barreto ou Graciliano Ramos. Ao mesmo tempo, seus nove contos concisos e diretos, isentos de sentimentalismo, recriavam saborosamente o ritmo e o léxico da língua popular de uma São Paulo em grande parte desconhecida dos leitores — a língua do pé-de-chinelo, do zé-ninguém, do pobre-diabo que chuta tampinhas pela rua e bebe pelos botecos.

Na geografia desta obra de tintas autobiográficas, onde subúrbios paulistanos são cortados por linhas férreas, os esquecidos da história lutam por sua sobrevivência, muitas vezes à margem da lei.

Publicado em 1975, Leão de Chácara é o segundo livro de contos assinado por João Antônio, que desloca seu olhar da periferia de São Paulo para a Zona Sul carioca, onde ricos e pobres convivem muitas vezes lado a lado. Aqui temos uma visão mais desencantada da vida urbana.

Nos quatro contos do livro, o estilo é mais incisivo, as gírias multiplicam-se, o enredo carrega mais violência — com um ressentimento de classe muitas vezes explícito. “Vivendo de otários, na humilhação e no vexame, tendo de suportar as vontades para levantar o tutu dos trouxas, a gente tem bronca dessa raça”, diz o personagem Joãozinho da Babilônia no conto homônimo.

De família humilde, João Antônio publicou seu primeiro conto, “Um preso”, no jornal O Tempo. Em 1963 lança seu livro de estreia, Malagueta, Perus e Bacanaço, que ganha os prêmios Fábio Prado e Jabuti, este em duas categorias, Revelação de Autor e Melhor Livro de Contos. Em 1964 muda-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha no Jornal do Brasil. Teve uma atuação importante na imprensa, com passagens pela revista Realidade, Manchete e os jornais O Globo e Diário de Notícias. Publicou o livro Malhação do Judas Carioca, de reportagens e perfis.

A Editora 34 está empenhada em reeditar a obra do autor e planeja para o ano que vem dois outros volumes: Dedo Duro, de 1982, e Abraçado ao Meu Rancor, de 1986. Mais adiante, serão reeditados os Contos Reunidos, lançados anteriormente pela Cosac Naify, com material inédito encontrado há pouco tempo.

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