Johnny Hooker entre o desejo, o delírio e a angústia no novo disco Orgia

Inspirado nos diários de Túlio Carella, músico pernambucano lida com demônios pessoais e critica onda obscurantista no país em seu disco mais conceitual

Johnny Hooker entre o desejo, o delírio e a angústia no novo disco Orgia

Inspirado nos diários de Túlio Carella, músico pernambucano lida com demônios pessoais e critica onda obscurantista no país em seu disco mais conceitual

Johnny Hooker entre o desejo, o delírio e a angústia no novo disco Orgia
4.5

Johnny Hooker
Orgia
Independente, 2022. Gênero: pop, MPB, neosoul, samba, brega-pop

“Pela primeira vez em minha vida, a vontade de ser me abandona e sou possuído pela vontade de viver” é o que Johnny Hooker declama, ao finalizar o monólogo da primeira faixa que introduz o álbum Orgia, lançado em meados de junho. Após ter as produções interrompidas pela pandemia, o artista independente, natural de Recife, enfim, agrupou as 13 faixas que compõem um disco cheio de musicalidade e contextos.

O álbum é dividido em três atos e, assim como em Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! (2015) e Coração (2017), mantém a habilidade de Hooker em propor relações entre diferentes ritmos musicais. Neste, o artista interpreta com a voz áspera, intensa, médio-aguda e totalmente identitária, músicas que passeiam pelo samba, pop, rock, brega, e outras influências.

Inspirado no livro Orgia – Os Diários de Tulio Carella, Recife 1960, Hooker faz referência à narrativa do dramaturgo argentino em sua vinda à capital pernambucana. Assim como Carella saiu da terra natal e passou a conhecer os prazeres sexuais da Veneza brasileira, Hooker, que migrou de Recife para São Paulo há sete anos, expressa as experiências afetivas-sexuais numa cidade tão sensual quanto, através dos próprios diários em forma de música.

Além de introduzir a temática do sexo, bastante presente no livro Orgia, o artista também traça um paralelo nos momentos de tensão vividos por Tulio Carella, exilado e torturado pela ditadura na época. Em entrevista ao DiaCast com Rafa Dias e Gabie Fernandes, Johnny assumiu essa inspiração ao falar de uma “nuvem do fascismo e autoritarismo” no atual Brasil. 

O primeiro ato de Orgia traz a noite como protagonista e palco dos desejos da carne. “Amante de Aluguel” introduz tal cenário, com fortes potenciais em ser o “carro chefe” do álbum. A junção do brega e pop eletrônico com as batidas marcadas, semelhantes às tão íntimas do ainda recente e estourado piseiro, além de uma letra chiclete, acaba por dar destaque. “NHAC”, parceria com CHAMELEO vem em seguida, apresentando a música mais pop da lista, pela batida e letra sátira. “Nos Braços de Um Estranho” traz uma atmosfera eletrônica até então pouco conhecida de Hooker, referenciando as “caçadas” em apps de “pegação” gay, e as festas de sexo populares em São Paulo. Para finalizar o arco, vem “Só Pra Ser Teu Homem”, com clima digno de saudade de Recife, tocado por violão e percussão que flertam com o flamenco.

“CUBA” é a faixa que abre o segundo ato, o do delírio tropical. No videoclipe, Johnny Hooker incorpora a própria garota tropical, no ritmo dançante e provocador do brega, que muda os ares do álbum. Gravadas na Ilha de Itamaracá (Pernambuco), as imagens que deveriam servir para um visualizer compuseram um vídeo paradisíaco, cheio de exaltação à atração sexual. “Maré” vem logo após, carregada de um arranjo de guitarra que mantém o ouvinte na praia, no estilo tropical, com destaque para a participação do cantor Silva. “Larga Esse Boy”, aparentemente, parece se mostrar alheia ao arco do delírio tropical, distante da temática central. Hooker apresenta aqui um mix do brega com as batidas do piseiro ainda mais evidentes do que “Amante de Aluguel”, trazendo a participação do artista pernambucano Jáder.

O novo álbum é dividido em três atos. (Foto: Carlos Salles/Divulgação).

O terceiro ato marca a imersão numa melancolia melódica e harmônica com a instalação de uma nuvem obscurantista, respeitando a narrativa do livro que serviu de inspiração, que vai da liberdade sexual ao aprisionamento dos sentimentos, até restar somente angústia. Esta parte de Orgia recruta uma alma sambista para o álbum. Em “NSRA da Encruzilhada”, a persona interpretada por Hooker só quer “fumar seu Derby em paz” enquanto ao mesmo tempo questiona “quem poderá nos salvar?”, e finaliza anunciando a temática do desfecho: “A dama do apocalipse acelera suprema sobre esse baile de máscaras”.

O samba continua a ser base em “Abrigo”, com foco na decepção em meio a solidão, mantendo a expressividade nos tons vocais e percussão, o que remete a uma lamúria apocalíptica até dançante. Sobre a música seguinte, através do Twitter, Johnny Hooker declarou que “Eu Te Desafio A Me Amar” é sua carta aberta para o País. O samba miúdo, com graves dramáticos e a presença de um violino roqueiro, serve para protestar sobre o esmagamento que o Brasil de hoje provoca nos artistas nacionais.

Por último, “Estandarte” toca uma espécie de samba, quase samba-enredo, desabafando sobre as dores atuais do cenário brasileiro, conclamando o ouvinte a “ressignificar essa dor, começar de novo, da bandeira das cores que me regem”. De forma sutil, Hooker levanta uma crítica ao sequestro das cores verde e amarelo, bastante ligados ao atual governo, que no contexto do disco, representa a nuvem fascista e autoritária. E ainda menos sutil, a faixa finda com uma fala da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, em um crime ainda não solucionado: “Não serei interrompida”. “Estandarte” só não encerra completamente a lista pela presença da versão em espanhol do sucesso “Volta”,“Vuelve”. De acordo com o autor, esta faixa está correlacionada ao exílio, tanto de Carella, quanto o seu, de certa forma.

Orgia de Johnny Hooker não só abriga seus desabafos políticos, mas também os pessoais. Recentemente, responsável por tweets que repercutiram sobre um possível fim de carreira, o artista também despeja as indignações contra o mercado da música no álbum, por exemplo, quando em “NSRA da Encruzilhada”, canta “se o que me nutre também me destruirá”. Segundo Hooker, só quem tem “caminhões de dinheiro” consegue ocupar os espaços, enquanto que ele, enquanto artista independente, não detém das mesmas oportunidades. O fato é que com Orgia, Johnny ainda vai se relacionar algum tempo com a música. O novo show do artista – que reproduz os três atos do disco – está em turnê pela Europa, e foi uma das atrações do Rock In Rio Lisboa (Portugal), no final de junho. Lidando com seus demônios pessoais e comentando o momento político de seu tempo, o renovado e criativo Orgia, coloca Hooker como um dos artistas mais autênticos e relevantes que temos.

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