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A artista visual pernambucana Juliana Notari abre exposição Desterro: Enquanto Eles Cresciam no próximo sábado, 17 de dezembro, às 18h, no Museu da Cidade do Recife (Forte das Cinco Pontas). Juliana mostra o conjunto de obras que foram realizadas ao longode dois anos em que ficou sem cortar ou retirar os pelos do seu corpo. No decorrer do tempo e à medida que os pelos cresceram, novos significados e possibilidades estéticas surgiram e seu resultado será exposto através de fotografia, desenho, escultura e as vídeos performances, com curadoria de Clarissa Diniz, curadora assistente do Museu de Arte do Rio (MAR).

Depois da abertura, haverá bate-papo com o artista. A mostra trás também fotografias das série Sorterro e as vídeos performances Mimoso e Soledad realizadas também ao longo dos dois anos, enquanto eles cresciam.

Segundo a curadora Clarissa Diniz muitas questões atravessaram esse trabalho, que se insere no debate acerca do humano e do “pós-humano”. No cerne dessa discussão encontram-se os processos de autodesconstrução / reconstrução, que a transformação externa tornou-se mais visível.

O cabelo e o pelo desde sempre despertaram o interesse da artista, em função do potencial simbólico que carregam: remetem à animalidade, a forças originárias e instintivas. Ao mesmo tempo, permitem extrema flexibilidade para mudar significados. Embora façam parte do corpo, os cabelos possuem características que são diferentes daquelas que passam a ter após terem sido retirados (quando inspiram nojo, por exemplo). Essa insistência no retorno, na repetição e na impossibilidade de controle da aparição dos pelos, faz com que eles frequentem, no imaginário da artista, a mesma região das pulsões, no sentido psicanalítico.

O excesso de pelos, paradoxalmente, intensificou o sentimento de feminilidade da artista, assim como o sentimento de possuir um corpo mais potente. À medida que o trabalho avançou foi se construindo um intenso processo de autoconhecimento através da redescoberta do próprio corpo. A presença dos pelos produzem sensações ambíguas. Se por um lado ele protege o corpo das intempéries, por outro ele o torna mais sensível ao ambiente, pois age como antena condutora e prolongadora das sensações da pele.

Outra questão importante no trabalho é a relação entre beleza e animalidade, o que permite estabelecer um diálogo com o pensamento de Georges Bataille. Ao traçar relações entre tais temas no seu livro “O erotismo”, Bataille nos diz que “a beleza negadora da animalidade, que desperta o desejo, vai dar na exasperação do desejo, na exaltação das partes animais”. Desse modo o caráter erótico do trabalho estaria ligado a presença ambígua dos pelos, que provoca uma aproximação a uma estética animalizada e que transgredi o padrão estético vigente da beleza feminina.

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Sendo assim, enquanto eles cresciam a artista Juliana Notari realizou vários trabalhos, nos quais esta exposição faz um apanhado, fechando um ciclo de uma vasta pesquisa onde teve a oportunidade de vivenciar experiências, utilizando seu corpo como forma de expressão e a principal matéria das suas obras.

Pernambucana, Notaro vive atualmente no Rio de Janeiro, é doutoranda em Artes Visuais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ, 2016). Em 2001 Juliana realiza sua primeira individual Assinalações no Museu da Abolição no Recife. Juntamente com outros artistas funda em 2000 o espaço coletivo “Atelier Submarino” no Recife, onde desenvolve atividades artísticas e produções coletivas dentre as quais está a Exposição Casa Coisa, marco na arte contemporânea do Recife nos anos 2000.

Desde lá realizou várias exposições individuais, participou de diversas mostras e recebeu prêmios onde se destacam os: “Prêmio do Salão Arte Pará 2014”, “Prêmio Funarte – Mulheres nas Artes Visuais 2013”; “Prêmio Bolsa de pesquisa no Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco, 2004.”. Ela também representa o Nordeste em 2005 no Ano do Brasil na França nas mostras: “Brésil Pernambuco Art contemporain” na École Supérieure d’Art d’Aix-en-Provence e na mostra “Territoires Transitoires” no Palais de la Porte Dorée em Paris. Integra as mostras: “O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira” (2005); “Trilhas do Desejo – Rumos Artes Visuais” (2008/2009) no Instituto Itaú Cultural, São Paulo; “Tripé/Escrita” no SESC Pompéia, São Paulo, 2010; “Festival Performance Arte Brasil” no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM-RJ, 2011; “Metrô de superfície” no Paço das Artes, São Paulo, 2012; “Transperformance 2 – Inventário dos Gestos” no Oi Futuro/ Flamengo, Rio de Janeiro, 2012. Em colaboração com a crítica e curadora de arte Clarissa Diniz, Lançou o livro “Dez Dedos” em 2011, o qual reúne fotos de trabalhos da sua primeira década de carreira com textos críticos de diversos, curadores e críticos de arte.

A abertura da exposição será neste sábado (17). Depois a expo estará disponível para visitação de terça à domingo, das 9h-17h; Entrada gratuita. A exposição possui acessibilidade através do recurso da áudio-descrição. Censura: 18 anos.

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