Jup do Bairro é um dos destaques entre as novas vozes do pop brasileiro. (Foto: Isac Oliveira).

Em seu livro Capitalismo em Debate, Nancy Fraser afirma que é preciso entender que a violência de gênero é organizada pela supremacia da heterocisnormatividade via capitalismo. Esta filósofa norte-americana analisa ainda que os corpos LGBTQIA+ valem menos dentro do sistema capitalista. E possuem menos valor simbolicamente, mas também na sua forma mais óbvia, de trabalho vivo, transformado em trabalho morto.

Mas afinal, o que pode um corpo? E um corpo sem juízo? Quem pode explicar é a cantora, educadora, performer, atriz e apresentadora , artista e ativista do movimento LGBTQIA+. Seu mais recente trabalho (e primeiro EP solo), é intitulado .  Jup, que começou no centro de São Paulo, ganhou o Brasil através da música, que fala sobre o corpo, a diversidade, o desejo pela liberdade de se expressar e a arte periférica.

surgiu a partir de um financiamento coletivo e foi produzido pela DJ BADSISTA. “Entendi que mente era corpo, que corpo era mente ao me deparar comigo mesma”, crava a trans paulistana, nascida em 21 de janeiro de 1993, criada no Capão Redondo, distrito da periferia de São Paulo.

O disco foi um dos destaques do ano fonográfico de 2020. Junto com sua já antiga parceira Linn da Quebrada, se apresentou em Amsterdam, Lisboa, Copenhague, Berlim, e Unsound Festival, em Cracóvia. Agora elas estão no comando do programa do Canal Brasil, recebendo convidados de diversas áreas como política, música, cinema, entre outras. “Acredito que somos as pessoas mais doces e brutais uma com a outra, nos cobramos muito e buscamos muita excelência em nosso trabalho”, ressalta Jup.

Veja a entrevista exclusiva com Jup:

O que é um corpo sem juízo?

Eu já fui tantas, acredito que “CORPO SEM JUÍZO” consegue demonstrar algumas. Eu já me transformei, tive sair de um casulo que eu mesma fiz para me sentir segura e percebi que essa mesma proteção me deixava estática, sem me deixar voar. Entendi que mente era corpo, que corpo era mente ao me deparar comigo mesma; não nascemos nada, nos tornamos algo. Inventei um amor que cabia a esse corpo, mesmo que sem juízo e sem saber o que era amar.

Montei uma rede de afetos e clamei por elas quando precisei levantar da cama. Revisitei a minha história e entre dores e delícias, o que não me matou me deixou mais forte. E precisei acreditar em pessoas, precisei que essas pessoas também acreditassem e lutassem por mim. Apesar de que em inúmeras vezes fui imediatista, hoje meu dou ao direito de sonhar, pensar no futuro como uma extensão do presente, mudar trilhas, caminhos, me sentir contemplada, me arrepender e, principalmente, me contradizer. Quero viver sem as amarras do juízo judaico-cristão. Hoje eu sou uma contradição e venho reconhecendo a importância de já não ser mais a mesma.

De onde surgiu o nome Jup do Bairro?

Sempre me apresentei como “Ju P.” na adolescência. Quando comecei no pixo e assinatura de meus fanzines, eu tinha uma tag que era “juP” (tudo junto e o P maiúsculo) daí me chamavam de “Jup” e parei de corrigir. Com o tempo, e já na música e na performance, as pessoas usavam o “bairro” pra descrever quem eu era: “Sabe a Jup? A Jup do Bairro.” Já que quando me despedia de outros artistas no ponto de ônibus, eu era a única que ia embora sentido bairro e todo o restante continuava sentido Centro. Mais uma vez me apropriei no nome e hoje acaba fazendo todo o sentido pra mim. E sim, também tem influência da Maria do Bairro.

Você já disse que é um corpo que já morreu inúmeras vezes. O que isso significa pra você?

Acredito que a partir do momento que vamos adquirindo informações, mudamos nossas ideias e abrimos mão de quem já fomos, é uma espécie de morte. Mas tive que sacrificar algumas pessoas que já fui para me tornar quem eu sou hoje também. Uma delas foi o Julio Cesar, inocente, ingênuo, medroso. Não que ainda não tenha um pouco dele em mim, mas eu precisei deixá-lo partir para que eu pudesse buscar um pouco de alegria em quem eu pudesse ser. E apesar de não sentir falta, eu gostava dele. Gostava do seu jeito otimista e sonhador. Hoje me pergunto: quando foi que eu deixei de sonhar?

Montei uma rede de afetos e clamei por elas quando precisei levantar da cama. Revisitei a minha história e entre dores e delícias, o que não me matou me deixou mais forte.

Como foi a produção do EP, “CORPO SEM JUÍZO”?

Rage Againt the Machine (1992) foi o primeiro CD de banda que meu pai me deu, anteriormente eram CDs infantis. Eu tenho uma referência musical muito vasta, principalmente sobre o rock. Foi punk na sua adolescência e depois de mais velho migrou para o samba e afins. Quando ouvi RATM pela primeira vez a minha cabeça ficou igual aquele emoji explodindo 🤯. A mistura do rap com o metal foi uma bomba de informações e me apaixonei por Killing in the Name. Inclusive era a única música que eu tocava no Guitar Hero II.

A pegada heavy metal, o funk, o rap e outros ritmos presentes em “CORPO SEM JUÍZO” foi uma viagem em minhas e nas referências de BADSISTA. É muito prazeroso trabalhar com ela. Temos gostos muito parecidos pra música, talvez por termos a mesma faixa etária e por temos um recorte geográfico em comum na periferia. A BAD consegue captar sons que faço com a boca e reproduzir em rifs e melodias, além ser extremamente imersa no que faz, muito matemática. E assim foi feito o esqueleto desse CORPO, quase um Frankenstein. Antes de começar a pré-produção, eu comecei a estudar muito e investigar coisas que eu gosto de ouvir. Com isso, revisitei o tempo que minha mãe costurava ouvindo Nelson Gonçalves, Cartola, Paulo Diniz. Usei do meu berço que foi o rap e batalhas de rimas por onde passei e também gêneros do rock.

No carnaval desse ano, por exemplo, entrei em turnê com o meu projeto “BAD DO BAIRRO com BADSISTA”, que é uma plataforma de experimentação onde eu nunca sei o que ela vai tocar e ela nunca sabe o que eu vou cantar. Nos intervalos me pegava ouvindo Slipknot, Korn… Queria estudar novos flows, novas dicções do que eu já havia apresentado anteriormente. LUTA POR MIM produzido pelo DJ Pininga foi uma das mais difíceis, foi um desafio tanto pra mim quanto pro Mulambo, é uma sonoridade muito diferente pra nós. E PELO AMOR DE DEIZE foi uma das mais fáceis. Deize também é uma grande roqueira, pegou o ritmo e gravamos em poucas horas.

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“É sempre muito importante ressaltar que o meu local de fala não significa o seu local de silêncio.” (Foto: Isac Oliveira/Divulgação).

Como surgiu a parceria com a Linn da Quebrada? O documentário “Bixa Travesty” já apresenta que você e a Linn tinham uma relação antiga envolvendo arte. Comente sobre essa profícua troca entre vocês.

Linn e eu nos conhecemos em 2012 na primeira edição do SP na Rua, um festival de festa independente que acontece no velho Centro da capital. Ela ainda não cantava, mas já se aprofundava na atuação e performance. Eu estava trocando de palco para outra apresentação e, no caminho, encontrei alguns amigos que estavam com ela e me apresentaram: “essa é a Linn”. Como eu não poderia perder a oportunidade de jogar um xaveco eu perguntei: “é Linn de linda?” e ela virou os olhos e eu desencanei da piada. 1×0 pra ela, confesso. Nós estávamos em uma ascensão notável na cena clubber, eu cantando e ela performando, apesar de muitas vezes receber R$ 50 ou nada pelas apresentações. A noite fez nos aproximarmos muito, pois como eu morava (e ainda moro) no Capão Redondo, extremo Sul e ela na Fazenda da Juta, extremo Leste. Nós esperávamos a abertura do metrô ou a volta de circulação de ônibus juntas. Ali já estava nascendo uma parceria que mais tarde significaria a maior de nossas vidas.

Capa do EP ‘Corpo sem juízo’, de Jup do Bairro — Foto: Reprodução

Em certo momento, passei por uma grande decepção. Estava tudo pronto para eu lançar o meu primeiro álbum e eu estava muito feliz com isso. Mas o produtor, agindo de má-fé quis cobrar cerca de R$ 3.000 ou R$ 4.000,00 para disponibilizar esse disco. E claro, penosa que eu estava e sem ter de onde tirar esse valor, me veio com a pergunta: “Você tem o seu disco? Pois eu tenho.” Logo em seguida, disse que teria apagado o disco. Frustrada, pensei em dar um tempo com a música e explorar outros âmbitos da música. E a Linn estava passando por um processo de escrita que, quando me mostrava eu pensava: “isso é música, as pessoas precisam ouvir isso”. Eu decidi anunciar um show de despedida dos palcos, e como a Linn já estava explorando seu flerte com a música, decidi convidar ela e outro artista. Ela estava muito insegura e, como eu sabia aqueles textos de cor, resolvi apoiá-la fazendo uma segunda voz.

As pessoas que estavam presentes foram ao delírio, dizendo que tínhamos uma conexão muito boa e que era incrível nossa junção. Foi quando ela me convidou para estar presente em suas apresentações, como eu acreditava na importância daquilo, resolvi me dedicar integralmente na carreira dela. Fui produtora, cuidava das redes, fazia flyers e até stylist eu era, pois tadinha, como posso dizer, ela tinha um gosto peculiar para roupas e, então, resolvi ajudá-la. Desde então, estamos juntas criando, compondo e, principalmente, sendo base uma da outra. Acredito que somos as pessoas mais doces e brutais uma com a outra, nos cobramos muito e buscamos muita excelência em nosso trabalho.

Você acha que é o momento da visibilidade transviada no Brasil como foi para os gays nos anos 90?

Enxergo todos os movimentos e movimentações de pessoas, atos políticos, sejam pessoas trans e travestis ou não, seja através do apelo artístico ou não. Tensionamentos, omissões, falas, silêncios, posicionamentos, não posicionamentos, tudo é político. O que de fato me preocupa é colocarem o corpo da travesti como demanda política, um heroísmo marginal que necessita que estejamos sempre atentas ao debate que a cisgeneridade propõe, assim, sem descanso. O elogio “toda arte que uma travesti faz é política” me soa uma cobrança, cobrança essa que visa sempre a justificarmos nossa existência.

Não é a toa que a maioria de veículos e mídias nos convocam a falarmos de características que atravessam nossos corpos. Sim, é muito importante, mas não pode ser só. Não podemos nos esgotar em um único assunto para disputarmos a representação da representatividade do momento, e “quem é a travesti do ano”. Quero reivindicar lazer, ter uma pessoa para amar, pensar em casamento (mesmo acreditando que possa ser uma instituição falida), pensar em ter uma família, me permitir ser contraditória. Não posso e nem quero usar meu corpo como linha de front sempre. E não dá mais pra fingir que não existimos, ficou insustentável.

O elogio “toda arte que uma travesti faz é política” me soa uma cobrança, cobrança essa que visa sempre a justificarmos nossa existência. Não podemos nos esgotar em um único assunto

O corpo da travesti, das pretas, indígenas, corpos não conformados, serão enfim, corpos que importam?

Importar pra quem exatamente, né? Qual a intenção? O capitalismo usa de estratégias das mais sofisticadas para transformar nossas pautas em demandas de mercado para nos capturar. Quando isso deixa de ser interessante, somos o descarte para um novo assunto publicitário. É sempre muito importante ressaltar que o meu local de fala não significa o seu local de silêncio. Para burlarmos de fato o sistema que oprime os corpos abjetos e marginalizados, precisamos de corpo aliados em nossas lutas.

Jup delineia identidade artística própria com ‘Corpo sem juízo’ (Foto: Isac Oliveira/Divulgação)

Quando a gente fala de empoderamento, luta-se para chegar ao centro? É possível resistir ao poder?

Cansei de hackear da mesma forma que cansei de ser a representação da representatividade. Quero equidade, que meu corpo não seja apenas protagonista, mas que tenham outras como eu em lugares de poder, produção, de informação e comunicação. Eu resisto, insisto e existo! Quero criar novos meios de sobrevivências possíveis para minhas condições.

Como o isolamento social impactou sua arte?

Eu desacelerei, precisei chorar, senti medo, angústia, dor. Sou uma artista que reflete seu tempo e quero viver o que tiver que viver. Sentir o que tiver que sentir. E como diria Conceição Evaristo: enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando solução.

Jup no Capão Redondo. Foto de Isac Oliveira.
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