Juquinha: um quadrinho para todos aqueles que também sentem demais

Obra do quadrinista Max Andrade constrói a narrativa sob episódios curtos, tratando de um tema difícil e denso, mas de forma bem-humorada

Juquinha: um quadrinho para todos aqueles que também sentem demais

Obra do quadrinista Max Andrade constrói a narrativa sob episódios curtos, tratando de um tema difícil e denso, mas de forma bem-humorada

Juquinha: um quadrinho para todos aqueles que também sentem demais
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Juquinha: O Solitário Acidente da Matéria
Max Andrade
Editora Draco, 253 páginas, R$ 79,90, 2021

Tudo parte de uma premissa simples e ao mesmo tempo irresistível: Um garoto sensível, com roupa punk e cabelo moicano, se tranca em seu quarto após tomar um fora da garotinha que é apaixonado e ser humilhado por todos seus coleguinhas na escola. Assim se inicia a aventura da HQ Juquinha de Max Andrade.

Em meio ao sofrimento, trancado em seu quarto onde embarca em uma viagem de auto-descoberta, e o anseio de suas necessidades fisiológicas, o garoto aprenderá em poucas horas uma lição para vida toda. Despretensiosamente, Max constrói uma jornada sobre aceitação e amadurecimento de forma leve, divertida, psicodélica e abarrotada de referências à cultura pop.

O fim da infância e início da pré-adolescência é, certamente, o período que mais remete a boas recordações na memória de todos, mas é também um período turbulento e suscetível a algumas passagens traumáticas que deixam marcas durante toda a vida, sejamos justos. E é justamente sobre esse período que o quadrinista mineiro se debruça em Juquinha.

Max não perde muito tempo e já deixa claro no prólogo o motivo do infortúnio do protagonista: após criar coragem de se declarar e ser rechaçado, Juquinha resolve se enclausurar. Trata-se de uma clássica e aterrorizante situação da infância que todos podem passar ou já passaram, acima de tudo: todos se identificam com a dor do nosso herói punk rocker.

A partir daí, acompanhamos uma jornada de aventuras do garoto lidando com o descaso, a rejeição e a vergonha de ser aquilo o que se é. Max constrói a narrativa sob episódios curtos, quase como tirinhas que conversam entre si, tratando de um tema difícil e denso, mas de forma bem-humorada. Não é difícil entender o que se passa com Juquinha e o porquê de seu comportamento. O autor também não faz questão de se aprofundar nisso e sim como o garoto está passando por aquele momento em que tenta se entender.

Ao longo das páginas, Juquinha passa por um tocante e delicado processo de aceitação e amadurecimento dentro uma realidade que parece cruel demais, mas que é apenas uma jornada pessoal enfrentada por muitos jovens. Dentro desse tema denso, o autor explora várias linguagens gráficas dentro da história, construindo um humor próprio que torna toda a trama mais palatável, onde o nonsense atua para o andamento da narrativa, sobretudo em um capítulo onde o nosso herói parte em uma viagem de auto-descoberta.

Aqui, Max coloca toda sua criatividade e domínio da linguagem em prol da aventura de Juquinha. Seja adotando o estilo gráfico de um mangá e modificando o desenho do personagem-título, ou quebrando a quarta parede com Juquinha conversando com o leitor, ou ainda assumindo o ponto de vista do narrador em diálogo com o personagem.

Nas páginas do quadrinho, ainda há espaço para metalinguagem e gracejos irônicos com as redes sociais. Além disso, a obra também é permeada pelas referências que formaram o repertório inacabável de Max Andrade (autor de Tools Challenge e vencedor do Silent Manga Awards, tendo publicado no Japão), em uma amálgama que vai de Naruto até Dostoiévski, passando por Digimon, Supla e, claro Herman Hesse.

O autor passa a sensação de se divertir ao explorar os mais variados caminhos que a linguagem permite, além de sempre que possível relacioná-la com outras expressões artísticas de seu apreço, como videogame e literatura por exemplo. E Juquinha, ao longo da jornada, descobre que o maior inimigo está dentro da sua própria cabeça, mas claro, sem desconsiderar os fatores externos.

Max, inclusive, chega a participar como personagem da história em determinado momento. Aqui, prefiro não me aprofundar muito para não estragar a experiência, mas como todos os recursos utilizados ao longo da história sua presença no enredo não é gratuita e, tampouco convencional. Não há dúvidas de sua criatividade e capacidade de prender a atenção do leitor, que se pega em constante estado de “Para onde será que ele vai agora?”sem conseguir se desvencilhar da história até que ela acabe.

Mais do que tudo, Juquinha representa o amor de um autor pelos quadrinhos e todos os recursos que a nona arte proporciona. A história nasceu em 2019, mas foi durante o período de isolamento social, quando o autor se sentia desmotivado e perdido na profissão. 

Max pensava até em parar de escrever quadrinho, até que foi postando Juquinha no Instagram despretensiosamente, sem imaginar que imediatamente a história atingiria o coração de inúmeros leitores. Toda a trama é muito significativa e trouxe conforto para muitas pessoas no tão turbulento período de pandemia. O livro foi realizado a partir de campanha no Catarse, ou seja, foi financiada por seus admiradores.

Juquinha consegue capturar, de maneira natural, toda a eloquência criativa do autor em uma emocionante e sensível história sobre um garoto punk, espécie de Charlie Brown de Peanuts roqueiro e sem o Snoopy, cujo único defeito é sentir demais. Ao fim do livro, lado a lado com o protagonista, nos sentimos como testemunhas atuantes de uma jornada intensa, mas de poucas horas, na trilha do crescimento. Também crescemos junto com ele. E aprendemos uma valiosa lição que você precisa ler para também descobrir. 

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