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Um senso de urgência permeia Desmanche, quarto disco da pernambucana nascida na Bahia Karina Buhr. Instigada pelo estado atual das coisas no país, o álbum é pontuado pela estética punk aliada ao forte conjunto percussivo que já é conhecido no trabalho de Karina. Tem tambor, ganzá, alfaias e congas, tudo ressoando para dar um revide sonoro a tudo que está acontecendo.

Karina Buhr fez um disco para esses tempos loucos, mas sua reflexão é complexa e cheia de nuances. Se por um lado temos faixas que soam como um grito para extravasar (caso de “Sangue Frio“, “A Casa Caiu” e “Temperos Destruidores”, que saíram antes como singles), há também faixas que remetem a sentimentos como perplexidade e confusão, que fazem parte desse combo emocional em voga no Brasil, caso de “Chão de Estrelas” e “Nem Nada”.

Aos batuques, Karina soma a fúria das guitarras de Régis Damasceno (do Cidadão Instigado), que, ao lado dela, também é produtor do disco. Mas há também momentos em que o disco desacelera, porém sem deixar de ser incisivo, com letras duras. As ótimas “Amora” e “Filme de Terror”, com participação de Max B.O. são bons exemplos. Isaar, ex-companheira no Cumadre Fulozinha participa da divertida “Vida Boa É a do Atrasado”, que encerra o trabalho.

Se no anterior, Selvática, Karina estava trazendo questões feministas, aqui o debate está muito pautado pela política e as violências que atravessam os discursos do poder instituído. As letras também abordam muito do desmonte do que foi conquistado: “estamos oferecendo um exército que atravessa tudo”, canta ela em “Temperos Destruidores”. Karina Buhr é exímia na escrita e faz incríveis jogos de palavras neste disco.

Em seu melhor disco até agora, Karina Buhr fez um disco político e urgente, porém com subjetividade para tratar das tensões políticas de hoje. A proposta punk é muito gritante aqui (e remete aos shows explosivos da cantora), porém o apelo pop também é muito forte, o que faz da sonoridade de Buhr algo bastante peculiar no cenário brasileiro. Com certeza um dos melhores discos deste ano. Ao menos, o mais necessário.

 

KARINA BUHR
Desmanche
[Independente, 2019]

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