Livro de Silvana Jeha traz como protagonistas pessoas que sempre foram marginalizadas na história oficial. Lançamento no Recife traz debates com tatuadores

Contar a história da tatuagem no Brasil é também contar sobre uma das mais ricas expressões da cultura popular. É essa uma das principais propostas do livro A História da Tatuagem no Brasil (Veneta), de . A autora veio ao Recife para lançar a obra e bate um papo na Galeria Joana D’Arc, no Pina, às 19h, com Rogério de Campos e os tatuadores Valdelio Carvalho, Risco Flor (Magda Martins) e Nando Zevê (ZV Tatuagem e Galeria).

Unindo um texto fluído, extensa iconografia e muitas fotos (registrados pela própria autora), o livro de Jeha traz ainda um rigor acadêmico bastante afiado e muitas notas. A leitura é uma das mais interessantes de uma não-ficção lançadas este ano e surpreende por revelar um pouco mais sobre um Brasil que sempre foi colocado à margem da história oficial.

O livro abarca dois séculos e conta, a partir da pele dos tatuados, histórias de marinheiros, prostitutas, escravizados, soldados rasos, criminosos e imigrantes, que fizeram dessa arte parte do imaginário social. A autora se inspirou em parte da sua tese – marujos e recrutas no Império do Brasil – para organizar um estudo mais amplo da tatuagem.

Segundo a autora, até os anos 1980, a tatuagem esteve ligada a grupos marginalizados e seus registros apareciam em arquivos médicos e fichas policiais. Parte de sua pesquisa foi realizada na Biblioteca Nacional, onde ela pode organizar e catalogar os principais grupos de tatuados no Brasil antes da popularização da tatuagem nos anos 1970. No acervo há registros de escravizados, que tiveram as escarificações (incisões superficiais na pele) registradas nos anúncios de fuga. “Toda essa documentação estava disponível, mas nunca tinha sido organizada a partir desse olhar”, diz Silvana. “Foi possível perceber as características próprias de diferentes nações africanas que vieram ao Brasil”, conta.

Outra parte importante da pesquisa se concentrou no material arquivado no Museu Penitenciário Paulista, que possui mais de 2.600 fichas detalhadas dos presos e de suas tatuagens, o que faz desse o maior acervo sobre tatuados do Brasil. “Percebemos que, nos anos 1920, 30, diversos imigrantes do mundo todo e também do Nordeste chegaram a São Paulo. E é por isso que encontrei tatuagens de diversos países, Japão, Argélia, Líbano”, diz a autora.

Silvana ainda levantou relatos ficcionais em busca de personagens tatuados e como essas tatuagens colaboravam com a narrativa. Estão presentes trabalhos de autores como Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Machado de Assis e João do Rio, entre outros.

O livro é um poderoso documento sobre a tatuagem, mas também fala de pessoas marginalizadas, o que no Brasil de hoje é algo que soa ousado por conta do forte conservadorismo em ascensão. “A tatuagem era tida como coisa de bandido durante muito tempo, mas hoje é parte bastante aceita e difundida”, explica. “Acho que, do mesmo jeito que vivemos um período de muitos ataques e violências, existe também um movimento de reação por parte da cultura”.

O livro é uma forma de registrar e discutir a relevância da história, o que hoje soa como resistência. “Acredito que uma das maiores contribuições que o livro é tratar da tatuagem como parte importante da popular no Brasil”, diz Silvana.

também está à venda em livrarias, na Amazon e no site da editora.

A Galeria Joana D’Arc fica Av. Herculano Bandeira, 513 – Pina, Recife.

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