Mais estranho que a arte: uma história de amor incomum na HQ Gioconda

Com roteiro de Felipe Pan, desenhos de Olavo Costa e cores de Mariane Gusmão, o quadrinho traz um enredo leve para falar do amor pela arte

Mais estranho que a arte: uma história de amor incomum na HQ Gioconda

Com roteiro de Felipe Pan, desenhos de Olavo Costa e cores de Mariane Gusmão, o quadrinho traz um enredo leve para falar do amor pela arte

Mais estranho que a arte: uma história de amor incomum na HQ Gioconda
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Gioconda
Felipe Pan, Olavo Costa e Mariane Gusmão
Nemo, 112 páginas, R$ 64,90, 2021

Foi em uma excursão à exposição Leonardo da Vinci, realizada pelo Museu da Imagem e do Som de São Paulo, que o professor de língua inglesa e autor de História em Quadrinhos Felipe Pan, dividido entre a tarefa de monitorar os alunos pelos corredores do museu e apreciar as obras de arte e curiosidades que o rodeavam, teve a inspiração para construir uma história de amor incomum. 

“Esta é a história de Francisco, um homem apaixonado por uma mulher em uma pintura. Mas também é uma história sobre o amor à arte, e sobre a arte do amor”, lemos ainda no início uma síntese da história de Gioconda, HQ com roteiro de Felipe Pan, desenhos de Olavo Costa e cores de Mariane Gusmão publicada pela Nemo no final do ano passado. 

Francisco, tímido faxineiro do Museu Louvre, nasceu em São Paulo, mas ainda na infância se mudou para Paris depois do pai abandonar a casa e nunca mais dar notícias.  Francisco cresce visitando o Louvre uma vez ao ano, em seus aniversários e desde pequeno mantém um fascínio, quase fixação, por uma pintura em especial: a Mona Lisa. 

Também conhecida como A Gioconda ( em italiano: La Gioconda, “a sorridente”, em francês, La Joconde) ou ainda Mona Lisa del Giocondo, a Mona Lisa é a mais notável e reconhecida obra de Leonardo da Vinci, um dos mais eminentes artistas do Renascimento italiano. 

Quem foi a musa inspiradora da Mona Lisa é uma dúvida que paira sobre a cabeça de quase todo  o mundo que se interessa por arte. Existem muitas teses sobre se Da Vinci se baseou em alguém real para compor sua mais famosa obra e sobre quem foi a escolhida. Há ainda adeptos da tese de que a “Gioconda” na verdade é um homem. Fato é que esse mistério faz parte da aura magnética do sorriso acanhado tão bem exposto na tela.

Na história, Francisco que trabalha na salle des états, sala mais famosa do museu, sempre que pode aproveita seus momentos a sós com a Mona Lisa para estreitar laços, trocar confidências e construir uma relação platônica. Retraído, um tanto sabotador de si mesmo e sem confiança, em muitos momentos de sua vida nosso herói parece ser transportado para o mundo das artes, tal e qual o personagem de Owen Wilson em Meia-Noite em Paris (2011). Só que em vez da viagem literal do filme de Woody Allen, o universo de Francisco é permeado pelo mundo da pintura. O olhar dele enxerga arte por todo o lugar.

Isso se comprova quando em uma viagem no metrô parisiense e leva um susto ao se deparar com uma mulher de sorriso terno, largo, de aparência tímida e com uma aura enigmática. De imediato, nota as semelhanças entre aquela moça e a Mona Lisa que tanto o fascina. 

Quando Francisco, após um empurrão contundente dos amigos, decide tomar coragem e ir atrás de sua musa, se assusta com as coincidências entre ela e o seu quadro favorito. A musa se chama Elisa, é muda, mora em Paris desde a adolescência acompanhada do pai, um tal de Leonardo, italiano de uma pequena província, Vinci. Já imagina o resto, né?

O enredo parece extraído de um dos filmes de Wes Anderson, tamanha a situação incomum e o romance excêntrico típico das produções do diretor de Grande Hotel Budapeste (2014). Claro que o romance do casal sofre percalços, natural depois da confusão que a semelhança entre Elisa e seu pai com a Mona Lisa e o pintor causam na cabeça de Francisco. É até inevitável para o andamento da trama.

Mas Gioconda é uma HQ leve, romântica e recheada de momentos divertidos. Além disso, a história preta reverência ao universo da pintura, arte que se relaciona diretamente com os quadrinhos. Aliás, a arte de Olavo Costa e a cor empregada por Mariana Gusmão é deslumbrante e ajudam a criar uma atmosfera especial na história.

Há espaço no quadrinho ainda para crítica aos visitantes apressados dos museus, aqueles que apenas buscam aplaudir aquelas pinturas mais célebres, que ignoram o tempo de maturação da própria sensação e assim construir alguns elos consistentes com as obras. Independente de ser a Mona Lisa ou uma outra obra qualquer.

Gioconda encontra sua força na singeleza de um romance fofo e encantador. Para alguns pode até parecer desinteressante, mas com certeza o desenvolvimento da relação do casal, sob o ponto de vista de terceiros ou de Francisco e da própria trama dão a sustentação necessária ao quadrinho. O mundo das artes plásticas fascina naturalmente e a escolha dos autores pelo fantástico dá um charme extra à narrativa.  

Uma ode ao mundo das artes, a obra simultaneamente homenageia quem trabalha para as artes. Gioconda enlaça romance e fantasia com o mundo pictórico para construir uma leitura surpreendente e agradável, explicando de forma didática o porquê dos quadrinhos serem a nona arte. 

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