Foto: Dandara Palankof.

A Comic House, loja de quadrinhos localizada na cidade de João Pessoa e comandada pelo descontraído e amável Manassés Filho (hoje ele comanda a loja online Gibizada), tinha na placa de sua fachada vários personagens dos gibis; entre eles, Maria, criada pelo quadrinista, também paraibano, Henrique Magalhães.

“Toda vez que Henrique vem aqui, me diz que vai desistir desse negócio de quadrinhos, que isso não leva a nada”, dizia Manassés, aos risos. “Mas ele não consegue!”

Henrique é fundador, editor e único funcionário da Marca de Fantasia – responsável pela publicação de dezenas de títulos todos os anos, entre quadrinhos, pesquisas acadêmicas sobre a área e outros estudos sobre Comunicação. Funções que exercia em paralelo à vida de professor universitário – até se aposentar, em meados de 2019.

Sua persistência se deve principalmente por dois fatores: o amor pelos quadrinhos e publicações independentes; e a necessidade de não deixar que passem em branco tantos trabalhos que não encontrariam espaço em editoras comerciais.

“Registro” é uma palavra-chave para definir o trabalho desenvolvido pela Marca de Fantasia. A editora é uma espécie de guardiã da memória da produção de quadrinhos – e da pesquisa sobre o tema – totalmente underground, produzida por nomes que correm (ainda mais) por fora de um circuito que, podemos dizer, ainda está em processo de formação.

Como funciona a Marca de Fantasia

Henrique toma conhecimento dos trabalhos que deseja publicar através do circuito independente, acadêmico e em eventos – mas também recebe trabalho de autores que entram em contato com ele. Os quadrinhos são sempre impressos; já os livros acadêmicos, caso ultrapassem as 200 páginas, viram e-books, disponibilizados no site da editora (muitas vezes, gratuitamente).

Henrique revisa, edita, diagrama e monta cada uma das publicações. Nos primórdios da editora, as páginas eram impressas, recortadas, coladas e xerocadas, como num fanzine – sua escola e seu objeto de pesquisa durante quase toda a vida. Hoje, imprime as páginas em casa, numa impressora a laser. Faz os miolos de dez em dez exemplares, fazendo a reposição à medida em que se esgotam.

As capas também eram feitas artesanalmente, impressas e coloridas à mão ou com carimbos de linóleo; hoje, são impressas em off-set, em gráficas da cidade. Essa é a única parte da produção que ele terceiriza – e, admite, muito a contra-gosto. Mas fazê-lo permite que as capas tenham maior qualidade. Ele as imprime às centenas e as armazena, utilizando-as a medida em que precisa confeccionar novos exemplares.

Quem foi Ângelo Agostini, autor pioneiro que inspirou o Dia do Quadrinho Nacional

Muito se discute acerca de quem foi o primeiro a produzir uma história em quadrinhos. Alguns defendem que foi Richard Outcault; outros, Rodolphe Töpffer; e há ainda aqueles que acham possível ter sido o ítalo-brasileiro Angelo Agostini. Agostini nasceu em Vercelli, região italiana do Piemonte, em 1843. Depois, mudou-se para Paris, onde estudou desenho, concluindo o curso em 1858. Então, vem para o Brasil e se estabelece em São Paulo, aos 16 anos de idade, acompanhando sua mãe – a […]

Read more

“Foi minha estratégia para que eu pudesse ter dezenas de títulos ao mesmo tempo, em vez de publicar dois por ano e ter 500 exemplares de cada um. Foi uma visão editorial, para a viabilidade da produção.”

Sozinho, costura à mão cada um dos cadernos, com um método que ele mesmo desenvolveu; depois, dá forma aos livros colando-os com uma prensa caseira – também feita por ele mesmo. Por fim, junta-os às capas. Quanto aos e-books, também é Henrique quem os edita, diagrama e disponibiliza no site da Marca de Fantasia – também totalmente construído e administrado por ele.

Algumas das publicações da editora. (Foto: Dandara Palankof).

As primeiras publicações

Desde cedo, Henrique se interessava não só poro desenhar, mas em fazer suas publicações (a primeira foi uma revista mimeografada, ainda no colégio). Já na faculdade de Arquitetura, começou a publicar as tiras de Maria, sua personagem mais icônica, nos jornais da Paraíba. Então, criou uma revista para suas tiras, que tinha ainda artigos e trabalhos de outros artistas. Com tiragem de mil exemplares, a revista Maria teve dez números, em preto e branco e papel jornal, distribuídos na Paraíba e em Recife. Teve também um álbum: “Maria, a maior das subversões”.

O selo estampado na capa da revista, porém, era outro: Editora Artesanal – referência ao ao grupo de teatro do qual Henrique fazia parte. Porém, quando trocou a Arquitetura pelo Jornalismo, ele começou a editar uma nova revista no curso. O nome da publicação, que trazia artigos sobre cultura em geral, veio num estalo: Marca de Fantasia.

Ele usou o nome novamente em meados de 1986 para batizar um fanzine de quadrinhos criado com a colega de mestrado Sandra Albuquerque, em São Paulo; foram oito números. Quando voltou para João Pessoa, criou mais um fanzine: o Nhô Quim – dessa vez, um projeto coletivo; e que foi interrompido por uma nova mudança: o doutorado na França.

Uma das primeiras editoras a lançar Killofer no Brasil. (Foto: Dandara P.)

Henrique já havia aprofundado seu conhecimento da produção independente de fanzines e quadrinhos em outros estados brasileiros e outros países europeus durante o mestrado. Mas na França, ele descobriu o que descreve como uma “efervescência” das publicações independentes, entre as mais artesanais e aquelas com maior refinamento editorial. Acompanhou de perto, por exemplo, os primórdios da L’Association – hoje uma das editoras mais importantes do mercado francês de quadrinhos. Em sua tese, acabou discorrendo sobre as similaridades e diferenças entre os fanzines brasileiros, portugueses e franceses.

O vigor da cena francesa inspirou Henrique a criar uma estrutura que viabilizasse uma produção de alta qualidade no meio independente brasileiro. Sua ideia era criar um projeto editorial que pudesse oferecer suporte e divulgação aos trabalhos que conhecia Brasil afora. Então, em 1995, o nome Marca de Fantasia agora batizava uma editora, destinada a publicação de fanzines, revistas, livros e álbuns.

A Marca toma forma

O projeto inicial da Marca de Fantasia consistia em três linhas: um fanzine, batizado  como Top-Top; uma revista em quadrinhos experimental, a Tyli-Tyli (nome da personagem criada por Flávio Calazans), rebatizada como Mandala quando passou a contar com outros colaboradores; e livros de tiras, que integrariam uma série intitulada “Das tiras, coração” – esta, junto com o professor e quadrinista mineiro Edgard Guimarães, um dos parceiros mais antigos de Henrique. As publicações se alternariam a cada mês. A ideia durou exatamente um ano.

Outras publicações foram surgindo, como a série de álbuns Repertório; a revista de quadrinhos poético-filosóficos Artlectos e Pós-Humanos, de Edgar Franco; e o tradicional fanzine QI, de Edgard Guimarães (hoje disponibilizado gratuitamente pela Marca, em edição eletrônica). Quem também ganhou espaço mais uma vez foi o alter-ego de Henrique, em sua Maria Magazine.

As tiras de Maria passam a ser publicadas semanalmente n’O Grito!, site que edita a Plaf.

Além dos autores nacionais, a Marca também publicou autores estrangeiros com menor penetração no mercado brasileiro. A Marca de Fantasia foi a primeira editora do país a publicar um gibi do renomado autor francês Killoffer – a coletânea de histórias Quando Tem que Ser. Também é motivo de orgulho para Henrique o fato de sua editora ter sido a única no país a publicar uma obra da também aclamada francesa Claire Bretécher; o álbum Os Frustrados foi lançado primeiro em 2004 e ganhou uma reedição em 2012.

Henrique em seu estúdio/casa: ele cuida do site à distribuição. (Foto: Dandara Palankof).

As publicações acadêmicas

Henrique já era professor da Universidade Federal da Paraíba, na área de Comunicação, desde a época do mestrado. Alguns trabalhos de conclusão de curso começaram a lhe chamar atenção e, assim, a Marca de Fantasia passou a publicar também livros acadêmicos.

Mas a nova linha do projeto editorial tomou forma após a participação de Henrique na edição de 2002 do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom. Na época, o evento acadêmico ainda contava com um grupo de trabalho voltado aos quadrinhos, coordenado por Moacy Cirne (considerado o maior pesquisador da área no país). Ao ver a quantidade de pesquisas produzidas, Henrique se propôs a publicar algumas delas; nascia, então, a série Quiosque.

O primeiro livro da série é de autoria de ninguém menos que Thierry Groensteen. Seu História em quadrinhos: essa desconhecida arte popular foi o primeiro trabalho publicado no Brasil deste que hoje é reconhecido como um dos maiores teóricos do mundo sobre o meio.

Com o tempo, a editora tornou-se um projeto de extensão quando a Pós-Graduação em Comunicação da UFPB foi criada, passando a publicar não apenas os trabalhos de conclusão da graduação, mas também do mestrado e do doutorado lá produzidos.

Mesa de trabalho da Marca de Fantasia. (Foto: Dandara Palankof).

Contra-cultural

Hoje, a Marca de Fantasia conta com cerca de duzentos títulos em seu catálogo, entre livros, revistas e álbuns. Tudo o que já foi e ainda é publicado pela editora está disponível no site da editora (que, por sinal, Henrique também fez sozinho). Vários e-books são disponibilizados gratuitamente e o restante é vendido a preço de custo, apenas para manutenção dos trabalhos.

Henrique sabe que o apelo comercial das publicações da Marca de Fantasia é mínimo – e nunca desejou que tivessem. Nunca houve, de sua parte, qualquer interesse em transformar a editora em um negócio propriamente dito. Para Henrique, seu trabalho “de verdade” sempre foi a vida acadêmica. A editora é sua paixão e, talvez, sua missão.

Ele sabe das limitações acarretadas por sua maneira de trabalhar – principalmente no tocante à distribuição. Porém, é o preço da escolha pela liberdade conceitual e temática da qual não abre mão. O que lhe move à frente da Marca de Fantasia é a oportunidade de dar espaço aquilo que considera importante como experimentações gráficas e conceituais dentro do meio; criar o registro de uma produção alternativa que, de outro modo, poderia nunca encontrar lugar ao sol – e nas prateleiras dos leitores.

Este texto foi publicado originalmente na edição impressa da revista Plaf. Você também pode ler todas as edições passadas em pdf e aqui comprar a edição atual.

ESPAÇO PARA A CULTURA LGBTT
A Marca de Fantasia também dá atenção especial aos quadrinhos protagonizados por personagens homossexuais. Em seu catálogo, contam publicações como a coletânea Autores Plurais; revistas de Katita (personagem lésbica criada por Anita Costa Prado); Camila, gibi que aborda a transexualidade, de autoria de Julie Albuquerque; um retrato do universo dos “ursos” em Ber the Bear, de Rafael Lopes; além de Macambira e sua gente, também de autoria de Henrique Magalhães.

QUADRINHOS NA ACADEMIA
A série Quiosque, de estudos sobre quadrinhos, conta com títulos como Miracleman: um outro mito ariano (Márcio Salerno), O Que é História em Quadrinhos Brasileira (Edgard Guimarães), Tiras livres: um novo gênero dos quadrinhos (Paulo Ramos), A linguagem dos quadrinhos: definições, elementos e gêneros (Alberto Ricardo Pessoa) e Quadrinhos e totalitarismo: V de Vingança, Watchmen e El Eternauta (Douglas Pigozzi). Além disso, a Marca de Fantasia também  publica a revista acadêmica Imaginário!; ligada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB, abre submissão de artigos sobre quadrinhos, artes visuais, cultura pop e afins a graduandos, mestrandos e doutorandos de qualquer lugar do país.

DESTAQUES DO CATÁLOGO
Além das obras de Killoffer e Claire Bretécher , outras publicações de autores estrangeiros também se destacam no catálogo da Marca. Entre elas, o experimental Postais de Viagem, da portuguesa Teresa Câmara Pestana; e a coletânea Carne Argentina, do selo coletivo La Produtora. Já entre os artistas nacionais, há veteranos de renome, como Shiko, Shimamoto, Edgard Guimarães e Edgar Franco, além de nomes promissores no circuito brasileiro de quadrinhos, como a goiana Cátia Ana (When a man loves a woman e O Diário de Virgínia) e a gaúcha Samanta Flôor (Toscomics, em parceria com a revista Café Espacial).

Leia Mais
Clayton Barros e Chico César estão juntos em “Açude Negro”, inspirada em Luiz Gonzaga