Os Melhores Discos de 2022

Inovação, jogação, celebração e muitos outras propostas sonoras marcaram um ano intenso para a música. Beyoncé, Johnny Hooker, Rosalía, Kendrick Lamar e muito mais estão em nossa lista

Edição: Paulo Floro. Textos de Paulo Floro, Alexandre Figueirôa, Matheus Nascimento, Gabriela Agra e Túlio Vasconcelos.

Abrindo o nosso especial de Melhores de 2022, a equipe de O Grito! elencou os álbuns que mais refletiram a intensa movimentação que foi este ano que passou na música ao redor do mundo. Primeiro ano de atividades presenciais e arrefecimento da Covid-19, 2022 contou com trabalhos que apostaram na celebração que estava retesada por anos de isolamento. Foi um ano também de muita inovação, com artistas apontando novos caminhos para o pop, sobretudo aqui no Brasil. Como nas edições anteriores, tentamos buscar um equilíbrio entre trabalhos mais experimentais, outros mais populares, além de unir na mesma lista artistas brasileiros e estrangeiros. E você, o que ouviu de mais interessante este ano?

Ouça aqui a nossa playlist no Spotify com os discos escolhidos na lista.


25
Lucrecia Dalt
¡Ay!

A artista colombiana Lucrecia Dalt passou os últimos anos atuando fortemente na busca por inovações musicais que fossem ao mesmo tempo disruptivas e divertidas. Neste novo trabalho ela inventa uma personagem extraterrestre para propor uma narrativa sonora que une bolero, jazz e pop. – Paulo Floro

Leia mais: A hora e a vez dos quadrinhos latinos (em espanhol).


24
The Weeknd

Dawn FM

Simulando a atmosfera de uma sombria estação de rádio, The Weeknd nos conduz, neste trabalho, por uma verdadeira jornada existencial. Muito mais que um simples álbum, o que o canadense consegue entregar aqui é uma experiência imersiva embebida pelo que há de melhor no pop e no R&B dos anos 1980. – Gabriela Agra.


23
Cate Le Bon
Pompeii

Expoente do art-pop, Cate Le Bon segue rompendo com métricas e estruturas do pop tradicional neste disco repleto de sutilezas. A artista mais uma vez consegue fazer um casamento perfeito entre sua interpretação cheia de entrega e as inovações possíveis dentro do estúdio. Um disco enigmático e acessível ao mesmo tempo. – PF.


22
gorduratrans
zera

A banda fluminense propõe um rock cheio de intensidade, porém com muitas camadas de complexidade neste zera, um álbum que mostra que o indie-rock brasileiro ainda é capaz de apresentar boas contribuições ao gênero. – PF.


21
Josyara
Adeusdará

Destacando a musicalidade baiana e promovendo encontros com experimentações na música eletrônica, o disco agrupa desabafos e discussões sociais, ambientais e políticas em melodia num campo afro-centrado. – Matheus Nascimento.

Leia mais: Os desabafos de Josyara no novo Adeusdará


20
Kendrick Lamar
Mr. Morale & The Big Steppers

Como um álbum duplo, o rapper entrega 18 faixas que trazem intimidade e sinceridade em discussões pessoais debaixo de áureas jazz, blues, de graves modernos e arranjos orquestrais. Após cinco anos do último disco Damn (2017), o artista reforça suas premissas e expressões musicais. – MN.

Leia mais: Kendrick Lamar retoma discussões importantes no seu álbum mais pessoal.


19
Perfume Genius

Ugly Season

O novo disco de Mike Hadreas é o mais experimental de sua carreira (e também o mais pessoal). Ugly Season fala de transformações, de mudanças, tanto sociais e comportamentais quanto corporais. Isso acaba se refletindo em um disco bastante sinestésico e visceral. Uma experiência pop única. – PF.


18
Weyes Blood

And in the Darkness, Hearts Aglow

A cantora Natalie Merling retorna neste segundo trabalho com um disco que é um estudo sobre a melancolia. Um trabalho delicado e cheio de nuances que discute temas como introspecção, solidão e autoconhecimento. – PF.


17
Tulipa Ruiz

Habilidades Extraordinárias

Após um jejum de sete anos, o disco vem renovando a sonoridade da cantora com seu rock, MPB e jazz, além de experimentar novas roupagens de outros gêneros como o funk. As faixas trazem críticas e debates sociais, imersas na atitude e versatilidade musical da artista. – MN


16
Jairo Pereira

Monocromático

Jairo Pereira, um dos fundadores do grupo Aláfia, retorna com esse trabalho solo em que parte de reflexões sobre a cor marrom para falar de racismo, privilégio de classe, violência, isolamento e perda. Trata-se de um disco inventivo em que se remexem soul, pop e eletrônico.

Leia mais: Jairo Pereira discute racismo e resistência cotidiana.


15
Jáder

Quem Mandou Chamar?

O disco une forró, piseiro e subgêneros do pop latino passeando pelas tantas fases e estágios do amor, do término ao desejo. Com o trabalho, Jáder desafia os padrões heteronormativos ainda associados à cena do forró no Brasil, revelando afinidade aos ritmos de raiz nordestina. – MN

Leia mais: Jáder exalta regionalidade e fura bolha dos padrões de gênero.


14
FKA twigs

Caprisongs

Nome importante da atual geração do pop, FKA twigs sempre se pautou pelo experimentalismo e músicas que se apoiavam em um olhar inusitado do R&B, eletrônica e pop. Agora, a artista mostra que consegue manter a mesma inventividade em um disco mais festivo e despretensioso, feito pra se divertir. – PF.


13
Russo Passapusso e Antônio Carlos & Jocafi

Alto da Maravilha

O músico Russo Passapusso, do BaianaSystem e a lendária dupla cancioneira Antonio Carlos e Jocafi, mostraram bastante afinidade com o álbum conjunto Alto da Maravilha, em que referências de ambos geraram uma mistura explosiva com o melhor que a música brasileira popular e dançante tem a oferecer. Um trabalho cheio de personalidade como poucos encontros de gerações conseguem ser. – PF.


12
Sudan Archives

Natural Brown Prom Queen

A cantora, compositora e violinista Brittney Parks (que assina artisticamente como Sudan Archives) retorna com o seu trabalho mais acessível neste disco em que discute questões como ancestralidade e pertencimento. Sua música faz um complexo e sensível trabalho de costura entre a tradição e a modernidade a partir de uma criativa mistura de dance music, pop, R&B e eletrônico. – PF.


11
Steve Lacy

Gemini Rights

Em seu segundo disco, o guitarrista e cantor Steve Lacy redobra a aposta no seu R&B cheio de personalidade com muita aproximação do pop, hip hop e até do rock indie lo-fi. Mais confiante, Lacy criou um disco repleto de canções envolventes, com sabor de hit, sem abrir mão de uma produção sofisticada que se aproxima da perfeição pop. – PF.


10
Alvvays

Blue Rev

O guitar-pop sempre manteve um status de relevância dentro da cultura pop por seu potencial nostálgico. Blue Rev, novo disco da banda Alvvays não se afasta muito dessa proposta, mas consegue atingir um novo patamar de excelência dentre desse gênero. O álbum traz faixas com muitas camadas, ótimas letras e boas doses de guitarras que vão do shoegaze ao dream-pop. – PF.


09
Björk

Fossora

Após cinco anos desde seu último álbum, Björk chega a 2022 dando sequência às suas experimentações com um disco que, em tom esperançoso e otimista, reflete sobre maternidades, ciclos de vida e forças da natureza. Neste trabalho, ela escava novos terrenos para fazer emergir um som tão orgânico e repleto de vida e calor quanto à terra. Misturando o som doce e sossegado de clarinetes com as batidas explosivas do duo indonésio Gabber Modus Operandi, a cantora e compositora islandesa nos recorda que o caminho para a música nem sempre é óbvio e linear. – GA.


08
Nilüfer Yanya

PAINLESS

A cantora e compositora Nilüfer Yanya já vinha se destacando como um dos nomes alternativos do pop mais interessantes dos últimos anos. Neste seu segundo disco ela atingiu um nível de excelência dentro de sua proposta artística de unir riffs de guitarra complexos com uma interpretação única. O disco traz diferentes texturas sonoras unidas a uma produção altamente meticulosa pouco vista no pop. – PF.


07
Johnny Hooker

ORGIA

Depois de ameaçar abandonar a carreira, Johnny Hooker superou os percalços com a indústria musical que tem enfrentado e nos brindou com o interessante álbum Orgia, cuja fonte de inspiração são os relatos eróticos contidos no livro homônimo do dramaturgo e escritor argentino Tulio Carella que, no início dos anos 1960, passou uma temporada no Recife. O disco tem a estrutura de um roteiro de filme e gêneros musicais que vão do forró ao brega-pop. Inclui os singles “Amante de Aluguel” e “Cuba” e traz faixas como “Nos Braços de um Estranho” e “Larga Esse Boy”, todas com uma forte carga sexual.  – Alexandre Figueirôa.

Leia mais: Johnny Hooker entre o desejo, o delírio e a angústia.


06
Planet Hemp

Jardineiros

Ao marcar o retorno dos lançamentos da banda dos “maconheiros mais famosos do Brasil”, o disco resgata toda essência do grupo ambientada nos contextos atuais. Aliás, vale pontuar que o Planet Hemp sempre trouxe críticas sobre os problemas e situações de seu tempo. Em Jardineiros, muitas dessas argumentações se renovam e se reforçam no hoje. Alienação política, situação atual do país, desigualdades e, como de costume em destaque, faixas que defendem a legalização da maconha, constroem o trabalho. De sonoridade urbana valorizada, traz participações de Criolo, Trueno, Tropkillaz, além de um sample da MC Carol. O setlist vem rock, funk, hiphop e com elementos eletrônicos psicodélicos, fazendo com que esteja de volta à atividade uma das bandas de maior personalidade e expressão do país. – MN.


05
Big Thief

Dragon New Warm Mountain I Believe in You

Não existe, hoje, nenhuma banda como o Big Thief, da líder e vocalista Adrianne Lenker. Dona de uma voz imensa, a banda conta ainda com letras altamente contundentes sobre temas duros e bastante próximos (morte, adultério, solidão, saudade). Neste novo disco, a atmosfera das canções desce um tom em relação aos trabalhos anteriores e pedem uma audição ainda mais cuidadosa, sem pressa. A produção segue altamente refinada, em que todos os instrumentos conseguem se destacar para evidenciar a incrível voz cheia de personalidade de Lenker. – RS.


04
Djonga

O Dono do Lugar

O disco marca o retorno triunfal de Djonga à música propriamente dita, já que o trabalho chegou para impedir uma aposentadoria precoce do artista, que através de suas composições, prova ainda ter muita lenha para queimar. Debatendo sobre a indústria, masculinidade e vivências pretas, o rapper desabafa através de versos sagazes, velozes e que tem muito a dizer sobre cor, gênero, relatos periféricos entre outras demais discussões que envolvem os contextos sociais do Brasil. “Uma experiência musical, sobre minha luta contra os moinhos de vento, contra inimigos maiores que eu, ou que não existem”, contou o cantor em suas redes sociais sobre sua inspiração em Dom Quixote na construção do álbum. Colaborações com Tasha & Tracie, Dougnow, Vulgo FK, Oruam e Sarah Guedes constroem o lineup de inéditas, que entre um papo reto e outro, mostram que Djonga está ciente de seu valor como um dos maiores rappers do Brasil. – MN


03
Rosalía

Motomami

Depois de estourar mundialmente com El Mal Querer, um disco em que trazia uma mescla muito bem azeitada entre as tradições flamencas e o pop (sobretudo ritmos como trap e house), a cantora espanhola Rosalía, agora já com status de estrela de primeira grandeza, decide dar um giro bem ousado. Motomamí era nada e tudo o que os fãs esperavam. Pelo espírito inovador da estrela, ninguém pensava que teríamos mais do mesmo nesse álbum seguinte. O resultado, porém, superou as expectativas com um trabalho histriônico, pesado, cacofônico (esses adjetivos aqui todos usados no melhor sentido possível). Rosalía inova na estrutura das faixas, na mescla entre o eletrônico e o hip hop, no pop com o folk, no indie-rock com o dance. Tudo colado com uma assinatura vocal e uma presença artística muito bem delineada e reconhecível. Isso, hoje, é ouro. – PF.


02
Fernando Catatau

Fernando Catatau

Em seu primeiro disco solo, Fernando Catatau, da banda cearense Cidadão Instigado, retorna romântico e melancólico. Em uma produção que tem a música eletrônica como a base que carrega todas as experimentações sonoras, o músico não abandona o pop, o indie-rock e, claro, o cancioneiro brega. Este disco homônimo apresenta uma narrativa sci-fi em uma Fortaleza distópica que serve como espelho de todas as nossas angústias e ansiedades em tempos de alta exposição, redes sociais e imediatismo. Mas é também um trabalho sobre a busca pelo amor, pelo encontro, pela necessidade de mantermos nossa humanidade apesar de tudo. Depois de uma carreira inesquecível ao lado de sua banda, Catatau mostra bastante maturidade e segurança neste sua nova aventura artística. – PF.


01
Beyoncé

Renaissance

Poucos discos nesta década podem clamar para si o posto de fenômeno cultural como este Renaissance, que marca o retorno de Beyoncé após meses e meses de especulação por um trabalho novo.

A artista conseguiu o feito de estruturar todo o lançamento sem seguir os ritos modernos de divulgação e distribuição de novas músicas. Ela não lançou clipes, não fez shows ou deu entrevistas (à exceção de uma já história capa da Vogue UK). Tudo era postado em suas próprias redes a conta-gotas. Em vez disso ela passou a engajar seus fãs com praticamente nada para que eles próprios criassem conteúdos com suas músicas, de maneira orgânica. “Cuff It” tornou-se viral no TikTok, enquanto “Alien Superstar” foi a base de um meme altamente popular no Twitter. Até mesmo o remix de “Break My Soul”, feito após um fã unir a faixa com o clássico “Vogue”, ganhou uma edição oficial com a participação da própria Madonna.

Poucos artistas hoje conseguem esse nível de envolvimento sendo tão reclusas. Beyoncé consegue driblar o excesso de exposição que se tornou mandatório no pop ao mesmo tempo em que mantém uma conexão forte com seus fãs.

E se culturalmente Renaissance já fez história, musicalmente o disco é também bastante relevante. Trata-se de um “fan-service” feito com muita segurança e propriedade. A artista conseguiu captar os anseios de seu público por festa e diversão ao perceber um sentimento de celebração que estava represado por conta de dois anos de pandemia. O disco busca, então, inspiração na música disco dos anos 1960 e 70 e na contribuição que artistas negros e LGBTQIA+ deram para a dance music. Beyoncé se abastece dessas referências para fazer o seu conhecido pop/R&B cheio de potência, bases pesadas e uma roupagem muito ligada ao hip hop. Um clássico.

Ouça nossa playlist com os melhores discos:

Leia Mais
Mestre Ambrósio se reúne para turnê em celebração aos 30 anos do Manguebeat