Meus Heróis Eram Todos Viciados, de Ed Brubaker e Sean Phillips – mistério e romance na rehab

Novo quadrinho da dupla que chega ao Brasil retrata a relação de dois jovens viciados em uma trama cheia de sarcasmo e referências pop

Meus Heróis Eram Todos Viciados, de Ed Brubaker e Sean Phillips – mistério e romance na rehab

Novo quadrinho da dupla que chega ao Brasil retrata a relação de dois jovens viciados em uma trama cheia de sarcasmo e referências pop

Meus Heróis Eram Todos Viciados, de Ed Brubaker e Sean Phillips – mistério e romance na rehab
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MEUS HERÓIS ERAM TODOS VICIADOS
Ed Brubaker e Sean Phillips
Mino, 72 páginas, R$ 69,90, 2021. Tradução de Dandara Palankof

Ellie está internada em uma clínica de reabilitação super chique para se livrar do seu vício em drogas. Em uma sessão de terapia coletiva, ela tumultua o ambiente ao romantizar o vício e vocifera que todos os seus ídolos sempre foram viciados. “E se as drogas ajudarem você a encontrar aquilo que te torna especial?”, diz ela, pouco antes de citar álbuns como Hunky Dory, de David Bowie, e Pet Sounds, dos Beach Boys, como exemplos de obras feitas com os artistas chapados. Skip, seu colega de clínica, um jovem retraído, observa tudo com admiração.

Esse é o ponto de partida de Meus Heróis Eram Todos Viciados, novo trabalho da dupla Ed Brubaker e Sean Phillips a chegar ao Brasil. Apesar do mote parecer algo lúgubre ou mesmo um retrato forte sobre a dependência, o livro já entrega desde os primeiros requadros que se trata de uma história contada com certa leveza, humor e doses de mistério. Ellie não vê nada de errado naquilo que faz e tem uma personalidade distanciada de tudo, quase uma sociopata. Filha de uma viciada em drogas, ela esconde um segredo que rende uma reviravolta perto do final do livro. É um trabalho que dialoga muito sobre temas como solidão, memória, mas sempre mantendo uma eloquência despojada, para fazer o leitor passear por essas questões sem se ater muito a elas.

Em nenhum momento, o livro glamuriza o uso de drogas e a trama faz questão de pontuar o lado negativo de ser criada em um ambiente marcado pela dependência química, que é o caso de Ellie.

A construção do romance entre Ellie e Skip tem uma dinâmica interessante e Brubaker consegue trazer excelentes diálogos, mas o desenrolar da trama e seu desenvolvimento, por vezes, soam arrastados. Há também um desfecho apressado – sobretudo no que se refere ao papel que Skip tem na trama – e oportunidades perdidas no desenvolvimento da relação entre os personagens.

Estamos aqui dentro do universo de Criminal, elogiada série de suspense de Brubaker, que chega este ano ao país. Dono de um talento em manter narrativas em estado permanente de atenção e tensão, aqui Brubaker parece ter colocado o pé no freio e trazido uma história que soa mais como uma introdução.

O tom debochado com que trata a temática já tão explorada das drogas (e da rehab) é criativo, pois brinca com a hipocrisia da sociedade com o tema. E tem muitas referências à cultura pop e ao rock, o que também é interessante. Na arte, Sean Phillips faz um trabalho interessante, no seu conhecido estilo realista. Ele é ajudado pelas cores em aquarela do seu filho Jacob Phillps, que aqui ousou trazer uma paleta cheia de cores chamativas que parecem simular um efeito psicodélico, quase iridescente. A exceção cabe às memórias de infância de Ellie, que ganham um contraponto noir, quase preto e branco.

Claramente, este é um trabalho menor dentro da excelente safra de Brubaker que vem chegando por aqui (a exemplo de Pulp, uma das Melhores HQs de 2021 aqui n’O Grito! e Matar ou Morrer, que saíram recentemente). Vencedora do Eisner de Melhor Série Gráfica de 2019, Meus Heróis Eram Todos Viciados, ainda assim, é certamente uma leitura bastante divertida. Quem for fã da dupla, não deve perder esse volume.

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