Cena de Son Of Saul. (Divulgação).
Cena de Son Of Saul. (Divulgação).
Cena de Son Of Saul. (Divulgação).

A 39ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo aproxima-se do fim. O encerramento da mostra acontece no Cinesesc em São Paulo após a exibição do filme do espanhol Léon Fernando Aranoa, Um Dia Perfeito (A perfect day). Aranoa vai estar presente na exibição do filme que traz no elenco os atores Benício Del Toro e Tim Robbins. A seleção de premiados dos festivais internacionais, inéditos, lidera as atrações mais disputadas da Mostra.

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Indies, memória e hits comerciais

O húngaro Son of Saul (Saul Fia), de László Nemes (Grande Prêmio do Júri e da Crítica em Cannes), foi dos mais concorridos, além do supervalorizado estadunidense A Bruxa (The Witch), de Robert Eggers (Melhor Direção), terror que explora clichês de bruxaria, e traz saudades de obras-primas do gênero como O Bebê de Rosemary (Rosemary´s Baby, 1968), de Polanski. Mas as filas para o desconhecido norueguês Homesik também chamavam a atenção. E nem o feriado chuvoso em São Paulo pareceu desanimar os cinéfilos, mas algumas sessões foram suspensas por falta de energia elétrica.

O grande premiado do Festival de Veneza foi o excelente filme venezuelano Desde Allá, de Lorenzo Vigas (Leão de Ouro), que traz o chileno Alfredo Castro, o ator preferido de Pablo Larrain, como um dos protagonistas, no papel de um protético que oculta sua orientação homoafetiva e sai pelos bairros populares de Caracas seduzindo rapazes em troca de dinheiro.

Magallanes. (Divulgação).
O peruano Magallanes: presença latina. (Divulgação).

O Prêmio Humanidade deste ano vai ser entregue aos cineastas Patrício Guzmán e Ermanno Olmi. Guzmán tem dois filmes exibidos na programação, A Terra e a Sombra (La tierra y la sombra) e seu novo documentário O Botão de Pérola (El Botón de Nácar). Já Olmi está presente com o belíssimo drama de guerra Os Campos Voltarão (Torneranno i Prati). O rateio de cores do filme, quase preto e branco, transforma o belíssimo cenário em um lugar opressivo e sufocante em que o inimigo nunca aparece, mas está “cada vez mais perto”. A história, baseada em fatos reais, se passa na fronteira entre Itália e Áustria durante a Primeira Guerra Mundial. A performance dos atores lembra a dramaturgia teatral, bem distante do naturalismo de A Árvore dos Tamancos, que celebrizou o diretor em 1978, mas com silêncios que integram com eloquência a narração.

Desde Allá, premiado em Veneza. (Divulgação).
Desde Allá, premiado em Veneza. (Divulgação).

Latinos na Mostra e questões de gênero

A atual edição da Mostra traz novamente, como ocorreu no ano passado, em que Almodóvar foi homenageado, uma forte presença do cinema brasileiro (mais de 70 títulos) e uma excelente seleção de filmes hispano-americanos. Além disso, o cinema de José Mojica Marins ganhou uma mostra especial e a exibição de dois episódios inéditos de uma série baseada em sua vida, estrelada por Matheus Nachtergaele. A série, criada por André Barcinski, será exibida no canal de TV por assinatura Space a partir de 13 de novembro às 22h30.

Os temas em destaque, sobretudo na cinematografia hispano-americana são os conflitos étnicos, e as questões de gênero, abrangendo desde violência doméstica, opressão feminina e a homoafetividade em sociedades patriarcais, caso de Paulina (La Patota), Argentina, Desde Allá, de Lorenzo Vigas (Venezuela), Lo que Lleva el Río, de Mario Crespo (Venezuela), Alias Maria (Colômbia), Magallanes (Peru). Mas não espere filmes panfletários, e sim personagens consistentes, porém ambíguos, protagonizando narrativas surpreendentes e híbridas. À exceção do controvertido Paulina, um dos filmes mais polêmicos pela atitude da personagem, que não quer punir seus estupradores por serem excluídos sociais, as mulheres são vítimas que tomam o destino em suas mãos, e de uma forma ou outra, lutam pela sua subjetividade, pelo direito a ter filhos ou não, sem cair em maniqueísmos.

A crítica social e política está presente nessas obras, mas é expressa por personagens fortes em sua luta contra a opressão e o massacre do cotidiano. A índia Dauna (Yordana Medrano), protagonista de Lo que Lleva el Río, de Mario Crespo, sofre literalmente na pele a contradição entre ser uma ativista, uma intelectual, e ser desprezada pela aldeia e pelo marido. O filme, de temática indígena, foi ovacionado no Festival de Berlim, e produzido pela Associação Yakarí.

Os Estrangeiros do Oscar

A seleção de filmes da Mostra 2015 também traz os 14 filmes indicados para concorrerem ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2016. São eles Lo que Lleva el Río, da Venezuela; The Paradise Suite, da Holanda; As Mil e Uma Noites – Volume 2, de Portugal; Son of Saul (Saul Fia), da Hungria; Aferim!, da Romênia; El Abrazo de la Serpiente, da Colômbia; A Ovelha Negra (Hrútar), da Islândia; Ixcanul, da Guatemala; O Verão de Sangaïle (Sangaïlé), da Lituânia; Guerra (Krigen), da Dinamarca, Pai (Babai), do Kosovo; Cordeiro (Lamb), da Etiópia; Labirinto de Mentiras (M labyrinth des schweigens), da Alemanha; e O Esgrimista (Miekkailija), da Finlândia.

Os vencedores vão ser oficialmente indicados no dia 14 de janeiro. Pelo visto, vai ser difícil novamente para o cinema nacional levar a estatueta pra casa. Embora seja um filme poderoso e emblemático, Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, vai encarar concorrentes de peso. O Brasil conseguiu ficar entre os cinco filmes selecionados para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro apenas quatro vezes, e nunca ganhou. Em termos de presença latino-americana, a Argentina permanece imbatível, com duas estatuetas, A História Oficial (La Historia Oficial, 1985), e O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto en sus ojos, 2010).

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