O centenário de Elizeth Cardoso será comemorado à altura com o relançamento de 26 álbuns nas plataformas digitais. A Universal Music, detentora da maior parte dos direitos da “Divina” coloca todo esse catálogo no ar a partir desta quinta (16).

Conhecido por sua elegância e voz sensual e sentimental, Elizeth é tida como uma das maiores intérpretes da música brasileira de todos os tempos.

Entram em todas as plataformas de streaming 26 produtos da cantora e três playlists exclusivas. São 17 álbuns de carreira, um coletivo, um EP com quatro faixas raras e sete compilações. Estes lançamentos se somam a outros 14 álbuns de carreira e cinco coletâneas que já se encontravam devidamente disponibilizados. A entrada dessa nova leva é uma ótima oportunidade para que velhos fãs se unam à nova geração para redescobrir esta que foi, juntamente com Carmen Costa (por coincidência, também comemorando seu centenário neste mês de julho), das primeiras grandes cantoras negras populares do país, projetadas pela “Era do Rádio”.

O que pouca gente sabe é que, de todas as suas contemporâneas, Elizeth foi uma das que mais demoraram para chegar ao grande público e atingir o sucesso, via rádio, TV e disco.

Estreou aos seis anos, cantando na Kananga do Japão, uma das muitas “sociedades” dedicadas à dança e ao carnaval carioca. Aos 10, teve de sair da escola para trabalhar no que aparecesse pela sua frente – de charutaria a salão de cabeleireiros; aos 16, cantou pela primeira vez numa rádio, a Guanabara, e a partir da virada dos anos 1930 para os 40, passou a trabalhar como taxi-girl e depois como crooner nos famosos dancings cariocas.

Em 1948, seu destino começou a dar sinais de mudança, quando, durante uma temporada no Dancing Belas Artes, conheceu o compositor, radialista e jornalista Evaldo Ruy, com quem teve um affair e que atuou dali até sua morte prematura, em 54, como um verdadeiro padrinho musical.

Enfim, aos 30 anos de idade, depois de alguns contratempos, Elizeth foi contratada pela pequena Todamérica. Seu disco de estreia estourou a romântica “Canção de amor”, de Chocolate e Elano de Paula. O êxito foi tanto que em pouco tempo já integrava o elenco da famosa Rádio Tupi, além de trabalhar nas boates mais chiques do Rio de Janeiro, como Casablanca e Vogue, e viver entre Rio e São Paulo, onde atuava ainda na rádio e TV Record. Logo, tornou-se a preferida dos grandes intelectuais e músicos de seu tempo, gozando sempre de muito prestígio na imprensa, inclusive sendo sempre destacada entre “as dez mais elegantes”.

Após uma rápida passagem pela Continental, foi a partir de 56, quando firmou contrato com a Copacabana (hoje incorporada à Universal Music) é que seguiu numa escala ascendente de sucesso também nos discos, mantendo-se na empresa até 1978, gravando às vezes dois ou três álbuns por ano, num total de 33 dos 47 LPs de carreira que nos deixou – fora inúmeros discos de 78 rotações, compactos e participações.

Entre as músicas famosas na sua voz estão os sambas-canções “Canção de amor”, “Dá-me tuas mãos”, “Nossos momentos”, “Canção da manhã feliz”, “Tudo é magnífico”, “Meiga presença”, “Apelo” e alguns mais sacudidos, como “É luxo só”, “Deixa andar”, “Naquela mesa”, sem contar o samba-rock dançante “Eu bebo sim”, seguramente a faixa que mais trouxe a cantora para perto de um público mais jovem, devido a seu groove moderníssimo.

Há outros sambas que ela não lançou, mas suas regravações ficaram célebres em sua voz, como “Sei lá”, “Mangueira”, “Mulata assanhada”, “Na cadência do samba”, o inesquecível “Barracão”, além de “Tem que rebolar”, em dueto com Cyro Monteiro, seu parceiro no “Bossaudade”, que apresentaram juntos na TV Record nos idos de 1965 e 66.

Elizeth teve ainda papel importante na transição da tradicional para a moderna canção brasileira, tendo participado de algumas gravações iniciais da bossa nova, com João Gilberto ao violão, e gravado tanto com conjuntos regionais, como o de Jacob do Bandolim, quanto com outros mais jazzísticos, como o de Moacyr Silva e do próprio Zimbo Trio, que tornou o som da bossa mais explosivo, nos anos 1960.

Segue a listagem dos álbuns originais lançados em streaming, com algumas de suas respectivas faixas mais representativas:

Segue a lista dos álbuns (e os hits de cada um).

Fim de Noite (1958) – regravações de “Negro telefone”, “Culpe-me”, “Segredo”, “Último desejo”, “Feitio de oração”, “Prece ao vento” e “No rancho fundo”.

Naturalmente (1958) – “É luxo só”, “Jogada pelo mundo” e “Na cadência do samba”.

Magnífica (1959) – “Cidade do interior”, “Velhos tempos” e “Aula de matemática”.

A Meiga Elizeth Nº2 (1962) – “Deixa andar”, “Tudo é magnífico” e “Moeda quebrada”.

A Meiga Elizeth Nº4 (1963) – “Balada da solidão” e “Nosso cantinho”.

A Meiga Elizeth Nº5 (1964) – “Canção que nasceu do amor” e “Diz que fui por aí”.

400 anos de Samba (1965) – “O meu pecado”.

Elizeth Sobe o Morro (1965) – “A flor e o espinho”, “Luz negra”, “Malvadeza Durão”, “Folhas no ar”, “Minhas madrugadas” e “Sim”.

A Bossa Eterna de Elizeth e Cyro (1966) – “Tem que rebolar” (com Cyro Monteiro).

Muito Elizeth (1966) – “Mundo melhor”, “Lamento”, “Cidade vazia”, “Sem mais adeus”, “Meiga presença” e “Apelo”.

A Enluarada Elizeth (1967) – “Melodia sentimental”, “Meu consolo é você”, “Carinhoso”, “Demais” e “Seleção de sambas da Mangueira”.

Viva o Samba – Elizeth Cardoso, Francineth, Cyro Monteiro, Roberto Silva (1967) – “Meu drama (Senhora tentação)”.

A Bossa Eterna de Elizeth e Cyro Nº2 (1969) – “Louco” e “Sei lá, Mangueira”.

Falou e Disse (1970) – “Corrente de aço”, “É de lei”, “Refém da solidão”, “Aviso aos navegantes”, “Foi um rio que passou em minha vida” e “A flor de laranjeira”.

Feito em Casa (1974) – “Água de sereno” e “Peso dos anos”.

Elizeth Cardoso (1976) – “Minha verdade”, “Entenda a rosa” e “De partida”.

Live in Japan (1977) – “Barracão”, “Naquela mesa”, “Apelo”, “É luxo só”, “Manhã de carnaval”, “A noite do meu bem” e “Última forma”.

A Cantadeira do Amor (1978) – “Deixa”, “Até pensei”, “Velho arvoredo” e “Acontece”.

Elizeth Cardoso (EP com 4 faixas raras) – “Trinta e um de dezembro”, “Chuvas de verão” e Quarto vazio” (as três de 1957), além de “Balão apagado”, de 1961.

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