Os MCs tomam conta das ruas do Recife, mas o ritmo ainda sofre preconceito

Não importa se nas periferias ou nas áreas mais nobres de Pernambuco, você em algum momento já ouviu os beats do -funk. Os MCs parecem dominar o mercado fonográfico do Recife e, principalmente, as casas de festa do Estado. Desde 2011, quando o -funk começou a tomar conta das ruas, o gênero se populariza cada vez mais.

Especial: brega-funk
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No começo, devido à própria estética do movimento, que expunha brigas de comunidade e ostentação, se tentou calar o brega-funk. Mas isso não deu certo, o que diz muito sobre a potencialidade do ritmo tomar conta das ruas e resistir até hoje. Em entrevista dada ao site VICE, em 2019, MC Elloco classificou o brega-funk como “a voz dos ‘incaláveis’”, isto é, algo que nunca conseguirão abafar.

No entanto, o que se percebe, ainda, é um grande preconceito envolvendo os MCs, o gênero e quem o consome. Escuta-se o brega-funk em quase todos os lugares, porém, mesmo assim, eles continuam sendo marginalizados por uma parte da sociedade, mas também, pelo próprio Estado. Foi somente em agosto de 2017 que entrou em vigor a Lei nº 16.044/2017, proposta pelo deputado Edilson Silva (PSOL), que incluiu o brega no mesmo rol de “expressão cultural de Pernambuco”, ao lado do maracatu, ciranda, coco, cavalo marinho, frevo, forró, mangue beat e outros gêneros.

Esse recurso legal garante que artistas do brega, bem como dos outros ritmos patrimonializados, tenham uma reserva de 60% das vagas em eventos organizados pelo poder público, como o Carnaval, São João e Natal. No entanto, na própria descrição da Lei, não se especifica de qual segmento do brega eles estão abarcando: se da primeira geração do brega pop/romântico, do Conde, Labaredas; do brega pop, com Musa, Eduarda Alves ou dos MCs. Há mais de uma década o brega-funk vem resistindo e buscando espaços nas grandes mídias e em grandes festivais e, por isso, estão em constante mudança.

: show histórico no Carnaval do Recife. (Divulgação).

O Carnaval do Marco Zero, até 2017, não contava com nenhuma presença de artistas de brega, principalmente no palco do Marco Zero, o maior do festival. Foi em 2018 que, pela primeira vez, um MC se apresentou em um palco no Recife Antigo. O MC Tocha foi o primeiro a realizar o feito, no palco do Rec-Beat, um dos maiores festivais de música alternativa do Brasil. A partir daí outras portas foram abertas. Em 2019, por exemplo, o primeiro dia do carnaval no Marco Zero contou, na abertura, com um pocket show da dupla Shevchenko e Elloco. O brega-funk está em cena, sobretudo, como uma forma de resistência e de movimentação da economia popular e da força das periferias da Região Metropolitana do Recife.

Força na comunidade

A presença dos MCs em festas populares ainda não é tão forte, mas já se percebe um certo avanço em relação a isso. Desde a apresentação de Tocha em 2018, outros nomes também começaram a circular em festas mais populares: Troia, no (2018) e Dadá Boladão, no Guaiamum Treloso Rural (2019). Entretanto, ainda sim, o número de MCs em festivais públicos é pequeno. Normalmente, a maioria desses artistas só se apresentam em casas de festa e nos bairros da periferia, como é o caso do que em um ano e dois meses de carreira conseguiu emplacar um hit, mas diz que sua maior força veio da comunidade onde vive que o abraçou e lhe deu a mão.

Fechar as portas dos grandes palcos para o brega em geral deixa claro o elitismo que essas festas oficiais tentam manter. – Gaelé, boate Metrópole.

Um dos espaços de maior fervor no centro do Recife é a Metrópole, no bairro da Boa Vista. Gaelé produtor de eventos e DJ da boate e está sempre presente nas reuniões das quais são decididas as atrações que se apresentarão. Segundo ele, o público em geral pede muito a presença de MCs no palco da Metrópole, uma das casas de shows mais antigas e populares da cidade. “Entendo que fechar as portas dos grandes palcos para o brega em geral deixa claro o elitismo que essas festas oficiais tentam manter. A música da periferia, quase sempre marginalizada, vê nesse descaso o objetivo de inviabilizar a ascensão dessa cultura a outro patamar. É por isso que na abertura do nosso carnaval, todas as atrações convidadas foram do segmento brega e brega-funk”, explica.

É notório que mesmo o brega-funk fazendo parte da cultura de massa, sendo, inclusive, bastante consumível pela população, parece que, ainda assim, não aceitaram a identidade da estética e do som das periferias. Essa questão identitária diz respeito, sobretudo, por ser uma produção periférica. Segundo o sociólogo Jessé de Souza, autor de A Ralé Brasileira, “as construções das identidades coletivas são sempre, também, processos de ‘aprendizado coletivo’.” Sentir-se parte da cidade é, ainda, um desafio por parte dos MCs. Isso diz respeito à seguinte lógica: mesmo fazendo parte da cidade, os grupos ainda não conseguem pertencer a ela no sentido mais pleno e total da palavra.

Outra pesquisadora que também trabalha com o tema identidade é Zilá Bernd. Em seu livro Literatura e Identidade Nacional ela afirma que “é preciso encarar a identidade coletiva como um conceito plural”. “Os conceitos estáveis de “caráter nacional” e “identidade autêntica” são modernamente substituídos por uma noção pluridimensional na qual as identidades construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos de sua história se justapõem para constituir um mosaico”, conclui.

Dessa forma, o brega-funk de 2019 deixa de lado as questões da individualidade, ou seja, o pensamento voltado apenas para o eu e agora dá vez à consciência coletiva, visando a atingir toda a nação. Esse não-acesso à cidade é fruto, também, de um racismo enraizado na nossa cultura. O jornalista e pesquisador GG Albuquerque é mestrando em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisa na linha de cultura de massa e pop, com diversas posições sobre o brega-funk.

Questionado sobre o assunto, ele é direto ao afirmar que, decorrente do mito da racial no Brasil, o brega-funk é um gênero marginalizado por ser produzido em regiões periféricas e, por conta disso, acabam tirando dos artistas (lê-se, também, gênero), a possibilidade de ocupar a cidade. “Há um silenciamento dessas músicas. Quando essas pessoas começam a ocupar centros como Marco Zero, Jaqueira, eles também são repreendidos. Essa repressão é fruto de um racismo institucional”, explica. “Novamente, não vai lidar como uma economia criativa. O Estado vai tratar como caso de polícia. O brega-funk combate o racismo dando cidadania cultural a essas pessoas”, ressalta GG.

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