O Homem do Norte: o road movie viking de Robert Eggers
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O HOMEM DO NORTE 
Robert Eggers
EUA, 2022, 2h17min. 18 Anos. / Distribuição: Universal
Com Alexander Skarsgård, Nicole Kidman, Björk e Claes Bang

Em cartaz nos cinemas.

Dizem que a terceira vez é a da sorte, mas para o cineasta americano Robert Eggers o ditado não parece caber, tendo ele já estreado com tremendo acerto em A Bruxa (The Witch, 2015), uma espécie de conto folclórico de horror. Em sua segunda tentativa, com o delirante O Farol (The Lighthouse, 2019), o cineasta parece ter escapado da alardeada “maldição” que pode acometer artistas com os seus trabalhos posteriores aos de suas estreias impactantes e de sucesso; mais uma vez, ele saiu ileso, porém talvez arranhado, desta missão. Agora, ao lançar seu terceiro filme, O Homem do Norte (The Northman, 2022), Eggers, de alguma forma, mesmo tendo sido bem sucedido em suas prévias incursões, consegue atingir uma categoria especial, tendo realizado, mesmo que inconscientemente, uma sorte de trilogia com estas obras, em um intervalo de apenas seis anos.

E apesar de este novo trabalho do diretor ser uma espécie de síntese e amalgama dos temas e visualidades caras ao seu cinema. Ele consegue atingir um novo território, algo diferente e especial em relação ao que conhecíamos previamente em seus filmes. A Bruxa e O Farol, apesar de diametralmente opostos, compartilham de uma estratégia parecida; a da criação de atmosferas inebriantes, mais potentes e envolventes que qualquer ideia de enredo ou trama. E apesar de o primeiro ser costurado em um tom mais realista e pausado, quase imóvel, enquanto o segundo trabalha em um estado quase febril de ilusões e delírios, ambos operam neste território do sufocante, do território cerceado, da prisão geográfica em que se encontram seus personagens, limitados a um confinamento espacial, mas também psicológico e emocional. O Homem do Norte pega todos estes elementos dos longas anteriores e coloca tudo em uma narrativa mais linear, cronológica e encadeada, mas em um escopo amplo, aberto, das paisagens, das estradas, da viagem. É quase um road movie viking épico, com um senso de urgência, selvageria e barbárie excessivamente aglutinados e projetados na tela. 

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Baseado estruturalmente na tragédia shakespeariana de Hamlet, aqui temos uma trama, basicamente, impulsionada por um desejo e vontade de vingança. Após ver o seu pai, o rei Aurvandil (Ethan Hawke), ser morto pelo seu tio Fjölnir (Claes Bang), que também aprisiona e subjuga a sua mãe, a rainha Gudrún (Nicole Kidman, absolutamente dentro da personagem, dando profundidade e camadas em um nível que só a atriz consegue operar), o adolescente Amleth (Oscar Novak) foge para salvar a própria vida em ameaça. A partir daí acompanhamos a trajetória do protagonista e a saga de seu retorno para casa, alguns anos depois, já adulto (interpretado por Alexander Skarsgård) em busca de sangue e justiça. O jovem justiceiro extremamente centrado em sua missão pessoal e toda a movimentação ao seu redor é causada com o propósito e a obstinação de um acerto de contas. Ele vai encontrar e esbarrar em aliadas importantes pelo seu caminho; como Olga (Anya Taylor-Joy), garota escravizada e potencial romântico, e ainda uma conselheira-feiticeira na figura da enigmática Seeres (Björk, em cena curta, mas não menos inspirada, tendo a figura da cantora/atriz o peso ideal para emprestar a uma feiticeira toda a verve necessária para o papel).

Há muitas sequências de ação, embate e violência gráfica ao longo de toda esta jornada, captadas por cenas orquestradas e coreografadas em uma fotografia que oscila entre um aspecto dessaturado (muito presente em A Bruxa) e algo mais contrastado (como no preto e branco fabuloso de O Farol). Eggers assina o roteiro com o escritor e poeta islandês Sjón, que foi quem convenceu Björk a quebrar um hiato de quase 15 anos e voltar ao cinema. Os diálogos aqui são escritos e entoados de uma forma teatral e grandiloquente, o que coaduna e harmoniza com o tom de todo o filme, principalmente na direção dos atores e em suas performances, em sintonia com a inspiração dramatúrgica hamletiana. É uma produção de elenco (ensemble film, como se diz em inglês, o que significaria em tradução livre algo como filme de conjunto, de grupo, onde todos os personagens têm uma importância crucial para a narrativa, independente do tamanho de seus papéis), com grandes participações e destaque para todos. Nesse elenco muito bem azeitado vale uma menção especial à Nicole Kidman, que carrega um monólogo eletrizante em um ponto de virada no final do segundo ato capaz de deixar o público sem fôlego. Outro elemento superlativo da produção é a sua trilha sonora. Quase que preenchendo todas as cenas, a música marca os momentos mais distintos, com uma presença inescapável. 

Há uma ode ao excesso em toda a produção, sem dúvidas, mas sempre sob o controle rígido de Eggers, que preza por uma composição imagética mais “elegante”, para o melhor e o pior. Dessa forma a referência ao clássico Excalibur (Excalibur, a Espada do Poder,1981), de John Boorman, parece fazer sentido, sendo que como um oposto duplo a este aqui, onde o artificial esparrama sua afetação por cada frame. Talvez um pouco de descontrole fizesse O Homem do Norte ser ainda melhor. Mas nada que possa macular o feito de um cineasta que já explorou tanto em tão pouco tempo.

Em uma entrevista recente para divulgação de seu novo filme, Eggers diz não ter interesse em filmar histórias contemporâneas. Ele parece querer investigar os alicerces primitivos de personagens em ambientes desajustados, conflituosos e desprovidos de algum alcance moral. Assim, afastado de qualquer grau de contemporaneidade histórica, ele sinaliza o intuito de criar peças cinematográficas mais fabulosas, fantásticas, e menos passíveis de um realismo inerente, em muitas vezes, ao contexto das atualidades. O seu próximo projeto é uma releitura de Nosferatu (F.W.Murnau, 1922), clássico expressionista alemão de horror. É mais uma incursão que se mostra bastante promissora, como tudo que tem sido realizado pelo cineasta até aqui.

Enquanto isto, em tom de apelo, e a partir de uma postura de compreensão a respeito das limitações de distribuição e exibição do cinema e de filmes no país, e consciente de que a fruição e experiência cinematográficas são plurais, diversas e únicas, se faz válido e pertinente o chamado para aqueles que puderem ir conferir O Homem do Norte nas salas de cinema, que assim o façam. É uma imersão ao longo de duas horas repleta de um magnetismo genuíno e catártico. Não há como se sentir indiferente ao filme, tanto para os seus entusiastas, quanto detratores. Imperdível em toda a sua escala, grandiosidade e força, como uma intensa e extenuante viagem, que nos comove em todo seu percurso e trajetória. 

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