O melhor do audiovisual em 2022

Sexo na pandemia, novos olhares da formação do Brasil, Bowie na intimidade, clipes inovadores e séries virais na nossa seleção deste ano

Edição: Paulo Floro. Textos de Alexandre Figueirôa, Matheus Nascimento, Gabriela Agra, Laura Machado e Paulo Floro.

Nossa lista, como tem sido nossa prática nos últimos anos, é tão diversa quanto o universo das mídias sonoras e audiovisuais, hoje repartido em inúmeras possibilidades de expressão e fruição. Filmes, séries, podcasts, videoclipes, difundidos nas salas tradicionais de cinema ou nas plataformas de streaming compartilham narrativas que retratam, espelham, provocam reações e estimulam reflexões sobre o mundo contemporâneo. 

O nosso olhar, portanto, não pode deixar de perscrutar os muitos trabalhos artísticos que vieram à tona em 2022 e buscar neles o que consideramos relevantes como contribuição a tantas questões urgentes para serem debatidas tanto do ponto de vista ético quanto estético. Indicar o Projeto Querino, podcast incontornável sobre racismo do jornalista Tiago Rogero, produzido pela Rádio Novelo, ou Paloma, o longa-metragem de Marcelo Gomes, mostrando a luta de uma mulher trans para realizar seu sonho, entre os melhores do ano, é uma forma de agradecer a esses criadores por dedicarem suas vidas a uma sociedade mais justa e mais bela.

Especial Melhores de 2022
Os 25 melhores discos de 2022

Severance
(Série, Apple TV+)

O que aconteceria se houvesse a possibilidade de nossas memórias serem cirurgicamente fragmentadas entre o profissional e o pessoal? Para alguns, talvez a primeira coisa a vir em mente seja o tão sonhado equilíbrio entre o trabalho e a vida doméstica, mas, para o criador Dan Erickson, esta é a premissa da distópica Severance, série que integra o catálogo da Apple TV+. Reunindo elementos de drama e thriller psicológico, a produção satiriza os impactos nefastos do capitalismo tardio e das chamadas big techs sobre nossas vidas. – Gabriela Agra.

House of The Dragon
Série, HBO/HBO Max

Ambientada cerca de 200 anos antes dos eventos de Game of Thrones, House of The Dragon chegou este ano para reacender a chama dos fãs que, talvez, não tenham ficado muito entusiasmados com o desfecho da primeira série. Ao se aprofundar na saga da dinastia Targaryen, a prequela renasceu a franquia e resgatou o que havia de melhor nela. – GA.

Heartstopper
Série, Netflix

Adaptada dos quadrinhos de Alice Oseman, Heartstopper é um retrato leve e comovente sobre diferentes vivências LGBTQIA+ na adolescência. Com direção de Euros Lyn, a série, que acompanha o romance entre os garotos Charlie Spring (Joe Locke) e Nick Nelson (Kit Connor), foca numa representação doce e sutil das mudanças e emoções típicas dessa fase da vida e equivale a um abraço caloroso no coração. – GA.

White Lotus – Segunda Temporada
Série, HBO Max

Se na primeira temporada, a série de Mike White gravitava em torno do tema da ganância a partir de uma trama muito bem ajustada sobre ricaços no Havaí, esta segunda temporada muda de local e tema principal. Agora é o sexo e a luxúria os motores principais que servem para o autor fazer uma crítica social ácida sobre a sociedade atual. Ainda melhor que a temporada de estreia, estes novos episódios reforçam o talento de White para tratar de temas atuais (questões de classe, poder, feminismo) com sagacidade e muito humor. – Paulo Floro.

Aftersun
Filme

Um dos filmes mais aclamados deste ano, Aftersun, de Charlotte Wells, trata com alegria e melancolia da viagem que Sophie fez com seu pai 20 anos atrás. Da nossa crítica: Em seu longa-metragem de estreia, a cineasta escocesa Charlotte Wells consegue realizar esse feito de maneira perspicaz. Aftersun é uma obra sobre amor que acolhe em sua narrativa as dores da perda e a sensibilidade das emoções através de uma trama carregada de intimidade. Dirigido e roteirizado por Wells, o filme levou cerca de oito anos no total para ficar pronto e a história final funciona como um álbum de memórias pessoais da cineasta, uma vez que a história do filme se inspira na sua experiência pessoal. – Laura Machado.

Marte Um
Filme

Primeiro filme de um diretor preto a representar o Brasil no Oscar, Marte Um mostra o cotidiano de uma família mineira pobre, mas sonhadora e otimista, vivendo suas crises internas no momento da eleição de um presidente de extrema direita para governar o país. Exibido no prestigiado Sundance Film Festival e ganhador de quatro prêmios no Festival de Gramado, o filme nos toca pela delicadeza da narrativa e reflexões sensíveis sobre a realidade brasileira. – Alexandre Figueirôa.

Regra 34
Filme

O novo filme da carioca Julia Murat é um ensaio provocativo sobre as regras do BDSM, mas discute de maneira muito inteligente questões mais amplas da sociedade de hoje. O filme foi o primeiro longa brasileiro a vencer o troféu principal do Festival de Locarno, o Leopardo de Ouro. – PF.

Projeto Humanos: Altamira
Podcast

Após as reviravoltas e repercussões de “O Caso Evandro”, o Projeto Humanos voltou este ano em uma renovada quinta temporada na qual o jornalista Ivan Mizanzuk se debruça sobre uma série de crimes ocorridos entre 1989 e 1993 na cidade de Altamira, interior do Pará. Rejeitando o sensacionalismo e a espetacularização da dor, o podcast é um ponto fora da curva nas produções do gênero true crime. Assim como na temporada anterior, o protagonismo fica por conta da abordagem cuidadosa que explora as contradições e destrincha as dinâmicas de poder incutidas no crime e no processo penal. – GA.

Björk – “Ovule”
Clipe

No videoclipe de “Ovule”, segundo single do seu mais recente álbum Fossora, Björk irrompe na tela repleta de ornamentos para nos apresentar sua própria concepção sobre o amor. Visualmente extravagante e imponente, a produção dirigida por Nick Knight explora diferentes formas e texturas. O resultado final, majestoso e simultaneamente excêntrico, reforça o porquê da islandesa ser um dos maiores ícones avant-pop da atualidade.

Moonage Daydream
Filme

Se alguém tem alguma dúvida que David Bowie foi uma das figuras mais incríveis da cultura pop, elas se dissipam rapidinho depois de se assistir essa maravilhosa leitura audiovisual da trajetória do camaleão do rock. Moonage Daydream não é um documentário biográfico laudatório, mas uma obra experimental fiel ao artista que retrata, não fazendo dele um mito a ser endeusado, mas nos revelando como Bowie foi um músico versátil e um criador hábil e sagaz antenado com os sons e imagens do seu tempo.  – AF.

Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo
Filme

O filme dos diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert conseguiu provar que Hollywood, quando quer, também pode se aventurar em searas menos seguras e mais inventivas. O filme propõe uma viagem interdimensional em uma trama que pura viagem pop como poucos blockbusters conseguem ser. – PF.

Projeto Querino
Podcast

A série em podcast Projeto Querino, de Tiago Rogero, traz um rico aprofundamento que nos ajuda a compreender as bases de formação da sociedade brasileira a partir de uma perspectiva afrocentrada. Esse trabalho de buscar outros olhares para a nossa história, por si só, já confere um verniz histórico ao projeto. Trabalho jornalístico e histórico de fôlego, o podcast traz uma narrativa envolvente que faz o ouvinte maratonar horas e horas de conteúdo sem sentir o tempo passar. – PF.

Seguindo Todos os Protocolos
Filme

O filme do pernambucano Fábio Leal é uma das melhores obras cuja trama se desenvolve a partir da doideira geral provocada pelo vírus da covid-19 em 2020. O protagonista é um jovem gay obcecado em manter as medidas de segurança sanitária durante a pandemia, mas que não consegue sufocar seus desejos. Do cômico à fantasia lúdica, passando pelo drama, Leal constrói uma crônica que sintetiza de forma precisa e irônica as pulsões e os dilemas dos seres urbanos diante das muitas pandemias que os cercam. – AF.

Paloma
Filme

Uma notícia no jornal foi a fonte de inspiração para o cineasta Marcelo Gomes idealizar esse filme delicado e intenso sobre uma mulher trans cujo sonho é casar-se de véu e grinalda com seu companheiro. Vencedor do Festival do Rio 2022, Paloma, além de um excelente roteiro e uma direção impecável, conta com a brilhante interpretação de Kika Sena no papel de uma transexual negra, nordestina, agricultora e analfabeta que luta como pode contra a intolerância e o conservadorismo religioso. Imperdível. – AF.

Leia Mais
The Last of Us: adaptação da HBO imprime novos contornos, mas mantém-se fiel à proposta original do jogo