Criolo fez disco equilibrado e apostou alto em novos temas. (Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação.)

fez disco equilibrado e apostou alto em novos temas. (Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação.)

Com Convoque Seu Buda, o hip hop brasileiro toma rumo irreversível ao pop

Em um par de anos Criolo se tornou tanto uma celebridade quanto o nome mais conhecido do rap nacional. E soube aproveitar isso bem para trilhar um caminho que o trouxe até este Convoque Seu Buda, um trabalho sofisticado tanto na produção quanto na temática que serve como esponja do panorama político no Brasil atual. Ele perpassa eventos recentes como as manifestações de Junho de 2013 e toca em problemas históricos como a injustiça social com os negros e pobres e a violência policial.

Mas Criolo faz isso como um entendimento apurado do pop. Trabalhando novamente com Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, ele deu um passo além nas referências usadas no elogiado Nó Na Orelha (2011), que o alçou ao estrelato. Em Convoque Seu Buda ele trafega em um amálgama com o samba (“Fermento Pra Massa”), reggae (“Pé de Breque”), afrobeat (“Pague Pra Ela”, rock (“Fio de Prumo”), com um domínio suficiente para não tropeçar dentro desses estilos e se manter fiel ao seu rap. Outra mudança de rumo trilhada por Criolo desta vez é sua decisão em se equilibrar entre o pessimismo e a euforia, o que fez deste o seu disco mais leve até aqui, apesar dos temas pesados. É como se buscasse mais a conciliação e menos o enfrentamento.

E é assim que encontramos um Criolo que sabe até tirar onda de si mesmo ao citar a entrevista nonsense dada a Lázaro Ramos no ano passado quando ninguém entendeu bulhufas de sua linha de raciocínio (“Lázaro, alguém nos ajude a entender”), diz ele em “Cartão de Visita”, faixa com participação de Tulipa Ruiz. Citando blogueiras de moda e redes sociais, Criolo sabe muito bem para onde apontar e compreende que seu público está bem mais heterogêneo e distante da periferia onde galgou sua carreira. Como nome forte do pop nacional hoje, Criolo contou com um time renomado para formar o escopo musical do disco, o que inclui Kiko Dinucci na guitarra e Thiago França no saxofone.

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É um trabalho bem acima da média tanto no gênero quanto no panorama pop brasileiro hoje. Convoque Seu Buda não foge das questões sociais tão caras à Criolo, como quando ele fala sobre o crack de forma bem delicada, mas direta, em “Casa de Papelão”, mas aponta para novas temáticas como forma de dialogar com um público mais amplo. O messianismo a que se impôs também está presente no disco. E é por isso que diversas letras são permeadas por uma visão oblíqua e conservadora, sempre com um fundo moralista, ainda que discreto.

Após este terceiro disco, Criolo terá que se adaptar ao novo momento e saber lidar com as expectativas dos fãs que o acompanharam desde o início de sua carreira, nas rinhas MCs do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo. Já o pop brasileiro ganha um dos artistas mais completos e sofisticados em atividade. [Paulo Floro]

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Convoque Seu Buda
[Oloko Records, 2014]

Nota: 7,8

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