Foto: Roberto Jaffier/Divulgação.

O “novo banal” pandêmico e poético de Cida Pedrosa em Estesia

Autora une 40 textos e 40 fotografias relatando através da arte suas vivências e contemplações durante o isolamento social

O que um passeio com um pet pode proporcionar? No contexto dos bairros das Graças, Espinheiro e Aflitos, no Recife, uma trajetória certamente agitada, com barulho e movimento do trânsito, circulação de pessoas, clima tipicamente urbano de uma cidade grande. Uma programação cheia de banalidades para quem está habituado a tal. Porém, a chegada da pandemia da Covid-19 quebrou hábitos, rotinas, trajetórias e até mesmo esta noção de cotidiano, forçando a imersão na ideia de um “novo normal”, ou um “novo banal”.

O passeio com o pet ficou mais espaçoso pela diminuta circulação, o barulho do trânsito não era o mesmo, o silêncio de vida simbolizava o momento de isolamento físico e mental que pairava no período. Neste ambiente, Cida Pedrosa encontrou fôlego para escrever Estesia, publicado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), ao colocar em prática seu poder de observação, transformando a “nova banalidade” em poesia íntima e inédita.

Antes mesmo de abrir a sessão com os 40 textos que compõem a atual obra, Cida resgata a essência do lugar onde nasceu. A poeta de mais de dez livros publicados, advogada, divulgadora cultural e candidata a deputada estadual, vinda de Bodocó (PE), inicia conversando com o leitor sobre as heranças trazidas do interior, “onde a contemplação faz parte do cotidiano e o olhar está sempre pronto para o espanto, para a beleza, para a tristeza, para a vida e para a morte…”. Tal herança de contemplação é fio condutor de Solo para Vialejo, seu livro/poema publicado em 2019 também pela Cepe. Nesse, Cida versa sobre sua cidade natal de forma épica e lírica, com referências musicais, e memórias felizes e tristes revelando a terra como testemunha da vida, e sua vida como testemunha da terra. Ao render a autora o prêmio Jabuti 2020, tanto como livro do ano quanto como poesia, Solo para Vialejo comprovou a nível nacional o êxito da contemplação aliada à sensibilidade na arte de Cida.

Em Estesia a sensibilidade transborda e floresce num campo de melancolia e tensão existencial. A construção da obra rege um fluxo de textos aparentemente produzidos soltos, que juntos concretizam uma narrativa, uma espécie de diário de bordo das vivências durante o isolamento social. A partir dos passeios com o cachorrinho Bob Marley pelos bairros das Graças, Espinheiro e Aflitos, momentos dentro de casa, e ainda a inspiração no livro Haikai – Antologia e História (Paulo Franchetti e Elza Taeko Doi), Cida construiu um trunfo da contemplação, que além de exalar poesia, serve de registro para um momento histórico.

A palavra que dá nome a obra remete a capacidade de perceber o sentimento da beleza, transmitida nos textos que não passam de três estrofes e ao mesmo tempo bastam pela síntese empregada. Cida alia as sensações do isolamento com as cenas cotidianas do seu novo banal, como o pôr do sol triste, a flor que nasce no concreto e revela uma prisão de desejos, a dor em uma mantilha, a morte pela corrente encadeada, um copo quebrado, uma xícara, uma rua, um chão, um estabelecimento fechado, um bilhetinho de saudades e até mesmo o triste retrato de pessoas em situação de rua. Destaque do livro são as fotografias, que caminham com os poemas, complementando-se. Registros que dispensam o preciosismo, ou regras dos terços, com uma roupagem amadora. Num propósito de primeiro plano, vemos com os olhos da autora, pelos ângulos dela.

Compacto, curtinho e rico, Estesia merece uma leitura degustada, bem mais atenta, apreciadora, para que o leitor alcance e desfrute do nível de reflexão e contemplação a partir dos olhos, vivências e sentimentos pandêmicos de Cida Pedrosa.

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