Madonna, Michael Moore, Alicia Keys, Julianne Moore e Laverne Cox, bem como uma centena de artistas foram às ruas em dezenas de Marchas das Mulheres um dia depois da posse de à presidência dos EUA. Estimativas da organização dão conta de que esses eventos arregimentaram mais de 5 milhões de pessoas nos EUA, um número superior ao evento conhecido como “Inauguration“, que inicia o mandato presidencial ianque. Ao todo foram mais de 700 marchas em 60 países.

Essas manifestações já são, desde já, históricas e servem para mostrar a insatisfação de uma significativa parcela da população americana que não concorda com a agenda conservadora de Trump: um passeio por qualquer uma das marchas já deixava claro que a diversidade deu o tom e que os protestos eram um claro contraponto a uma América machista, xenófoba e racista imaginada pelo agora presidente. Trump, como esperado, ridicularizou essas manifestações, enquanto seu secretário de comunicação protagonizava o primeiro embate constrangedor com a imprensa.

Nas marchas, o tom era de energização mútua para enfrentar esses quatro anos. “O bem não ganhou nestas eleições, mas ganhará no final”, disse Madonna, emendando um caloroso palavrão ao vivo na CNN. “Estão prontos para agitar o mundo? Bem-vindos à revolução do amor”. Nesse espírito de emanar energias, Alicia Keys cantou “Girl Is On Fire” e disse em seu discurso que “nós [mulheres] não iremos permitir que nossos corpos sejam possuídos e controlados por homens”.

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Scarlett Johansson, que já tinha dado declarações duras contra Trump, reclamou da decisão do novo presidente em acabar com os fundos públicos à ONG Planned Parenthood (Parentalidade Planejada). “Há consequências muito reais e devastadoras à limitação do que devia ser considerado como acesso a cuidados básicos de saúde. Para milhões de americanos, a Planet Parenthood é, muitas vezes, a única clínica de confiança acessível para a garantir educação social, o aborto em segurança e serviços salva vidas”, disse em Washington. A cantora e atriz Janelle Monae fez um discurso incrível sobre diversidade e raça.

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Michael Moore, autor de Farenheit 11 de Setembro e um dos mais virulentos críticos dos EUA (e não só de Trump), disse: “diz-se que o presidente Trump jura acabar com a carnificina americana. Mas nós estamos aqui para jurar acabar com a carnificina de Trump”. Outros artistas também estiveram em palanques para protestar, entre eles as atrizes Laverne Cox, America Ferreira, a cantora Cher, entre outros. Um claro contraste à posse de Trump, um dia antes, esvaziada de gente famosa, desprestigiada do ponto de vista político e cultural e cercada de pompa vazia.

O ataque de Trump às artes

Dias antes da posse, artistas visuais, performáticos, atores e atrizes se organizaram em protestos e boicotes contra o novo presidente. Além de uma reação contrária à agenda de ódio a insatisfação também tinha uma ordem prática que afeta toda a categoria: o fim do subsídio governamental às artes no país.

Uma das promessas de campanha de Trump planeja cortar recursos do National Endowment For The Arts (NEA), um fundo que auxilia programas de arte e ajuda no fomento artístico em cidades pequenos nos EUA. Hoje o NEA tem 148 milhões de dólares, o que é praticamente nada em relação ao orçamento federal total que é de 3,9 trilhões. Os planos do novo presidente para a classe artística são bem duros. Segundo o Consequence of Sound, Trump planeja privatizar a NPR (National Public Radio) e a NBC, além de retirar dinheiro de fundos voltados para humanidades.

Artes visuais ao ataque

Artistas das artes plásticas iniciaram seus protestos pré-Marcha das Mulheres. O que causou mais repercussão até agora foi o de Richard Prince. O artista tinha vendido em 2014 um foto do Instagram de Ivanka Trump, transformado em arte por ele, por US$ 36.000. Segundo o New York Times o valor foi devolvido na íntegra. No Twitter Prince usou o estilo de Trump para rejeitar a obra “Não é meu trabalho. Eu não fiz. Eu nego. Eu denuncio. Isto é uma arte fake”.

Em entrevista ao Times, Prince disse que rejeitar a obra com Ivanka foi uma forma honesta de protesto. “Foi uma maneira de decidir o que era certo e errado. E o que é certo é arte e o que é errado não é arte. Eu decidi que os Trumps não são arte”.

Shepard Fairey, criado do icônico pôster HOPE da campanha de 2008 de Barack Obama, fez uma série de impressões que expressam a diversidade da América. Trabalhando ao lado dos artistas Ernesto Yerena e Jessica Sabogal, Fairey conseguiu 200 mil dólares através de financiamento coletivo para criar e distribuir os novos pôsteres.

Mas, artistas podem mesmo fazer diferença?

Gestos como o de Prince, bem como a participação de celebridades e astros em palanques nas marchas, podem mesmo fazer a diferença? Nossa opinião é que a arte não pode se calar. O site Hyperallergic realizou uma série de ensaios sobre o papel dos artistas em relação a esse atual momento e a importância do protesto conjunto de 120 museus e galerias que fecharam suas portas no dia da inauguração, o que ficou conhecido como #J20 Art Strike.

É interessante ler também o artigo da New Yorker sobre as consequências desse grande “NÃO” que as artes estão dando a Trump. Há um contraponto – um tanto virulento – escrito por Jonathan Jones no Guardian que chama de “fútil” esses posicionamentos e ações dos artistas. Para ele esses protestos apenas fazem com que os artistas se sintam melhor consigo mesmos.

Além desse debate todo, as marchas pelo mundo mostraram que o mandato de Trump não será tranquilo. Como milhões de pessoas queers, imigrantes, negros, mulheres e LGBTs deixaram claro, não iremos a lugar nenhum. (Teve marcha até na Antártida, como mostra o Autostraddle).

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