O Último Detetive – uma distopia cyberpunk em plena Amazônia

HQ chilena traz uma história policial passada em um América Latina unificada e futurista, mas é tímida em explorar esse universo

O Último Detetive – uma distopia cyberpunk em plena Amazônia

HQ chilena traz uma história policial passada em um América Latina unificada e futurista, mas é tímida em explorar esse universo

O Último Detetive – uma distopia cyberpunk em plena Amazônia
3.5

O ÚLTIMO DETETIVE
Geraldo Borges e Claudio Alvarez
Conrad, 96 pp, R$ 54,90. Tradução de Guilherme Kroll

Lançada originalmente em duas partes, a HQ O Último Detetive é uma das mais bem-sucedidas obras do quadrinho latino-americano e chega por aqui em um único volume pela Conrad. Lançada no Chile e no Brasil, o gibi tem roteiro do chileno Claudio Alvarez (El Gran Guarén, inédito por aqui) e desenhos do cearense Geraldo Borges, conhecido por seus trabalhos para a Marvel, como o título Wolverine e os X-Men, entre outros.

A trama se passa em um futuro distópico na Nova Amazônica, uma mistura de panamericanismo utópico e retrofuturismo, com toques de estética cyberpunk. Este continente unificado vem sendo ameaçado por uma nova droga, que proporciona ao seu usuário uma transformação radical, além de incrível beleza e prazer intensos, mas que é fatal. Após o barato, em uma semana, a pessoa morre de uma maneira bem bizarra, com os órgãos simplesmente explodindo.

Para lidar com esse problema, a polícia traz de volta o agente Joe Santos, um antigo investigador que abandonou a carreira após o fracasso de um caso que causou a morte de sua parceira. Este é o mote da HQ, que une elementos de quadrinhos de ação com uma narrativa sci-fi muito bem construída, além de ter um cuidado estético muito bem apurado e detalhado. Um trabalho de produção e edição que situa o gibi, em qualidade, ao lado das melhores obras do gênero nos quadrinhos.

O roteiro segue dois rumos em paralelo: mostrar o curso da investigação sobre a nova droga e as mortes que ela causa e o passado de Joe Santos, com as questões que o levaram a abandonar sua carreira. Em algum momento, esses dois eixos narrativos se encontram, o que leva a uma bem orquestrada narrativa que traz uma reviravolta ao final. Em meio a isso, os autores aproveitam para ambientar o leitor no mundo da Nova Amazônia, ainda que esse cenário tão tenha ficado tão bem delimitado. A arte e os designs pensados para dar vida àquele mundo trazem um impacto visual que impressiona, mas fica a impressão de que faltou trabalhar mais a parte conceitual para uma imersão maior nessa república unificada.

Essa falta de contexto histórico sobre a formação dessa América Latina cria alguns entraves na leitura. Por exemplo, não sabemos muito sobre o país mapuche, Wallmapu, que resistiu e não fez parte da nação panamericana. Sabemos também pouco sobre a divisão geopolítica, os idiomas e as relações entre as diferentes regiões – imagine o caldeirão cultural em um país como esse. Para dar conta de trabalhar melhor os conceitos do cenário, o gibi traz um interlúdio que simula uma edição de jornal que explora questões do país, mas é pouco.

HQ chama atenção pela produção sofisticada. (Divulgação).

A ordem social atual (e suas estratificações) também está pouco trabalhada na trama, o que é essencial para compreender as nuances em uma história policial que se alimenta desses atritos e tensões sociais.

A construção do personagem principal, Joe Santos, é também problemática. Ele preenche todos os estereótipos do herói machão já trabalhado à exaustão na cultura pop e sobretudo nos quadrinhos (Rambo, Justiceiro, Robocop, Cable, Exterminador, Nick Fury, Master Chief, etc, etc), e tal conceito já soa um tanto cansativo. O roteiro até tenta, através da exploração do passado de Santos, trazer complexidade e nuance ao protagonista, mas a narrativa fica muito refém de seu arquétipo e do motor criativo do gênero policial.

A impressão é que esse universo distópico tão pouco visto em histórias sci-fi – uma nação panamericana cyperbunk – talvez comporte personagens igualmente originais. O escopo dos outros personagens da trama também seguem soluções já bastante experimentadas, como o robô inteligente de personalidade forte e a chefe carrasca do departamento de polícia. A dinâmica entre Santos e sua parceira robótica, C-Cilia, no entanto, rende momentos bem divertidos.

O Último Detetive é uma HQ que impressiona por seu nível de qualidade técnica, com uma narrativa de ação de alto nível e uma trama que se baseia em um conceito muito interessante que pode render bons frutos. Falando ainda em produção, destaco ainda as cores de Arthur Hesli, que trazem personalidade à estética cyberpunk do gibi, e as letras, que na edição brasileira foram feitas por Lilian Mitsunaga.

Compre: Amazon.

Comprando através dos links aqui na Revista O Grito! podemos receber comissões pelas vendas. Isto ajuda a manter o site no ar.

Leia mais: Críticas de HQs

Leia Mais
Joe Ollmann fala sobre a HQ Pai de Mentira: “Um livro sobre um bom relacionamento entre pai e filho seria chato”