Foto: Reprodução/RaízesEAsas
Protestos contra machismo durante Marcha das Vadias (Foto: Reprodução/AcasaDeMaeJoana.Wordpress)
Protestos contra machismo durante Marcha das Vadias (Foto: Reprodução/AcasaDeMaeJoana.Wordpress)

O que você chama de “saia justa” eu chamo de estupro
O caso Gerald Thomas e a panicat Nicole Bahls tem a ver com o pensamento machista de que a mulher sempre é a culpada pela violência que sofre

Por Jéssica Barbosa

Circula na web nos últimos dias a imagem da gravação do programa Pânico, que contou com a participação da apresentadora Nicole Bahls e gerou polêmica e espanto por boa parte d@s internautas.

A imagem mostra Gerald Thomas, diretor de teatro, tentando enfiar as mãos por dentro do vestido de Nicole durante uma entrevista. O claro desconforto de Nicole, no entanto, não foi suficiente para que se interrompesse a gravação. Esta ausência de reação por partes das pessoas que participavam da gravação reflete aspectos de uma cultura perigosamente comum: a cultura do estupro.

A palavra estupro pode ser considerada forte para alguns, mas a conduta está prevista no Código Penal Brasileiro. De acordo com redação do art. 213 do CPB temos: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. Pela expressão “ato libidinoso” estão contidos todos os atos de natureza sexual, que não a conjunção carnal, que tenham por finalidade satisfazer a libido do agente.

Quando atos como esses, que infelizmente são comuns, acontecem as primeiras manifestações que são vistas são de que a mulher contribuiu de alguma forma para o ocorrido. No caso de Nicole, e sua posição de “PaniCat”, as alegações são ainda mais cruéis. “Ela estava pedindo” ou “Ela merece” são comentários comuns nas redes sociais quando na verdade se sabe que a culpa pelas agressões nunca é da vítima, mas sim do agressor. O maior exemplo disso foi a justificativa que Gerald Thomas deu para seu ato: “a mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal”.

A mídia, que reproduz em muito de seus canais de comunicação a cultura machista que vivenciamos, aborda a situação com naturalidade. A transformação do corpo da mulher como um produto vendável em comerciais e programas de televisão reflete claramente os valores da cultura patriarcal que vivemos, em que o corpo, a mente e as decisões das mulheres são objetos de controle frequentes. A propagação dessa cultura dá sustentação aos argumentos absurdos de que a violência deve ter sido provocada pela vítima. Infelizmente, esta inversão de culpa acaba por transformar homens em seres irracionais preparados para o ataque e mulheres em seres submissos, tendo que esconder suas expressões, seja na vestimenta, seja nos seus atos, para que não sejam considerados um convite ao estupro.

Foto: Reprodução/RaízesEAsas
Foto: Reprodução/RaízesEAsas

Em um estudo realizado com universitários americanos e publicados no livro Body Wars, Margo Paine expõe que 30% dos entrevistados responderam que estuprariam caso não houvesse consequências legais; 8% revelaram já ter estuprado ou tentado estuprar, e 83% concordaram com a expressão “algumas mulheres estão pedindo para ser estupradas”.

Dados como esse revelam que essa naturalização que ensina os homens atacar também gera consequências sérias nas vidas das mulheres. A naturalização do assédio que as mulheres sofrem faz com que muitas restrinjam suas liberdades em prol de uma falsa sensação de segurança. E a restrição aparece em orientações como não sair de casa a noite, não vestir determinados tipos de roupa, não andar sozinha por determinadas localidades.

A cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil¹. E você? Até quando vai se submeter a uma cultura de violência?

* Jéssica Barbosa é da equipe de Direitos das Mulheres, da ActionAid e o texto fez parte da rede Activista Brasil, rede colaborativa de jovens ativistas engajados na luta pelo fim da pobreza.

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