Por Paulo Floro, Alexandre Figueirôa, Rafaella Soares, Tulio Vasconcelos. Edição por Paulo Floro.

Arte da capa por Rogi Silva.

No ano em que ficamos isolados por grande parte do tempo, os quadrinhos certamente foram uma companhia importante.

Neste ano da peste, dos milhares de mortos pelo vírus e pelo descaso, as obras acabaram refletindo esse espírito do tempo. Porém, a diversidade foi enorme, indo do escapismo aos dramas históricos, passando pela aventura, terror e humor.

Em 2020 também vivenciamos o cancelamento dos eventos de quadrinhos, que são espaços tradicionais de circulação de obras independentes. Isso não significou uma completa escassez de trabalhos nacionais, que seguiram resistindo, mas certamente complicou a vida dos artistas, que dependem desses encontros para distribuir seu trabalho. Entre os destaques brasileiros este ano estão obras com ressonância social e inventividade no traço como as HQs de Jefferson Costa e Rafael Calça, Ana Luiza Koehler, Helo D’Ângelo, entre outros.

O mercado, no entanto, seguiu aquecido, com destaque sobretudo para as obras estrangeiras que ganharam edição no Brasil. Diversos autores importantes finalmente passam a constar no catálogo de editoras brasileiras, como Jason Lutes, Blutch e Carlos Giménez, além de novos autores aclamados como Simon Hanselmann, Chloe Cruchaudet e Nick Drnaso.

Separamos as 30 HQs publicadas no Brasil que se destacaram neste ano de 2020. A lista também encerra nossas atividades neste ano com o desejo de que o ano que vem será ainda mais incrível para toda a cena – quadrinistas, editores, livreiros e, claro, vocês leitores.

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Divulgação.

30
A Gangue da Margem Esquerda
De Jason

Editora Mino
Tradução: Dandara Palankof

Mais uma obra do finlandês Jason chegou ao Brasil em 2020 (a Mino lançou também o ótimo Eu Matei Adolf Hitler e Shhhhhh!). Conhecido por experimentar na narrativa e por explorar as possibilidades da linguagem dos quadrinhos, o autor agora reimagina grandes nomes da literatura como autores de HQs. Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce vivem na Paris dos anos 1920 e precisam batalhar para conseguir trabalho ao mesmo tempo em que discutem sobre a vida e o tempo nos cafés da cidade. Jason segue bastante inventivo na linguagem dos quadrinhos, apostando na fluidez dos seus nove quadros em todas as páginas. Leia nossa resenha. Compre: Amazon | Ugra Press | Mino


29
Arlequina – Quebrando Vidraças

De Mariko Tamaki e Steve Pugh

Panini Comics
Tradução: Dandara Palankof

Depois de anos como coadjuvante de segundo escalão de Batman, Arlequina foi embalada como uma das estrelas emergentes do panteão de personagens da DC Comics. Talvez o público esteja ávido por personagens mais contraditórios, com nuances. Ou talvez seja apenas suas aparições no cinema, com Margot Robbie emprestando seu carisma à anti-heroína. Puxado por essa popularidade, a HQ Quebrando Vidraças surpreende por trazer uma trama envolvente escrita por Mariko Tamaki (de Aquele Verão) imaginando a origem de Harleen Quinzel como uma jovem rebelde que encontra uma nova e afetuosa família. Acolhida pela drag queen Mama, a jovem passa a lidar com questões típicas da juventude ao mesmo tempo em que precisa lutar contra a gentrificação de seu bairro e e o preconceito contra a comunidade queer da qual faz parte. Parte do selo Teen da DC, a obra conta com um cuidado em relação à representatividade LGBTI+ pouco visto na indústria de comics.. Compre: Amazon | Panini


28
Destino Adiado

De Jean-Pierre Gibrat

Pipoca e Nanquim
Tradução: Denise Schittini

Nome importante do quadrinho francês, Jean-Pierre Gibrat ganhou sua primeira edição no Brasil. O trabalho de Gibrat neste livro, um dos mais conhecidos de sua carreira, impressiona pela construção da atmosfera do período, pela complexidade que ele dá aos personagens e pelo talento em construir a narrativa com diversos movimentos até o seu clímax. Acaba sendo, em um pano de fundo, uma narrativa sobre os absurdos da guerra e sobre a beleza do cotidiano. Sobre o desenho do autor nem há muito o que acrescentar: perfeccionista, seu traço traz personalidade a cada pincelada e suas aquarelas conseguem trazer dramaticidade à narrativa, desde um pequeno requadro até os belíssimos painéis. Leia nossa resenha. Compre: Ugra | Itiban | Amazon


27
Farol de Quebrada

De João Pinheiro

Instituto Moreira Salles

Em 2020 vários quadrinistas decidiram transpor para os quadrinhos angústias e sentimentos vivenciados durante a quarentena. Um exercício difícil esse de criar algo no meio dos acontecimentos, imersos na insegurança na maior pandemia dos últimos tempos. João Pinheiro (Carolina) refletiu sobre como o coronavírus afetou a vida na periferia neste gibi, que saiu como parte da iniciativa IMS Convida, em que artistas e coletivos desenvolveram projetos durante a quarentena. Pinheiro misturou realismo e metáforas visuais para falar sobre como o cotidiano da quebrada foi afetado com mais intensidade por conta dos problemas históricos de negligência. Leia a HQ completa no site do IMS.


Foto: Conrad/Divulgação.

26
Mundo Mulher

De Aminder Dhaliwal

Conrad
Tradução: Giu Alonso

Mundo Mulher, da cartunista canadense Aminder Dhaliwal foi um hit quando saiu originalmente no mercado norte-americano: seu humor cheio de sarcasmo fazia ressonância com questões sociais bem atuais, sobretudo o machismo, mas sem perder o tom divertido e ligeiro típico das tiras. Na verdade, a HQ, que foi publicada originalmente como uma série no Instagram, une o minimalismo das tirinhas com painéis coloridos bem bonitos que mostram a versatilidade estética de Aminder. A premissa é tão absurda quanto original: em um mundo pós-apocalíptico todos os homens foram extintos por uma doença misteriosa. Nesta nova realidade conhecemos um vilarejo que se reuniu sob a bandeira Coxas de Beyoncé. A graça da HQ é imaginar com compaixão e humor o mundo pós-homem como forma de comentar situações absurdas da nossa realidade patriarcal e obsoleta. Um bônus: a obra marcou ainda a volta da Conrad, importante editora de quadrinhos brasileira, que passou alguns anos em hiato e retornou em 2020 com vários títulos digitais e impressos. Compre: Amazon | Ugra


25
1984

George Orwell e Fido Nesti

Quadrinhos na Cia/Companhia das Letras
Adaptado da tradução de: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

A Companhia das Letras lançou mais uma ótima adaptação literária para os quadrinhos (no seu catálogo tem ainda o ótimo O Idiota, adaptado por André Diniz). No traço de Nesti, a distopia totalitária imaginada por George Orwell e lançada originalmente em 1949, ganhou rosto e contornos assustadores, com uma experiência de leitura que é potencializada pelo temor do fascismo que segue à espreita no Brasil e no mundo. O autor explora o seu estilo de desenho híbrido entre o cartunesco e o realista para criar a atmosfera necessária de terror e desolação futurista que sempre imaginávamos ao ler 1984. Para quem nunca leu o original, o gibi será igualmente impressionante por conta da construção detalhada dos cenários pensada por Nesti. Isso vai desde o design de prédios, maquinários, peças de propaganda e roupas, até texturas, clima e a atmosfera como um todo. Orwell é um autor já bastante descritivo, mas a visão de Nesti para aquele universo é bastante impressionante, com um resultado bastante vívido. Leia nossa resenha. Compre: Amazon | Companhia das Letras | Ugra


24
Reanimator

Juscelino Neco

Veneta

H.P. Lovecraft tomou a cultura pop de assalto (o hit da HBO Lovecraft Country é outra prova disso) e isso teve repercussões também por aqui. Mas poucas obras são tão ousadas ao se aproveitar das ideias do autor americano, que é tido como o mestre do terror. Baseado no conto de 1921, Herbert West – The Reanimator, esse gibi antropomórfico do paraibano Juscelino Neco conta a história malfadada de um cientista que tenta trazer os mortos à vida. O resultado acaba saindo do controle, pois os defuntos acabam renascendo como monstros canibais viciados em sexo. A HQ satiriza Lovecraft e toda a cultura trash em uma narrativa caótica e maximalista, com direitos a painéis detalhistas e escatológicos que parecem que estão, perigosamente, ganhando vida além dos limites da página. Compre: Veneta | Ugra | Amazon.


23
Tetris

De Box Brown

Mino
Tradução: Celio Cecare

Box Brown (autor de Cannabis), um dos mais importantes nomes da cena norte-americana de quadrinhos, ganha mais uma edição no Brasil com esse Tetris. O autor aposta em uma narrativa que mistura biografia com ensaio e suspense, além de fazer uso de criativas soluções visuais para contar a história. Com um incrível trabalho de pesquisa e diversas entrevistas, Brown conta a história do jogo Tetris, um dos mais populares videogames da história. Criado por Alexey Pajitnov na antiga União Soviética em 1984, o jogo acabou atraindo a atenção de corporações como Nintendo, Atari e Sega, o que acabaria mais tarde dando origem a uma intrincada trama geopolítica em plena Guerra Fria. A HQ ainda se destaca por conseguir traduzir o impacto que aquele joguinho de blocos legou à arte, cultura e economia. Compre: Amazon | Mino | Ugra


22
Bowie – Stardust, Rayguns & Moonage Daydreams

De Michael Allred, Steve Horton e Laura Allred

Panini Comics
Tradução: Fabiano Denardin e Érico Assis (extras)

Talvez não exista ninguém no mercado de quadrinhos mais capacitado do que Michael Allred para criar uma HQ sobre David Bowie. O autor de Red Rocket 7, deu vida à saga glam do músico nesta obra que revisita a fase Ziggy Stardust. O maior escopo de relevância desta biografia em quadrinhos é dar a ela a mesma dimensão imaginada por David Bowie em toda a sua carreira: uma fuga da realidade e uma ampliação febril de desejos e sonhos. Ao fugir do realismo e didatismo bastante característico de relatos biográficos, a HQ Bowie – Stardust, Rayguns & Moonage Daydreams se aproxima de maneira coerente ao personagem retratado em uma proposta cinematográfica e dinâmica explorando tanto a energia da música e do período retratado como as possibilidades da linguagem em quadrinhos. Leia nossa resenha. Compre: Panini | Amazon | Ugra.


21
Supermercadinho Brasil
Lobo Ramirez

Escória Comix

O selo Escória Comix, representante máximo do quadrinho alternativo brasileiro, se manteve bem ativo este ano, com diversos lançamentos. Mas o grande destaque foi este Supermercadinho Brasil, que traz uma espécie de lupa no que há de mais tosco e podre na sociedade brasileira de 2020. Em um mercadinho de bairro tipicamente brasileiro acontece o assassinato de uma criança. Quem é o culpado desse crime hediondo? No melhor estilo noir, o quadrinista Lobo Ramirez coloca como suspeitos dez pessoas que se encontravam dentro do acontecimento no momento do ocorrido. A nova HQ de Ramirez coloca uma lente de aumento nos tipos que vagam pelo Brasil e que, certamente, serão reconhecíveis aos leitores, como a senhora religiosa, o segurança racista, o policial violento e psicótico. Esses personagens, carregados no exagero, evidentemente, preenchem os estereótipos de uma sociedade que já não consegue dialogar. Leia nossa resenha. Compre: Escória Comix.


20
X-Men
: Potências de X / Dinastia X
De Jonathan Hickmann, R. B. Silva e Pepe Larraz

Panini Comics
Tradução: Mario Luiz C. Barroso

A reformulação de Jonathan Hickmann para a franquia dos X-Men devolveu aos mutantes da Marvel o protagonismo que havia sido perdido na última década. O roteirista fez isso aproveitando todo o legado de histórias e tramas para criar algo totalmente novo, como um verdadeiro e coeso reinício da série. A premissa principal foi criar bases criativas sólidas que possibilitaram narrativas sem as amarras da cronologia. Na verdade, Hickmann inventou sua própria cronologia nesta série que recupera o prazer de ler as histórias do grupo de heróis mutantes. Nesta nova fase, Professor X funda uma nova nação mutante e exige o reconhecimento de soberania pelas nações de todo o mundo. Em vez do tão antigo sonho de coexistência pacífica de humanos e mutantes, agora Xavier quer apenas paz e um lugar seguro para sua espécie. Complexa, a série não ignora o cerne do gibi, que é servir de analogia sobre preconceito racial, pertencimento e identidade, mas faz isso com uma preocupação grande em ser divertida enquanto gibi de aventura e ação. Um dos melhores trabalhos da Marvel em muito tempo e que conta com os desenhos incríveis de Pepe Larraz e do brasileiro R. B. Silva. A obra de Hickmann marca ainda um novo momento dos mutantes no Brasil, que ganharam um título quinzenal para reunir todas as histórias. Compre: Panini | Amazon.


19
Dementia 21

Shintaro Kago

Todavia
Tradução: Drik Sada

Um dos nomes mais inventivos do mangá atualmente, Shintaro Kago leva o gênero ero-guro (mistura de humor, erotismo e escatologia) a outras direções com esta obra. Dementia 21 traz críticas à sociedade japonesa, como o conservadorismo e a obsessão pela eficiência, que leva à exploração do trabalhador e também à depressão. Com alta dose de exagero, o mangá também lida com a saúde pública no Japão, suicídio e déficit habitacional, tudo dentro de um estilo bastante próprio do autor que já foi chamado de “paranoia elegante”. É um HQ que surpreende e que pode significar uma porta de entrada ao ero-guro para muitos leitores. Leia nossa resenha. Compre: Amazon | Todavia | Ugra.


18
Além de Palomar

De Gilbert Hernandez

Veneta
Tradução: Cris Siqueira

Além de Palomar reúne duas das mais elogiadas sagas sobre Palomar publicadas originalmente na revista norte-americana Love & Rockets, “Rio Veneno” e “Love and Rockets X”. Aqui, Gilbert abandona um pouco o misticismo das histórias para oferecer uma narrativa mais áspera e localizada, com um tom de suspense muito marcado. Quem leu os volumes anteriores, Sopa de Lágrimas (2016) e Diastrofismo Humano (2017), vai perceber a mudança de clima neste volume. O que permanece igual é a sensibilidade do autor em discutir questões pertinentes à identidade latina em toda sua complexidade. E também um olhar realista sobre política, e no caso deste livro, muito focado nos temas racismo, homofobia e violência. Leia nossa resenha. Compre: Veneta | Itiban | Amazon.


17
Arlindo

De Luiza de Souza @ilustralu

Independente

Que sorte termos uma HQ como Arlindo nos dias de hoje. A série da potiguar Luiza de Souza (a @ilustralu) certamente nos salvou em diferentes momentos de um ano difícil como 2020. É reconfortante ver uma HQ estrelada por um garoto nordestino e LGBTI+ alcançar tanta repercussão em um país ainda tão homofóbico como o Brasil. Com cores fortes e um desenho cheio de ritmo, Luiza nos apresenta um personagem muito carismático em meio às descobertas típicas da idade, como o primeiro amor. Tudo contado de maneira bastante honesta e repletas de momentos fofos, engraçados, angustiantes, emocionantes (pergunte a qualquer fã da série qual a parte em que chorou mais). Tal sucesso foi reconhecido pelo mercado e Arlindo vai ganhar versão impressa em 2021 pela editora Seguinte (selo da Companhia das Letras). Se tal feito já não fosse incrível o suficiente, a comunidade de fãs da HQ deu outra demonstração de força ao tornar a obra uma das campeãs de pedidos na pré-venda na plataforma Catarse. Vida longa à Arlindo. Leia no Twitter e compre na pré-venda.


16
Grama

De Keum Suk Gendry-Kim

Pipoca e Nanquim
Tradução
: Jae Hyung Woo 

A obra da sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim traz o relato de uma menina transformada em escrava sexual pelo exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. A autora teve o cuidado em dar conta da dimensão humana do relato e por isso há o uso de elementos mais subjetivos que conseguem expressar todos os sentimentos por trás daqueles acontecimentos. Não foi necessário, por exemplo, tornar ainda mais gráfica a crueza dos fatos, deixar explícitas as cenas de crueldade, estupro. É a narrativa que carrega o peso daquele horror absoluto vivido por Ok-Sun. As pausas e silêncios são preenchidas por belíssimos painéis pintados em nanquim que se estendem por várias páginas, como se desse tempo para o leitor absorver tudo aquilo que leu e processar tamanha dor. Com sua narrativa antiguerra, Grama traz uma importante mensagem sobre a importância da memória dos sobreviventes e da reparação histórica. Leia nossa resenha. Compre: Amazon.


15
Berlim

De Jason Lutes

Veneta
Tradução: Alexandre Boide

Este épico de Jason Lutes de quase 600 páginas preenche uma lacuna importante na biblioteca básica de grandes obras dos quadrinhos publicadas no Brasil (ao lado de Maus, Persépolis, Watchmen, entre outras). Indicada ao Eisner e Harvey Awards, Berlim acompanha a ascensão do nazismo em uma das cidades mais cosmopolitas da Europa no século 20. O retrato que o livro faz da cidade consegue dar conta da complexidade social que deu origem a um dos períodos mais conturbados e autoritários da história da humanidade. Lutes conta esses acontecimentos a partir de um grupo de personagens berlinenses de diferentes estratos sociais, que acompanham a decadência da cidade e o fim da liberdade e criatividade conforme o nazismo avança. É um registro poderoso sobre a importância de se estar atento ao fascismo que segue à espreita em diferentes partes do mundo. Compre: Veneta | Amazon | Ugra.


14
Informe Sobre Cegos

De Ernesto Sabato e Alberto Breccia

Figura
Tradução: Rodrigo Rosa

2020 foi um ano excelente para descobrir (e redescobrir) autores de outros países latinos. Diversas obras clássicos que seguiam inéditas por aqui passaram a ganhar edições cuidadosas. É o caso deste Informe Sobre Cegos, mais um trabalho de Alberto Breccia (Mort Cinder) que chega por aqui. Baseado em um fragmento da obra de Ernesto Sabato, Sobre Heróis e Tumbas, este gibi conta a história de um homem que acredita que os cegos formam uma sociedade secreta nos subterrâneos de Buenos Aires com planos de dominar o mundo. Alimentado por esta paranoia, ele decide investigar essa trama maligna, apesar de todos os perigos. A arte de Breccia, que aqui ganha contornos expressionistas, está ainda mais experimental, com uso de pinturas e colagens para dar conta da atmosfera de obsessão e delírio vivida pelo protagonista. Compre: Figura.


13
Paracuellos

De Carlos Giménez

Comix Zone
Tradução: Jana Bianchi

Paracuellos, do espanhol Carlos Giménez, é um daqueles clássicos incontestes do quadrinho europeu. Apesar de sua influência e relevância cultural, a obra só ganhou edição por aqui em 2020, pela Comix Zone (que, inclusive, vem fazendo um excelente trabalho ao publicar diferentes autores importantes em língua espanhola). Esta HQ faz um retrato do abandono infantil e tempos duros da Espanha franquista do pós-guerra. Transitando entre o humor e o drama, a obra tem ainda mais impacto ao ser lida neste contexto depressivo do Brasil flertando com o fascismo. Giménez é um dos quadrinistas mais humanistas de sua geração e tem uma obra muito marcada por uma preocupação com questões sociais. Compre: Amazon


12
Prof. Fall

De Ivan Brun e Tristan Perreton

Veneta
Tradução: Maria Clara Carneiro

Misto de relato documental com narrativa de terror psicológico, esta HQ é uma das mais dolorosamente densas lançadas em 2020. Prof. Fall, de Ivan Braun e Tristan Perreton é uma HQ que traz o difícil reencontro com nossas raízes violentas. Uma leitura que resume o mal-estar contemporâneo que é estar tropeçando em séculos de horror e barbárie. O gibi começa como uma narrativa sobre Michael, um homem que entra em uma espiral de depressão após presenciar o suicídio de um ex-mercenário que atuava na África. Mas desbanca para uma busca meticulosa sobre o passado colonial e todo o racismo, machismo e exploração que isso enseja. Leia nossa resenha. Compre: Veneta | Amazon | Ugra.


11
Degenerado

De Cholé Cruchaudet

Nemo
Tradução: Renata Silveira

Vencedor do Festival de Angoulême em 2014, esta obra de Chloé Cruchaudet chega finalmente ao Brasil. Baseado no livro La Garçonne et l’assassin, de Fabrice Virgili e Danièle Voldman, a HQ acompanha a vida do casal Paul e Louise na Paris dos anos 1910. Depois de desertar do exército francês na Primeira Guerra Mundial, Paul decide se tornar Suzanne para tentar viver clandestinamente. Porém, a confusão de gênero e o trauma da guerra acaba levando a uma jornada de descobertas sobre sua identidade. Mas é no pano de fundo da Paris do início do século – com tensões sociais cada vez maiores e o início da decadência dos valores puritanos europeus – que a obra brilha com mais intensidade. Cruchaudet tem um traço bastante fluido, porém dramático, o que ajuda a adentrar naquele clima de conturbado de Louise e sua companheira travesti. A autora também usa sua sensibilidade para imaginar pedaços da história real que ficaram em aberto quando o caso chegou ao público. Compre: Nemo | Amazon.


10
Fogo Fato

De Aline Lemos

Independente

Em um ano complicado de quarentena, pandemia e falta de perspectivas, a mineira Aline Lemos lançou uma HQ que explora um sentimento oposto ao isolamento: o direito à cidade. Fogo Fato fala de Limiar, uma cidade em intenso processo de industrialização que é governada por um governo autoritário e tecnocrata. Pra completar, a sociedade precisa lidar com a enorme população de fantasmas que andam livres e causam conflitos. No meio disso tudo temos a história de um casal de hackers, Cris e Mina (esta última uma fantasma), que investigam misteriosos incêndios criminosos que atingem os cemitérios da cidade. Misto de ficção científica, fantasia, humor e drama político, esta nova obra de Lemos tem a vivacidade da resistência e traz um subtexto bastante forte sobre liberdade e ocupação dos espaços. Explorando a estética cyberpunk, a obra busca experimentações na narrativa e mostra um domínio grande da autora em explorar, através do desenho, a relação dos indivíduos com a cidade. Leia nossa resenha. Compre: Ugra.| Itiban.


09
Isolamento

Helô D’Angelo

Independente

Charges e cartuns estão entre os registros históricos mais ricos que existem. São feitos no calor dos acontecimentos e servem como um olhar honesto dos sentimento e pensamentos de determinados períodos. Diversos autoras e autores criaram obras inspirados pelo isolamento social do novo coronavírus, mas Isolamento, de Helô D’Ângelo é certamente um dos mais interessantes. Lançado como uma série no Twitter da artista, os quadrinhos traduziram diversas fases pelas quais passamos durante a pandemia – do desespero à melancolia, passando pelo tédio, delírios coletivos e estresses diversos. Helô aproveitou ainda para discutir questões políticas – a partir desse microcosmo da clausura – como a proliferação de fake news e a inabilidade do governo de lidar com a crise. Tudo com uma arte cheia de ritmo e cores lindas. Daqui há anos no futuro, certamente será um documento poderoso desse ano da peste. Veja a série.


08
A Grande Odalisca

Bastien Vivès, Florent Ruppert e Jerôme Mulot

Pipoca e Nanquim
Tradução: Érico Assis

As aventuras das ladras de obras de arte Alex e Carole nesta série dos autores franceses Bastien Vivès, Florent Ruppert e Jerôme Mulot estão entre as coisas mais divertidas e escapistas lançadas nos quadrinhos este ano. O domínio do trio na narrativa de ação e o uso do humor com sagacidade fazem desta obra uma HQ incrível sem que fosse necessário mexer um centímetro do que temos de mais básico em termos de linguagem dos quadrinhos. O que este gibi faz muito bem é desconstruir as típicas histórias de assalto ao trazer um roteiro que não se leva a sério e que conta com personagens muito carismáticas. Neste primeiro tomo, as protagonistas tentam roubar a famosa obra “A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres, que está no Museu do Louvre, em Paris. Diversão garantida. Leia nossa resenha. Compre: Ugra | Amazon.


07
Beco do Rosário

De Ana Luiza Koehler

Veneta

As cidades são organismos vivos cuja evolução refletem muito sobre nossa evolução enquanto sociedade. Isso fica muito evidente nesta HQ de Ana Luiza Koehler, Beco do Rosário, que ganhou uma versão definitiva em 2020 pela Veneta (o gibi foi também selecionado pelo Rumos Itaú Cultural). A obra acompanha a modernização de Porto Alegre nos anos 1920 a partir da história de três personagens: Vitória, uma aspirante a jornalista que mora em um beco prestes a ser demolido; Teo seu amigo de infância, que volta de uma temporada na Europa para se tornar engenheiro da cidade e Fabrício, um jovem artista negro que não consegue ver seu trabalho valorizado. A partir desse processo de mudança baseado em um desejo de se “europeizar”, vemos como a estrutura racista e classista opera em diferentes níveis na evolução urbana, muito marcada pela desigualdade social. Além de uma trama bem construída repleta de ótimos diálogos, Koehler traz ainda um desenho meticuloso, rico e lindamente ilustrado em aquarela. Mas o que torna Beco do Rosário ainda mais relevante é o trabalho de pesquisa histórica realizado pela autora, fruto de seu trabalho de mestrado no Programa de Planejamento Urbano e Regional da UFRGS. Um lindo encontro da Academia com as histórias em quadrinhos. Compre: Veneta | Amazon | Ugra.


06
Graphic MSP: Jeremias- Alma

De Rafael Calça e Jefferson Costa

Panini Comics

Com Jeremias – Pele, os autores Rafael Calça e Jefferson Costa fizeram história em 2018. Além de serem a primeira HQ de um personagem negro da Turma da Mônica a ganhar destaque na série Graphic MSP, eles ainda levaram o Jabuti de melhor quadrinho. Nesta continuação, Jeremias – Alma, os autores seguem dando vida ao carismático Jeremias, mas agora lançam um olhar ainda mais ampliado em seu entorno, com destaque para os seus pais e avós. A obra coloca o protagonista em uma trama envolvente sobre ancestralidade para discutir questões importantes como racismo, apropriação cultural e pertencimento. O gibi discute ainda as contribuições culturais que personagens negras e negros deixaram em nossa história e que precisam ser enaltecidos. Assim como Jeremias que, em determinado momento da história, questiona seus pais com “gente negra já fez alguma coisa importante?”, nós também nos deparamos com um mundo rico e ainda pouco conhecido do brilhantismo das mentes negras e suas contribuições para o Brasil e o mundo. Além do roteiro e da narrativa envolventes, os desenhos de Costa seguem com o dinamismo e fluidez que parecem se movimentar sozinhos. Com os capítulos Pele e Alma, os autores entronizam de vez Jeremias como um dos mais relevantes personagens dos quadrinhos brasileiros. Compre: Panini | Amazon.


05
Mau Caminho

De Simon Hanselmann

Veneta
Tradução: Diego Gerlach

O australiano Simon Hanselmann finalmente chegou ao Brasil em 2020 depois de fazer sucesso como um autêntico representante do quadrinho underground na geração atual. Mau Caminho é uma comédia cínica estrelada por uma bruxa depressiva e povoada de tipos esquisitos como um lobisomem traficante e um gato maconheiro. Vivendo em meio à total desolação e falta de perspectivas de vida, o que essa trupe quer é encontrar maneiras de fugir da realidade através de drogas, sexo e programas de TV ruins. A trama traz no humor um olhar sarcástico sobre uma geração egocêntrica e desiludida. Mas é no roteiro e no desenvolvimento dos personagens que Hanselmann brilha: ao final da leitura é impossível não querer acompanhar ainda mais a vida daqueles seres, como num reality show. Ele também traz um experimentalismo no desenho, apostando em cores e materiais pouco usuais, como aquarela misturada com tintura de cabelo e corantes alimentícios. O resultado é um impacto visual esquisito que parece deslocado do tempo. Compre: Veneta | Ugra | Amazon.


04
Sunny Vol. 1

De Taiyo Matsumoto

Devir
Tradução: Arnaldo Oka.

O mangaká Taiyo Matsumoto (Preto e Branco) é um dos nomes mais celebrados no mangá no mundo (venceu o Eisner, o Japan Media Arts e ganhou uma exposição individual no Festival de Angoulême). Sunny é seu trabalho mais pessoal, pois traz traços de autobiografia ao falar de um grupo de crianças e adolescentes vivendo em um abrigo para menores no Japão. Enquanto lidam com questões como insegurança, medos e descobertas, esses jovens constroem uma amizade que, além do afeto e da companhia, os ajudam a sobreviver. Os personagens da história sonham e dão asas à sua imaginação dentro de um velho carro cor de mostarda, a que dão o nome de Sunny (daí o nome da obra). É uma narrativa bastante melancólica no tom, mas que traz de maneira muito autêntica eventos típicos da infância, contados aqui da maneira mais realista possível. Não há uma trama principal nesta obra, que se destina a a acompanhar a rotina daquelas crianças acolhidas e, volta e meia, fazer um mergulho breve na história pessoal de cada uma. Matsumoto disse que 70% da obra é baseada em suas próprias experiências vivendo em famílias de acolhimento, o que faz desse gibi um registro comovente e verdadeiro sobre solidão e esperança. Compre: Ugra | Amazon.


03
A Solidão de Um Quadrinho sem Fim

De Adrian Tomine

Nemo
Tradução: Érico Assis

Autor de Intrusos, o quadrinista americano Adrian Tomine é um dos nomes mais celebrados dos quadrinhos atualmente. Mas esse renome não reflete, necessariamente, reconhecimento e fortuna à altura do seu talento. Daniel Clowes, outro artista famoso, autor de Wilson e Ghost World, disse que ser um dos mais conhecidos quadrinistas “é como ser o jogador de badminton mais famoso do mundo”. A frase aparece na epígrafe deste A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, que a Nemo lançou este ano no Brasil com o mesmo formato americano, com uma encadernação que simula um caderno de desenhos. Tomine usa doses iguais de sarcasmo e honestidade para falar do seu processo criativo, inseguranças, medos e, claro, solidão. Ele disseca momentos reais vividos na carreira, como a relação complicada com a crítica, a comparação com outros artistas, além de diversas passagens de vergonha alheia. Mas, ao contrário do que seu mote pode indicar, o gibi acaba se tornando bem mais do que o diário de decepções do autor. Como o reconhecimento de Tomine chegou quando ele já estava casado e com duas filhas, o livro é também um retrato honesto das dificuldades da vida adulta. Ao fim, vemos que Tomine transforma sua trajetória para algo bem mais robusto e aprofundado do que uma pura e simples comédia de erros. Suas linhas soltas e o equilíbrio que demonstra entre o estilo cartunesco e o realismo potencializam a sua narrativa. Compre: Nemo | Amazon | Ugra


02
Péplum

De Blutch

Veneta
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

Uma das obras mais importantes do quadrinho francês finalmente chegou ao Brasil em 2020. Péplum conta a trajetória de um patrício romano e sua jornada para levar uma misteriosa mulher congelada de volta à Roma. Blutch não é um autor óbvio e didático e sua narrativa não traz nenhuma mensagem edificante ou alentadora. Ao contrário, sua exposição da natureza humana chega a soar cruel, pois é colocada de forma explícita, sem filtros. Além disso, os personagens da HQ parecem viver no limite, sempre levando os sentimentos ao extremo, como se todos os atos fossem válidos para se atingir o estado sublime da existência, do amor. A arte de Blutch é igualmente brutal. Seu traço é duro, porém fluido, o que traz uma expressividade que serve para traduzir o suplício psicológico de seus personagens, sempre no extremo de suas sanidades. O domínio de Blutch para as possibilidades narrativas do quadrinho é também impressionante. Cada requadro, além de servir como elemento de justaposição que dá sentido à história, é também, isoladamente, um espaço de expressão artística único, com uma força isolada. Aqui a nossa resenha completa. Compre: Veneta | Ugra | Amazon.


01
Sabrina
De Nick Drnaso

Veneta
Tradução: Érico Assis

A obra de Nick Drnaso já tinha conquistado espaços importantes para um quadrinho (indicação ao Man Booker Prize, bestseller) quando ganhou publicação no Brasil. Mas o livro acabou novamente reverberando o contexto sociopolítico que é trabalhado pela obra. Com o uso de tons pastéis e um domínio impressionante da cadência e ritmo da linguagem dos quadrinhos, Drnaso criou uma obra fantasmagórica sobre a era da pós-verdade. Sabrina narra o desaparecimento da jovem que dá nome ao livro e as repercussões desse evento na vida das pessoas. Mas é em seu pano de fundo que Sabrina se torna brilhante (e assustadora). A morte da protagonista se torna o mote para diversas fake news e teorias conspiratórias, que acabam perturbando a vida dos personagens diretamente ligados ao acontecido. Mas a disseminação desse tipo de conteúdo também cria um clima de terror social, que leva o público a uma espiral de confusão e angústias: o que é real e o que é verdadeiro em um cenário em que fatos são relativos? O trabalho de Drnaso se destaca por ter o discernimento de colocar a pós-verdade como o verdadeiro terror do mundo atual. Ler Sabrina em um Brasil isolado, com uma política indiferente à realidade e assombrado por mais de 180 mil mortos por Covid-19 é um tanto desesperador. Mas desperta no leitor a lucidez necessária de reconhecer a crise de sentido em que estamos metidos. Leia nossa resenha completa. Compre: Ugra | Amazon | Veneta.


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