Os Melhores quadrinhos de 2022

As HQs que marcaram o ano que passou. Estão na lista nomes como Paulo Crumbim, Powerpaola, Brecht Evens, Verônica Berta, Paulo Moreira e Fabien Toulmé

Edição: Paulo Floro. Textos de Paulo Floro, Alexandre Figueirôa e Laura Machado.

Entra ano e sai ano e esta lista de melhores quadrinhos lançados no Brasil se torna cada vez mais difícil. Chega a ser angustiante, pra falar a verdade. Em ano de FIQ, a situação fica ainda “pior” (no bom sentido), dado o aumento do número de títulos para acompanhar as feiras. Essa lista é também o momento de reforçar a importância que o quadrinho tem na cobertura que fazemos aqui na Revista O Grito!.

Nos orgulhamos, sem falsa modéstia, de colocar as HQs, sobretudo a HQ brasileira, em primeiro plano no nosso projeto editorial. O jornalismo cultural só tem a ganhar ao dar a atenção devida à produção artística dos quadrinhos. Como podemos ver nesta lista, as obras discutem temas atuais, como ativismo político, saúde mental, o mundo pós-pandemia, relacionamentos queer, questões identitárias, memória, racismo, entre outros. Há também muito espaço para experimentações na linguagem, o que mostra como as HQs podem ainda abarcar inovações na narrativa, das mais diferentes maneiras.

Com a já tradicional ressalva de que muita coisa (muita coisa mesmo) ficou de fora, segue abaixo a lista com as 30 melhores obras de quadrinhos lançadas no Brasil.

PS: As HQs lançadas no projeto HQ de Fato, de Jornalismo em Quadrinhos, editadas pelo O Grito!, ficaram de fora por razões óbvias (são obras da casa). Mas recomendamos fortemente a leitura. Ano que vem tem mais!

PS2: A Plaf Apresenta 1, a primeira antologia de quadrinhos ligada à revista Plaf, também não está presente. Trata-se do primeiro livro que lançamos e conta com nove HQs inéditas e uma capa incrível de Rogi Silva. O pré-lançamento aconteceu na CCXP e já pode ser encontrado na Ugra em SP e em janeiro em nossa loja oficial e em vários pontos de venda.

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30
Suzette – Ou O Grande Amor
Fabien Toulmé

Nemo | Tradução de Fernando Scheibe

Dono de obras como Duas Vidas e a série A Odisseia de Hakim, o francês Fabien Toulmé coloca no mundo mais uma obra cujo principal mote é a jornada (literal e subjetiva) de seus personagens. Nesta singela, porém poderosa, HQ, acompanhamos Suzette, uma senhora de 80 anos que acaba de perder o marido. Sua neta, Noémie, a convence a embarcar em uma viagem em busca do seu amor da juventude. No caminho, as duas viverão experiências de auto-descobertas que mudarão suas vidas para sempre. O talento de Toulmé em criar personagens cheios de nuances e diálogos fluidos segue em alta por aqui. Compre.

Leia mais: Fabien Toulmé ecoa drama dos refugiados em A Odisseia de Hakim


29
Corso
Danilo Beyruth

Comix Zone

A força narrativa de Danilo Beyruth está mais do que provada. Seja misturando histórias de cangaço com zumbis (Bando de Dois), suspense noir com terror (Necronauta) ou remixando referências do sci-fi em trabalhos como Astronauta: Magnetar, o autor consegue envolver o leitor em sua ambientação no avançar de poucas páginas. Corso, sua nova aventura espacial, faz uso de animais antropomorfizados para contar uma aventura que envolve uma guerra planetária, intrigas, e, claro, muita aventura à moda antiga. Beyruth se apropria com inteligência de clichês do gênero para trazer sua própria visão nesta história que reverencia nomes clássicos como Carl Barks e Don Rosa. | Compre.

Leia Mais: Danilo Beyruth e a reedição do clássico Bando de Dois


28
Barrela
João Pinheiro (adaptação) e Plínio Marcos (texto original)

Brasa Editora

Uma das obras mais explosivas e inventivas do teatro brasileiro ganha nova vida na linguagem dos quadrinhos. Do texto publicado por Alexandre Figueirôa em sua crítica: “A adaptação do texto teatral para a linguagem dos quadrinhos é sempre um desafio, sobretudo se pensarmos que a ação de Barrela transcorre totalmente numa cela e que concentra sua força narrativa nos diálogos entre os protagonistas. Esse possível obstáculo, contudo, é transposto por João Pinheiro sem problemas. Coautor de Carolina (2016) e do álbum Burroughs (2015), ambos publicados também na França, Pinheiro levou para esse seu novo trabalho uma disposição visual que privilegia os planos médios e próximos para enfatizar a expressividade dos personagens. O desenho revela os sentimentos que eles carregam onde ódio, cinismo, sadismo e desesperança se misturam e coloca o leitor diante de um cenário de violência incontornável. Ele é, sem dúvida, duro e cruel, porém não trai um dos aspectos o qual o texto de Plínio Marcos evoca: a desumanização das relações entre as pessoas quando quem comete erros, sofre traumas ou é vítima de desajustes sociais é tratado apenas como dejeto – infelizmente o quadro que encontramos no sistema carcerário brasileiro – e não alguém com capacidade de se redimir de suas faltas.”. Compre.

Leia mais: Barrela expande obra de Plínio Marcos para as HQs


27
Nem Todo Robô
Mark Russell, Mike Deodato Jr.

Comix Zone | Tradução de Érico Assis

Em um futuro não muito distante, os robôs substituíram os humanos em praticamente todos os trabalhos. Neste futuro distópico, a sociedade caminhou para um estado de neurose permanente, em cidades isoladas. Mark Russell faz uma sátira ácida sobre questões existenciais da humanidade e o nosso possível futuro a partir da relação do robô Razorball e os humanos da família Walter. O robô doméstico passa a maior parte de seu tempo criando máquinas secretas na garagem, o que aumenta a tensão com a família, que está convencida de que serão assassinados a qualquer momento. Com desenhos de Mike Deodato, aqui com um traço sóbrio, altamente detalhado e com muita textura e profundidade, a HQ lança ainda uma luz sobre a falência do patriarcado. | Compre.


26
Fade Out
Ed Brubaker (texto) e Sean Phillips (arte)

Mino | Tradução de Dandara Palankof

A parceria de Ed Brubaker e Sean Phillips se tornaram um espaço já consolidado dentro dos quadrinhos do que seria uma excelência nas histórias de crime e suspense. A Mino vem sendo a casa dessa dupla prolífica, que tem no currículo HQs do universo Criminal e a série Matar ou Morrer (todas publicadas por aqui em edições bem cuidadas e ótimas traduções). Mas vale destacar Fade Out, HQ de fôlego que traz uma trama ambientada na Era de Ouro de Hollywood sobre o misterioso assassinato de uma estrela em ascensão. Usando todos os marcadores típicos desse tipo de história, Brubaker consegue encontrar novas perspectivas e elementos para trazer um frescor ao gênero, ao mesmo tempo que faz um bom uso de reviravoltas e excelentes diálogos. | Compre.


25
Naukan
Thiago Souto

Ugra Press

Thiago Souto, autor de Labirinto e Time Lapse, se aventura em uma narrativa sustentada pelos detalhes e, sobretudo, pelos silêncios. Com um incrível domínio do preto e branco, Souto nos apresenta um homem solitário que pinta sem parar, com obstinação. Do quadro sai o retrato de um homem com um olhar pesado. Ele então talha um número e afixa o quadro na parede. Com essa premissa misteriosa somos levados a descobrir pouco a pouco sobre esse misterioso ser, que vive em um recôndito distante e gelado. Com uma narrativa muito segura, Souto mais uma vez mostra o domínio que possui da linguagem das HQs nesta que é sua sobra mais intrigante. | Compre.


24
Harvi #1 (antologia)
Amanda Miranda, André Ota, Bruno Guma,Cecilia Marins, Edson Bortolotte, Gustavo Nascimento, Helô D’Angelo, João B. Godoi, Lalo, Luli Penna, Lume, Mayara Lista, Paula Cruz, Rogi Silva, Vitorelo

Selo Harvi

Harvey Pekar, ícone do quadrinho independente norte-americano, serviu de inspiração para a antologia Harvi (que é também um selo independente de publicações). Assim como Pekar, os autores e autoras desta primeira edição se dedicam a trazer relatos pessoais a partir de acontecimentos aparentemente prosaicos, banais. Com isso conseguem alcançar uma nível de conexão com os leitores que só é possível a artistas com sensibilidade e talento para criar histórias que se equilibram brilhantemente na dicotomia pessoal/universal. É o caso dessa HQ, que traz nomes como Aline Zouvi (também autora da capa), Amanda Miranda, Bruno Guma, Lume, Paula Cruz e André Ota. | Compre.


23
Princesa de Areia
Verônica Berta

Independente

Qual o impacto do olhar exterior sobre nós? Até onde nos dispomos a ir em busca dessa validação? Verônica Berta, autora de Ânsia Eterna, lança essas questões em sua mais nova obra Princesa de Areia, que traz três histórias curtas que exploram o realismo fantástico em uma narrativa que fica no meio do caminho entre o drama e o ensaio. Um trabalho bastante emotivo que discute temas sérios como aceitação, autoestima e pressão que vivemos nas redes sociais hoje em dia. O traço de Berta, com seu incrível domínio do preto e branco em suas diferentes nuances e tons, é também um ponto alto dessa obra curta, mas impressionante. | Compre.


22
O Menino Rei
Felipe Pan, Olavo Costa e Mariane Gusmão

Nemo

O trio responsável por Gioconda (elogiada HQ finalista ao Prêmio Jabuti), Felipe Pan, Olavo Costa e Mariane Gusmão, retornam em mais uma obra que une elementos históricos com uma pesquisa aprofundada e uma narrativa bastante imaginativa. Desta vez o trio nos transporta para o Egito Antigo, mais precisamente para a crise que marcou a 18ª dinastia. O reino de Kemet vive uma ebulição política depois que o rei Akhenaton decide deixar os antigos deuses de lado para cultuar um único deus, Aten. Após sua morte, seu filho Tutankhaten, precisa decidir se descarta o legado do seu pai ou se enfrenta uma poderosa elite política que quer lhe tirar o trono. Aventura histórica das boas. | Compre.

Leia mais: Uma história de amor não convencional na HQ Gioconda.


21
Bom Dia, Socorro
Paulo Moreira

Conrad

Paulo Moreira já tinha provado seu talento de fazer humor com situações cotidianas com um forte sotaque nordestino. Seja colocando pokemóns enfezados para brigar, seja imaginando discussões entre astros do sistema solar, as tiras do artista paraibano fazem sucesso online. Bom dia, Socorro, é uma compilação de tiras publicadas no Twitter que transfere as conversas do WhatsApp para uma arena de luta no estilo mangá Shonen. Como todo brasileiro praticamente mora dentro do aplicativo, é impossível não se sentir representado nesta obra. | Compre.

Leia mais: Bom Dia Socorro diverte ao mostrar o WhatsApp como arena de luta do Brasil atual.


20
Alack Sinner – A Era da Inocência
Carlos Sampayo e José Muñoz

Pipoca e Nanquim | Tradução de Jana Bianchi

Em uma época em que os clássicos dos quadrinhos ganham as prateleiras dos colecionadores, Alack Sinner, dos argentinos Carlos Sampayo e José Muñoz sempre foi uma das obras mais aguardadas. A série cult se apoia nas referências do noir, do cinema norte-americano, para criar uma narrativa sombria que tece comentários ácidos sobre a sociedade. A trama apresenta aventuras de Alack Sinner, um policial que abandona a instituição para atuar como detetive particular. Cansado da corrupção policial, do racismo da corporação e de crimes cometidos em “nome da lei”, ele é um anti-herói que trava crises existenciais enquanto lida com seus casos. Esse primeiro volume (de dois no total) traz onze histórias que mostram a origem do personagem, do seu abandono da polícia até os primeiros casos. Cínico, porém com um forte senso ético, Sinner se coloca sempre à disposição de ajudar os tipos mais vulneráveis. Esta obra de Sampayo e Muñoz faz um incrível uso do preto e branco que se tornou referência para indústria, influenciando diferentes artistas. Uma obra que envelheceu bem e segue ainda ressoando, em toda sua potência criativa, até os dias de hoje. | Compre.


19
Bully Bully
Bruno Guma e Yuri Moraes

Darkside

Essa HQ silenciosa mostra o impacto que acontecimentos vivenciados na infância têm na formação da nossa identidade e no que fazemos das nossas vidas. Com toques de realismo fantástico, a HQ de Bruno Guma e Yuri Moraes acompanha a história do protagonista em três momentos diferentes de sua vida, na infância, na juventude, e já adulto, aos 33 anos. Com bastante sensibilidade, os autores montam o mosaico de eventos e emoções que marcarão o personagem em seu crescimento. Com influências de nomes como Charles Burns e Daniel Clowes, Bully Bully é uma obra que mostra o poder das cicatrizes da violência em nossas vidas. | Compre.


18
Made In Korea
Jeremy Holt e Gegê Schall

Conrad | Tradução de Dandara Palankof

Made In Korea, à primeira vista, é uma HQ de ficção científica nos moldes tradicionais. De fato, todos os marcadores do gênero estão por lá. Mas, logo de cara nos deparamos com uma trama muito mais complexa que usa do melhor do estilo para discutir questões como identidade e papéis de gênero. Em um futuro mais ou menos distante, humanos criam filhos robóticos desenvolvidos a partir de inteligência artificial avançada. Jesse, uma garotinha de nove anos é enviada da Coreia para os EUA, onde é adotada por um casal. Com o passar do tempo, ela passa a questionar sua existência ao descobrir que não é inteiramente humana. Jesse parte então em uma jornada de autoconhecimento cheia de perigos que vai afetar essa sociedade futurística como um todo. | Compre.


17
O Fim da Noite
Rafael Calça (roteiro) e Diox (arte)

Darkside

Os quadrinistas Rafael Calça (Jeremias – Pele e Jeremias – Alma) e Diox se inspiraram de suas avós, mães e tias para criar essa comovente história que atravessa três gerações. A partir de Aurora, que trabalha como empregada doméstica desde os dez anos de idade, acompanhamos a história de três mulheres negras na sua resistência diária por sobrevivência e direitos básicos. Vencedora do primeiro Prêmio Machado de Assis, que contou com mais de 5 mil inscritos, a HQ nos ajuda a compreender como o racismo estrutural é o principal pilar de sustentação das injustiças sociais presentes no Brasil. As histórias narradas a partir de Aurora falam ainda da normalização do preconceito que ainda encontra eco na sociedade de hoje e sobre a violência que acomete pessoas negras em sua maioria. | Compre.


16
Cuspa Três Vezes
Davide Reviati

Veneta | Tradução de Rogério de Campos

Davide Reviati, um dos grandes nomes do quadrinho italiano (foi vencedor do Prêmio Micheluzzi), construiu essa impressionante narrativa em preto e branco para falar de empatia e amizade. Sua história é imensa (mais de 550 páginas), mas também leve, pois discorre com a fluidez do tempo adolescente, bem fugidio e breve. Acompanhamos a história de Guido, Moreno e Katango, um grupo de jovens moradores de um subúrbio rural, que convivem com famílias de nômades eslavos nas redondezas (“ciganos” no linguajar dos habitantes locais). Entre eles está Loretta, uma misteriosa menina “selvagem”, vista como bruxa. Um livro que se impõe pela força de seu desenho e pela força de sua narrativa, ao mesmo tempo violenta e bela. | Compre.


15
Todas As Pedras no Fundo do Rio
Wagner Willian

Texugo

Certamente não há limites para a inventividade de Wagner Willian, que aposta em diferentes gêneros e estilos narrativos a cada nova HQ. De constante mesmo está o seu traço fluido, cheio de dinamismo e que, aqui, ganha ainda o tempero de cores claras e vibrantes que contrasta com a violência apresentada na trama. A obra nos transporta para um fictício país isolado da América do Sul, onde imigrantes fugidos do Sul dos EUA, russos e brasileiros vivem as tensões de uma revolução racial. Passada no pós-Segunda Guerra Mundial, a HQ de William usa de forma inteligente essa reinvenção da história para criar paralelos com o tempo presente. Isso sem falar no tom de suspense e aventura cheio de reviravoltas que torna a leitura envolvente desde as primeiras páginas. | Compre.


14
Inferno
Jonathan Hickman (texto), R.B. Silva, Stefano Caselli, Valerio Schitti

Publicado em X-Men 51 e 52, Panini | Tradução de Mario Luiz C. Barroso

Com a reformulação que propôs aos X-Men (Dinastia X e Potências de X, em 2019), Jonathan Hickman elevou o patamar não só das histórias dos mutantes da Marvel, como os gibis de super-heróis como um todo. A partir de agora, qualquer empreendimento de inovação no gênero precisa avançar além do que foi mostrado por aqui. E Hickman fez isso sem desmerecer todo o legado de histórias anteriores – ao contrário, sua passagem pelos títulos X também pode ser visto como uma imensa homenagem às sagas clássicas desses personagens. A culminância de sua contribuição é essa saga Inferno, publicada pela Panini em duas edições e que encerra uma enorme fase dos X-Men. Os mutantes precisam enfrentar a maior crise já vivida em Krakoa, após assuntos não resolvidos voltarem à tona para desestabilizar a frágil utopia vivida na ilha-viva. A série conta com desenhos do brasileiro R.B. Silva, que também fez parte da estreia dessa fase e que retorna agora para este fechamento. | Compre.


13
Ragu #9 (antologia)
Alessandro Barros, Aline Lemos, André Kitagawa, Beatriz Shiro, Carolina Itzá, Célico Cecare, Christiano Mascaro, Ciço Silveira, Denny Chang, Diana Salu, Emilly Bonna, Eryk Souza, Evandro Renan, Fabio Cobiaco, Flavão, Guazzelli, Helô D’Angelo, Jaca, Jéssica Groke, João Lin, João Pinheiro, Jota Mendes, Livia Deboni, Luciano Feijão, Lume, Luli Penna, Mariana Waechter, Neilton, Pedro Mancini, Raul Aguiar, Rogi Silva, Sol Diaz, Taís Koshino, Veronica Nuvem e Zimbres

Cepe HQ/Cepe

Com o seu retorno na edição 8, a Ragu tornou-se a principal vitrine para a diversidade temática e narrativa do quadrinho brasileiro contemporâneo. Sem um tema específico, cada edição dedica-se a trazer uma variedade de artistas de diferentes estados e gerações para dar uma ideia da riqueza presente na cena hoje. Esta edição #9 mais uma vez coloca no mesmo conjunto veteranos como Fabio Zimbres, Luli Penna, Guazzelli, João Lin e Mascaro (esses dois últimos fundadores da revista) e novos nomes como Taís Koshino, Rogi Silva, Lume e Jessica Groke, entre outros. A capa ficou a cargo de Eryk Souza, artista revelado no projeto Narrativas Periféricas e que aqui traz uma arte futurística-tropical que chama atenção pela riqueza de detalhes e pela inventividade. A capa dá o tom das histórias da edição que, apesar de não serem inteiramente temáticas, conseguem captar o espírito do momento na arte, que é pensar os futuros possíveis para o Brasil. | Compre.


12
Dias
Lume

Darkside

Independente

Lume (nome artística de Luiza Nasser) fez uma HQ inventiva e emotiva na mesma medida neste Dias. A obra foi toda feita em madeira usando técnicas de xilogravura, que colocam em xeque a própria narratividade da linguagem dos quadrinhos ao propor novas possibilidades ao formato físico da HQ. A escolha por esse recurso se conecta com a trama do gibi, que acompanha uma mulher que retorna ao seu país após um longo período de retiro no Oriente. Agora, ela terá que lidar com a inadequação de sua volta e com as questões existenciais que trouxe na bagagem. Dias é na verdade uma obra dentro da obra, pois estamos acompanhando uma personagem de um filme, que está sendo assistido pela narradora da HQ (e também, em alguma medida, por nós). Silhuetas, sombras e os sulcos delineados na madeira acabam servindo para carregar uma trama que fala muito sobre uma busca de nós mesmos. E sabemos que essa busca, muitas vezes, é uma angustiante jornada tateando na escuridão. | Compre via Instagram da autora.


11
My Broken Mariko
Waka Hirako

JBC | Tradução de Caio Pacheco.

Lidar com o suicídio de alguém é uma das mais pesadas cargas emocionais que alguém consegue carregar. Esse é o mote de My Broken Mariko, uma delicada obra da mangaká Waka Hirako que chegou ao Brasil em uma linda edição da JBC. O mangá mostra a jornada de Tomoyo Shiino para compreender as razões pelas quais sua amiga decidiu tirar a própria vida. A obra certamente causará gatilhos em alguns leitores, mas a autora trata o tema com muita sensibilidade e cuidado ao concentrar sua atenção nas pessoas que ficam. Aborda ainda temas pesados como abuso, abandono e depressão, sem nunca incorrer no sentimentalismo ou julgamentos disfarçados. A arte de Hirako é cheia de expressividade, mas também faz uso de espaços vazios, sombras e “silêncios”, que envolvem ainda mais o leitor em sua trama. | Compre.


10
O Homem Rabiscado
Serge Lehman (texto) e Frederik Peeters (arte)

Nemo | Tradutor: Fernando Scheibe

Três gerações de mulheres estrelam esse conto de fadas moderno e sombrio orquestrado por Serge Lehmer e Frederik Peeters. Maud Couvreur é uma autora famosa de livros infantis que sofre um AVC repentino e é hospitalizada. Isso acaba trazendo à tona um segredo de família que faz um misterioso ser coberto de penas aparecer para cobrar seu dinheiro. Sua filha, Betty, que há anos não fala uma única palavra após um trauma e a neta adolescente Clara, decidem partir em uma jornada em busca de respostas. A trama intrincada cheia de reviravoltas reverencia os clássicos europeus de suspense e terror, mas é a sensibilidade dos autores em unir esses gêneros com o drama familiar que faz toda diferença aqui. A excelente ambientação de uma Paris opressora e sombria é outro ponto de destaque desta HQ que fala sobre o poder das relações familiares. | Compre.


09
A Mão Verde e Outras Histórias
Nicole Claveloux e Édith Zha

Comix Zone | Tradução de Fernando Paz

Nomes relevantes da história dos quadrinhos, ainda inéditos ou fora de catálogo, vem ganhando destaque no Brasil graças a edições que revisitam obras importantes com a reverência que merecem. É o caso dessa coletânea de Nicole Claveloux e Édith Zha, que ganhou uma bem cuidada edição da Comix Zone. As histórias presentes aqui foram publicadas na clássica revista francesa Métal Hurlant e nunca tinham sido editados por aqui. Os desenhos de Claveloux são inebriantes e possuem uma exuberância que beira o expressionismo. A história do título, escrita por Édith Zhaa, por exemplo, trazem à tona o bizarro e o inesperado ao mostrar a jornada de uma mulher em meio a plantas falantes e um misterioso corvo melancólico. Uma edição importante para destacar a contribuição importante de duas mulheres inventivas e ainda pouco reconhecidas no meio. | Compre.


08
Árduo Amanhã
Eleanor Davis

Tordesilhas | Tradução de Érico Assis.

A obra de Eleanor Davis é mais um desses casos em que os quadrinhos furam a bolha para ganhar destaque amplo na mídia. O ponto de atenção aqui se deu graças à narrativa envolvente sobre empatia e a importância da coletividade. A história foca em Hannah, uma jovem mulher que é ativista antiguerra. Ela mora em um trailer com seu marido, um maconheiro que passa os dias procrastinando na construção de uma casa para o casal. Ambos tentam engravidar do primeiro filho. A trama ainda foca atenção nas amigas ativistas da protagonista, entre elas Gabby uma naturalista, que passa a questionar os posicionamentos da amiga e Tyler, o amigo do marido, um teórico da conspiração e adorador de armas. Davis consegue construir uma trama complexa que discute questões atuais com a profundidade necessária sem trazer resoluções ou soluções definitivas. Na verdade, trata-se de uma HQ que amplia nossa reflexão sobre o futuro que viveremos a partir das conexões políticas e afetivas que criamos. Do texto de nossa reportagem escrita por Laura Machado: “Contada através do traço minimalista de Davis, a narrativa é uma lembrança do que o futuro do mundo pode se tornar, mas também uma lembrança sobre o poder da esperança, do otimismo e do amor. Delicada e poderosa, a história criada pela artista retrata a luta para manter a identidade e o direito de ser diferente em meio a um governo fascista, cujo mote parece ignorar a humanidade dentro das pessoas.” | Compre.

Leia mais: Entrevista com Eleanor Davis.


07
Todas As Bicicletas Que Tive
Powerpaola

Lote42 | Tradução de Nicolás Llano Linares

Dona de uma narrativa e estilo únicos nos quadrinhos, a equatoriana Powerpaola baseia suas obras a partir das observações pessoais em trabalhos com uma forte carga autobiográfica. Depois de discutir questões ligadas ao seu longo relacionamento (Qp) e de seu romance de formação, Vírus Tropical, sobre sua família, ela agora concentra sua atenção na relação que estabelece com as cidades através do ato de pedalar. Da nossa crítica assinada por Paulo Floro: “O livro o tempo todo busca articular referências ligadas ao ato de pedalar, como a liberdade de se deslocar livremente e o equilíbrio necessário para pilotar, mas sem cair em maneirismos ou clichês. Ao contrário, Powerpaola faz aqui uma escrita muito bem construída, quase meticulosa. Ela pouco a pouco vai adicionando uma série de elementos que vão ganhando mais e mais tração ao longo do livro, como um perigo iminente ligado à figura de um jacaré e o mistério que se desenvolve ao redor de um buraco que ela encontra no meio da rua. “Quando vejo um buraco escuro, não posso evitar olhar pra dentro dele”, diz.”.

Leia mais: Lançada simultaneamente em seis países, Powerpaola propõe jornada afetiva em nova HQ.


06
Nectarina
Lee Lai

Veneta | Tradução de Ludimila Hashimoto

O casal queer Bron e Ray veem o relacionamento desabar à medida em que os demônios pessoais de cada uma das metades começa a reaparecer. Bron tenta reatar os laços com sua família, que nunca aceitou sua identidade de gênero. Já Ray lida com as próprias inseguranças enquanto tenta apoiar sua irmã sobrecarregada. No meio das duas jovens está a pequena Nessie, sobrinha de Ray, que proporciona momentos de felicidade para ambas. A artista canadense LGBT Lee Lai entrega uma comovente obra sobre tolerância e o poder dos vínculos afetivos que construímos. Lai tem um narrativa muito dinâmica e um roteiro que usa pequenos momentos cotidianos para abordar temas mais amplos. Destaque ainda para os lindos momentos de representação da imaginação infantil nas brincadeiras do trio, em que todos assumem feições monstruosas. | Compre.


05
Dias de Areia
Aimée de Jongh

Nemo | Tradução de Fernando Scheibe.

Os últimos anos nos lembraram da importância da fotografia como um testemunho da história humana com todas as suas alegrias e tragédias. Uma foto consegue, mais do que apenas comunicar, confluir sentimentos e pujança que revolve as emoções de quem vê. Ninguém sai impassível de uma grande fotografia. É esse o mote de Dias de Areia, da quadrinista holandesa Aimée de Jongh. A obra aborda a história de John Clark, um fotojornalista de 22 anos que foi contratado por uma agência norte-americana para testemunhar o drama de agricultores vítimas da Grande Depressão de 1922. A autora consegue envolver o leitor com seu traço realista e com a capacidade de dar vida à personagens cheios de nuance, como já ficou comprovado em sua ótima obra, Táxi. | Compre.


04
Andei Por Entre As Frestas e Te Trouxe Flores, Pedras e Algumas Miudezas
Paulo Crumbim

Mino

Como dar conta do estado de caos que o Brasil vivenciou nos últimos anos? Paulo Crumbim junta-se ao grupo de quadrinistas cujas obras se lançaram ao desafio de comentar de maneira subjetiva o momento em que vivemos. Mais do que fazer um retrato panorâmico da situação atual do país, Crumbim se joga em uma narrativa experimental que mistura diferentes estilos em uma história não-linear que tem como principal objetivo criar uma imersão sensorial que dê conta do tom de absurdo que vivemos coletivamente. Essa aparente confusão estética e narrativa é parte do comentário do autor, que coloca aqui todos os anseios, angústias e tensões de um país à beira do colapso. É um trabalho ousado, que faz um uso inteligente e provocativo da linguagem dos quadrinhos para avançar com muita segurança no território da arte contemporânea. | Compre.


03
Mukanda Tiodora
Marcelo D’Salete

Veneta

Marcelo D’Salete trouxe uma enorme contribuição à arte brasileira ao trazer a perspectiva negra para a nossa história ao contar a formação do Quilombo dos Palmares, em Angola Janga, obra que ganhou o Jabuti de melhor HQ em 2018. Foi durante as pesquisas para este livro que o autor se deparou com a história de Tiodora Dias da Cunha, uma mulher negra nascida no Congo e trazida ao Brasil como escravizada em meados do século 19. Com a ajuda de outro escravizado, Claro Antônio dos Santos, Tiodora passou a escrever cartas para tentar encontrar o seu marido e filho, além de, claro, buscar sua alforria (todas as cartas estão preservadas no Arquivo Público do Estado de SP). Depois de falar da resistência contra a escravidão (mote também de outra obra incrível, Cumbe), D’Salete decidiu lançar seu olhar para os seus antepassados. Novamente calcado na pesquisa histórica, o autor revelou os meandros do sistema escravista brasileiro e apresentou detalhes pouco conhecidos de um tipo diferente de resistência, a escrita e as negociações políticas e econômicas. É também um livro que se aprofunda nas marcas que a escravidão deixou na cidade de São Paulo. O livro traz ainda Marcelo D’Salete explorando novos estilos de seu traço, agora com áreas pretas mais acentuadas, que se aproximam da gravura, o que confere um tom ainda mais dramático para as páginas. | Compre.


02
O Lugar Errado
Brecht Evens

Figura | Tradução Daniel Dago.

O quadrinista belga Brecht Evens é um dos nomes mais celebrados do quadrinho contemporâneo (premiado em Angoulême e quatro vezes indicado ao Eisner Awards) e chega ao Brasil pela primeira vez com O Lugar Errado, uma obra de forte impacto visual que inova no uso das cores e também na narrativa. O autor testa os limites da linguagem dos quadrinhos ao propor a quebra das sequências, do ritmo, dos enquadramentos e mesmo da noção espacial que delimita a passagem do tempo na leitura. Tudo isso é feito usando técnica de aquarela com uma paleta que foge do convencional. A trama acompanha dois personagens antagônicos, o carismático e festeiro Robbie e o pacato Gert, que vive uma vida cinzenta e rotineira. A relação dos dois é o mote para o autor falar de solidão, desejo de pertencimento e relações humanas com bastante sensibilidade. | Compre.


01
Monstros
Barry Windsor-Smith

Todavia | Tradução de Érico Assis

O tempo que levou para finalizar Monstros (nada menos que 35 anos), permitiu a Barry Windsor-Smith (Arma X) uma depuração raramente vista nos quadrinhos. Essa gestação longuíssima fez bem a essa obra, que foi ganhando um status de culto ao longo dos anos e que correspondeu à expectativa criada ao longo das décadas. Trabalhando no seu tempo, o autor conseguiu deglutir e incorporar todas as inquietações sociopolíticas do século 20 em uma obra que evidencia o poder da narrativa sequencial para contar uma boa história. É uma obra que reflete, sobretudo, sobre como a violência tem sido o fio condutor de toda a experiência humana, acentuada de maneira ainda mais intensa ao fim da Segunda Guerra Mundial. Da crítica da HQ, escrita por Alexandre Figueirôa: “Processo lento e difícil, nas palavras do próprio Windsor-Smith, em Monstros ele pode desenvolver em plena liberdade seu estilo narrativo cujo resultado é uma história complexa sobre a vida de duas famílias americanas, ligadas mortalmente a um projeto nazista de experimentos genéticos, retomado secretamente pelo governo americano.  O personagem central é Bobby Bailey, um jovem de 23 anos, marcado por uma infância dramática que, ao se alistar no exército em 1964, é recrutado para ser cobaia do projeto Prometheus. Ele acaba sendo transformado numa espécie de Frankenstein contemporâneo e pivô de uma série de acontecimentos trágicos. Monstros é poderosa por alinhar uma trama de ação, com todos os elementos caros ao gênero, a uma jornada intimista dos personagens envolvidos no enredo, na qual traumas psicológicos, fenômenos metafísicos e uma radiografia das relações de violência e poder são esmiuçadas com precisão cirúrgica. O roteiro joga com tempos diferentes correndo em paralelo e tece, com habilidade, as conexões que, pouco a pouco, enredam o leitor na história levando-o a compartilhar tanto as pequenas alegrias, as dores ou a melancolia dos protagonistas vítimas dos militares inescrupulosos, quanto um profundo asco e repugnância desses algozes de farda e armas que não são privilégio de uma nação ou outra, e existem seja no passado ou no futuro”. | Compre.

Leia mais: Monstros é uma experiência ímpar nos quadrinhos.

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