É difícil imaginar a arte e a maternidade sendo vividas de forma totalmente isolada, sem encontros, afetos e trocas, muito menos sem um compartilhamento com o outro das alegrias e dos desafios desses dois universos tão centrais na nossa sociedade. Com essa proposta foi lançado um projeto que instiga o pensar e o fortalecimento de elos entre artistas pernambucanas que exercem a maternidade: a – Rede Afetiva de Mães Artistas.

A iniciativa surgiu da amizade entre e e nasceu primeiro em 2019, ainda sem este nome oficial, com a produção de três obras desenvolvidas em conjunto. Agora, dois anos depois, a dupla decidiu ampliar o projeto com uma pesquisa que está mapeando mães-artistas em Pernambuco.

Desenho, pintura, gravura, escultura, arte têxtil, performance e audiovisual são algumas das linguagens abarcadas pela pesquisa, “é uma tessitura entre arte, pesquisa e maternidades, é um mapa afetivo que dá chão, nutre e faz expandir”, como dizem as organizadoras. E como é, também, entre tantas vivências e formas de ser, a maternidade.

Confira o bate-papo com Amandine Goisbault e Bruna Pedrosa, mães artistas e idealizadoras e pesquisadoras da RAMA:

Qual a origem do projeto? Como surge esse interesse de aproximar arte e maternidade?

A RAMA (Rede Afetiva de Mães Artistas) nasce do encontro de duas mães, Amandine Goisbault e Bruna Pedrosa, e dos diversos desdobramentos desse encontro.  Primeiro uma amizade entre duas mulheres, antes de nos tornarmos mães. Depois o compartilhar de nossos percursos gestacionais em paralelo, frequentando a mesma roda, parindo nossos filhos com a mesma parteira. Cada uma começou a tratar do tema da maternidade em seus trabalhos artísticos individuais e, em 2018, nos reencontramos durante a residência artística do projeto Confluências, promovido pelo Sesc Pernambuco.

O resultado desse encontro, em 2019, foi a produção conjunta de três obras: Mapa Afetivo da Maternidade (obra têxtil), Colo (performance) e Lembretes Urgentes (obra têxtil), essa última em parceria também com a artista Ana Flávia Mendonça. A partir daí, Amandine e Bruna, seguimos desenvolvendo trabalhos juntas, promovendo oficinas de mapas afetivos, sejam de temas abertos, sejam focadas nas parentalidades possíveis e, em 2020, em meio à pandemia, ao isolamento social advindo dela e à percepção da necessidade cada vez maior de falar desse universo das mães-artistas/artistas-mães, idealizamos este projeto de pesquisa para alcançar outras mães artistas, começando por Recife e Região Metropolitana, ampliando para Pernambuco e com um desejo imenso de seguir expandindo.

A pesquisa RAMA começa em fevereiro de 2021, com a aprovação do projeto cultural Artes e Maternidades no edital Formação e Pesquisa – LAB PE, com recursos da Lei Aldir Blanc, possibilitando o mapeamento estético-afetivo de cinco mães-artistas em Pernambuco e suas produções e processos criativos. A partir de entrevistas, nós coletamos relatos de experiência de Clara Moreira (Recife), Clara Nogueira (Olinda), Kalor (Camaragibe), Letícia Carvalho (Jaboatão dos Guararapes) e Rayana Rayo (Olinda), investigando os atravessamentos dessas duas condições — de mãe e de artista —, com o agravante do contexto atual em que vivemos.

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Quais são as linguagens contempladas pela iniciativa?

As linguagens contempladas pela pesquisa são (por enquanto) as linguagens das Artes visuais: fotografia, pintura, desenho, performance, gravura, arte têxtil, vídeo-arte, etc. Às vezes as fronteiras são porosas, e na nossa visão são artificiais, então gostaríamos muito de expandir a pesquisa a todas as linguagens artísticas, mas, por enquanto, precisamos fazer escolhas de recortes para poder dar conta de realizar esta pesquisa da forma mais profunda e completa possível. Por isso a escolha de começar pelas Artes visuais.

Para Amandine Goisbault, o trabalho das mulheres costuma ser menos valorizado nas artes (Foto: Divulgação)

Como as atividades são desenvolvidas? Como funciona a dinâmica de vocês?

Nesta primeira etapa do projeto, nós tivemos reuniões entre nós, Bruna Pedrosa e Amandine Goisbault, e também uma primeira reunião com nossa orientadora, Maré de Matos. Ela nos ajudou a afinar e definir melhor os critérios do recorte da pesquisa. Quem consideraríamos como artistas? Quais linguagens artísticas seriam contempladas? Qual seria o recorte geográfico? Etc. Esta primeira etapa do projeto, financiada pela Lei Aldir Blanc, teve um prazo apertado, então tivemos que realizar tudo muito rapidamente. Pedimos indicações de mães artistas nas nossas redes e fizemos uma primeira lista de mães-artistas que conhecíamos ou das quais tínhamos ouvido falar ou que foram indicações. Pelo pouco tempo, tivemos que escolher apenas cinco mães artistas para entrevistarmos e ouvirmos com mais tempo. Realizamos entrevistas presenciais com elas e gravamos em áudio e vídeo. Editamos então um vídeo com trechos destas entrevistas, além de um vídeo mais completo com cada uma das artistas, juntando as entrevistas com imagens das obras delas.

Chamamos esta série de vídeos de Conversas com artistas mães, e fomos publicando no canal de Youtube da RAMA. Acreditamos que estes vídeos permitiram tocar e emocionar o público no seu primeiro contato com nossa pesquisa e com os temas que levantamos, e que as artistas mães levantam de maneira quase equânime: as dificuldades de ser mãe artista, a invisibilidade e desvalorização das mães (e das cuidadoras em geral), a falta de tempo para produzir e cuidar das crianças, etc.

Também temos a sorte de trabalhar com a designer Laura Morgado, artista e mãe de três crianças, que desenvolveu a identidade visual do projeto e criou nosso site, que já está no ar. Na ocasião do lançamento, realizamos duas lives com as cinco artistas entrevistadas, que continuam online no canal de Youtube. E nossa assessoria de comunicação foi feita por Aline v. Linden.

Nesta primeira etapa, lançamos então nossa chamada Vem pra RAMA para que mais artistas mães se aproximem e façam parte desta pesquisa e rede afetiva. Elaboramos um formulário com perguntas relativas a informações tanto quantitativas quanto qualitativas, e convidamos as mães artistas do estado a preencherem este formulário, importante para o mapeamento quantitativo e a pesquisa qualitativa que estamos iniciando.

No momento, 24 artistas mães de diversas linguagens já responderam e tem sua página no site. Sabemos que existem muito mais, e que este mapeamento estético afetivo está acontecendo, ele vai crescer e se ampliar cada vez mais. Estamos entrando em contato com mais artistas mães, e pedindo que todes incentivem as artistas mães que conhecem a preencher o formulário ou entrar em contato conosco para fazer parte desta iniciativa. Provavelmente, não será fácil alcançar todas as artistas mães, mas nosso esforço está sendo nesta tentativa de fazer conhecer o projeto para que ele chegue no maior número possível de artistas mães.

É possível falarmos em termos de mapeamento estético e afetivo de mães-artistas em Pernambuco? Em suas pesquisas, já há dados neste sentido?

A RAMA · Rede Afetiva de Mães Artistas é uma tessitura entre arte, pesquisa e maternidades, é um mapa afetivo que dá chão, nutre e faz expandir. Queremos apoiar e impulsionar o trabalho de mães-artistas, fomentar reflexões sobre o tema da maternidade e interseções, ser espaço de trocas e, mais ainda, de escuta. Pelos retornos que estamos recebendo do público, e, em particular, das artistas mães que descobrem o projeto, estamos percebendo o quanto existe uma demanda enorme por parte das artistas mães por este espaço de trocas, de escuta, às vezes, de desabafo. A gente se reconhece nas histórias das outras e aí se sente menos só nas dificuldades que está passando.

A tentativa é a de dissociar a palavra “mãe” da palavra “culpa”.

No cenário brasileiro, palco de machismo, racismo, misoginia e desigualdade, o desafio é maior no universo das artes para as mulheres? Quais são os obstáculos?

Em um cenário ainda muito machista, racista e desigual, o universo das artes ainda é de mais difícil acesso para as mulheres, em especial no lugar da criação e expressão artística, mais ainda se mães, pretas, indígenas, periféricas, LGBTQIAPN+.  O trabalho das mulheres costuma ser menos valorizado, as mulheres podem sofrer machismo e racismo no circuito das artes. Os obstáculos para as artistas mães são múltiplos: a divisão do tempo para o processo criativo e os cuidados com as crianças, a dificuldade de estar em espaços de socialização e trabalho à noite, a não valorização de certas temáticas nas obras, como a própria temática da maternidade do ponto de vista das mães, etc.

O nosso objetivo é apoiar e tornar mais visível o trabalho das mães-artistas; fomentar reflexões sobre o tema da maternidade e assuntos por ele atravessados; gerar encontros, trocas, ações de arte-educação, além de ser um espaço de escuta. A RAMA é um projeto de mães, sobre mães, para mães, e para todes que acreditam que diferentes maternidades podem e devem ser experiências de potência, criação e amor.

Como tem sido o trabalho dessas mães-artistas na pandemia? O que mudou?

A pandemia piorou muito o cenário para as artistas mães, pois muitas vezes ficaram ainda mais isoladas, em casa com suas crias, sem escola, sem rede de apoio, tendo que (tentar) trabalhar com as crianças em casa, o que gera um cansaço e uma frustração enormes, pois não conseguem nem trabalhar direito nem estar plenamente presentes com suas crianças. Muitas vezes a produção artística ficou completamente parada. Muitas vezes, as artistas mães precisam recorrer a outros trabalhos para sobreviver, portanto o processo criativo e o tempo para produção artística fica muito prejudicado, o que piora muito em tempo de pandemia. RayanaRayo fez uma vídeo-arte muito potente sobre seu processo criativo, onde ela mostra de maneira acelerada sua tentativa de realizar uma tecelagem. O filho chega, puxa ela, mama, brinca, conversa, ela prepara um lanche para ele, ela é interrompida o tempo inteiro. Faz, desfaz, no final desfaz tudo o que fez, fazendo a gente refletir sobre esse tempo da criação, a dedicação que precisa para criar uma obra e o tempo que precisa para criar uma criança. Como ela mesma diz “A conta não fecha”. No geral, as mulheres que são as que mais assumem funções de cuidados na sociedade, estão muito mais sobrecarregadas na pandemia, tendo que assumir cuidados com outras pessoas (crianças, idosos, companheiros) além de continuar trabalhando. Na academia, a produção das mulheres (a nível mundial) despencou na pandemia, enquanto a produção dos homens aumentou. E assim vai em todas as áreas.

“As mulheres que são as que mais assumem funções de cuidados na sociedade, estão muito mais sobrecarregadas na pandemia”

Para vocês, o que é o poder materno no século XXI? Já é possível falar em uma nova concepção de maternidade?

O poder materno é a autonomia. A única coisa realmente urgente é viver. Então, acreditamos que podemos viver mais e aprender com a nossa vivência com nossas crias e nos preocupar menos em ter domínio sobre o conhecimento produzido sobre o tema, sobre toda a cartilha criada, sobre se estamos agindo da forma “correta”. A tentativa é a de dissociar a palavra “mãe” da palavra “culpa”. Não acreditamos num conceito engessado de maternidade, então preferimos não falar em uma nova “concepção” porque definir é engessar. Acreditamos que as mulheres devem ser a mãe que quiserem, puderem, conseguirem ser, com menos julgamento e mais auto-acolhimento a amor próprio. Nós já estávamos aqui antes dos nossos filhos chegarem, e seguiremos, provavelmente, sem eles, quando atingirem a vida adulta. Então, acreditamos que devemos nos unir, formar redes, para que possamos compartilhar cada vez mais o tempo e o cuidado com as crianças e encontrarmos tempo pra nós e pra tudo que nos alimenta e constitui nossa felicidade, além des filhes. 

Como o público pode ter acesso ao trabalho da RAMA?

Convidamos as mães artistas visuais de Pernambuco a entrarem em contato conosco e a preencherem o formulário da pesquisa, na aba Vem para a Rama do nosso site. E através do link você pode acessar todas as nossas redes virtuais.

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