Banda Eddie mantém identidade e reflete sobre injustiças sociais em novo disco (Foto: Fred Figueirôa / Divulgação)

Lá se vão três décadas desde que a Eddie estreou no cenário musical pernambucano com o álbum Sonic Mambo. Durante os últimos 30 anos, a banda consolidou-se como uma das maiores da música de Pernambuco e construiu uma identidade sonora única. A banda lançou este ano o disco Atiça, o oitavo de sua carreira. “Já foram dois anos do último lançamento e sentimos falta de fazer coisas novas”, conta Fábio Trummer, vocalista e guitarrista da banda.

Nascida em Olinda, a Eddie, que tem o vocalista como único remanescente da formação original, sempre teve um set list carnavalesco. Com os anos, claro, o caldo foi engrossando e, hoje, tem alguns clássicos do frevo e outras ousadias rítmicas, como adaptar boleros para o folião dançar agarradinho. “A gente não poderia ter outra identidade”, revela Trummer.

Com as participações especiais de Sofia Freire, Isaar, Ganga Barreto e Orquestra Henrique Dias, o disco percorre questões sociais, anseios, dores e os mais diversos sentimentos humanos que nos são possíveis.

Trummer compõe a atual formação do grupo ao lado de Alexandre Urêa (percussão e voz), André Oliveira (trompete, teclados e sampler), Rob Meira (baixo) e Kiko Meira (bateria). Batemos um papo com o vocalista a respeito do novíssimo trabalho da Eddie. Confira:

“Apocalíptico”, por exemplo, aborda a invasão da religião e a interferência da justiça. Vocês levaram em conta dar um tom bastante político às letras do novo disco?

“Apocalíptico”, “Amassando Amassa” e “Atiça” falam de uma preocupação antiga nossa. O espaço cada vez maior nos meios de comunicação e nas instituições e gestões públicas do patrimonialismo da ala religiosa conservadora, da ala de segurança pública, mais politização da justiça, a manipulação da informação, a velha e mortal impunidade… se você ouvir os oito álbuns do Eddie vai ver que esse olhar “social” sempre esteve presente, uma herança da nossa primeira escola, o punk rock. Mas não é uma visão ideológica partidária, cantamos isso faz mais de 30 anos. 

“É bom pra gente ser associado ao frevo e ao carnaval”, celebra Trummer (Foto: Divulgação)


Podemos dizer que o álbum é a tentativa de criar um “frevo contemporâneo”, algo diferente do que já foi feito com as músicas de Carnaval? O que de inovador o disco apresenta?

Não diria que estamos tentando fazer um frevo contemporâneo. O que usamos são levadas rítmicas e alguns desenhos melódicos do frevo tradicional para nossa música rock. Também já fazemos isso desde o início da banda. O frevo é um recurso que temos assim como o punk rock ou o reggae. E nos é natural, espontâneo. Nos pareceu interessante pensar um álbum a partir destas levadas características do frevo, da música cigana dos balkans, afrobeat, New Orleans ou das orquestras irlandesas. Há uma energia e um estado de espírito incutidas na dinâmica destas “levadas” que nos instigou a seguir este caminho. 

Como foram os processos de criação e gravação?

O processo de criação é contínuo, é o nosso trabalho também, já foram dois anos do último lançamento e sentimos falta de fazer coisas novas. Trabalhar em estúdio, a parte mais legal da criação. Poder vestir as canções, pensar conceitos, seguir a intuição e ver se no fim acertamos o alvo, esse prazer é uma das melhores partes da vida de um músico.  Gravamos na nossa produtora em Olinda velha, antes e durante a pandemia, o que foi pra gente uma experiência nova ter que fazer um álbum com o tempo estendido, o lado A saiu um ano e cinco meses antes. Veio a pandemia e ficamos quase oito meses sem contato com a música. Daí a cabeça voltou pro lugar, começamos a trabalhar à distância por Whatsapp ou email, montamos as demos e a música fluiu nas sessões de gravação que seguimos com rigorosos protocolos de higiene.

Se você ouvir os oito álbuns do Eddie vai ver que esse olhar “social” sempre esteve presente, uma herança da nossa primeira escola, o punk rock.

Há algumas participações especiais no disco, né?

Temos várias participações. Queríamos ter outras expressões no nosso trabalho, fazer um álbum que tivesse uma diversidade. O que nos leva a se comunicar com pessoas de outros universos musicais, aprender com eles, se comunicar com novas gerações ou afirmar uma parceria boa. Isaar de França, Sofia Freire, Samuca no bandolim, João do Cello, Fino no contra baixo…

Há um público da nova geração que acaba conhecendo o frevo através da música da Eddie, por exemplo. Vocês se sentem um pouco responsáveis por esse movimento de renovação do nosso Carnaval?

É bom pra gente ser associado ao frevo e ao carnaval. Esse foi um trabalho que começamos ainda no século passado, pensamos em fazer música para nossas festas populares, era um caminho lógico para quem pensava em ter longevidade numa carreira profissional. É a época de maior oportunidade de trabalho no ano. Mas também é uma fonte de inspiração magnífica, os traços culturais que estão presentes nessa atmosfera são grandiosos, de excelência, foi uma “sacação” que nos daria prazer, identidade e trabalho.

O frevo é um ritmo mal cuidado?

Acho que o frevo é um acontecimento cultural magnífico.  Perdura seu entusiasmo há tanto tempo. Acho que tem muita gente tentando fazer igual ao que já foi feito por grandes criadores. Repetindo a poesia, as harmonias, a simbologia, as expressões, como se estivéssemos no passado. Uma repetição. Com algumas exceções ou mesmo algumas homenagens bem conduzidas. 

De que forma a pandemia influenciou a rotina da banda?

A pandemia cessou com as apresentações, parte importante para que o todo funcione. Tivemos que nos adaptar e tentar produzir do jeito que desse, pois seria um longo tempo sem trabalho e isso poderia afetar gravemente a nossa comunicação com o público, afeta o lado emocional, financeiro de toda nossa equipe…

É verdade que, no início, a banda tocava covers?

Sim, começamos tocando Ramones, Pixies, Iggy & The Stooges, Jorge Ben, Garotos Podres…

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O Manifesto do Mangue, que inaugurou o manguebeat, data de 1992 e a banda de vocês é do final dos anos 1980. Podemos dizer que a Eddie antecipou o movimento manguebeat?

Parte do que me fez levar o Eddie adiante e mesmo formar a banda foram a Mundo Livre, Orla Orbe que depois veio a se chamar Chico Science e Nação Zumbi. Os caras já existiam e tocavam parte do repertório que veio ser gravado e popularizado depois. O Eddie é um caçula dessa geração.

O Eddie tem uma conexão muito forte com Olinda. Como a cidade influencia o som da banda?

Acho que a Eddie é nossa identidade. Eu ouvia nos anos 80 bandas inglesas e dava pra sacar características diferentes entre as bandas de cada cidade, as diferenças das bandas de Boston e NY, mesmo Detroit… A gente não poderia ter outra identidade. E como falei antes, ser olindense é um recurso que não dá pra negar, sua pluralidade e vocação cultural é única.

Como foi a influência de Erasto Vasconcelos no som de vocês?

Erasto foi o cara que nos deu autenticidade ao entrar em alguns territórios da música popular brasileira e global, a sua grandeza de obra e espírito. Nosso grande amigo, poeta, professor.

Qual a posição da Eddie diante do cenário político brasileiro atual?

Do cenário político o Eddie é somente um espectador aterrorizado com o amadorismo e falta de planejamento generalizada que vivemos desde o golpe contra Dilma.

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